temos medo, muito medo, da morte. Mas tememos ainda mais a vida. Ah, essa merda de vida… “Viver é perigoso, seu moço!”, avisa o jagunço Riobaldo em “Grande Sertão Veredas”. Por isso, para escapar do perigo, recorremos ao queijo branco, à vidente, ao pilates, à cabala light da Madonna, ao ansiolítico, às cercas elétricas, ao Dr. Hollywood, ao brócolis.

queremos, enfim, viver “em segurança”.

ora, não há como blindar a vida, seu moço. Quer segurança? Estoure os miolos com um balaço de espingarda ou se jogue do décimo andar de um prédio e “descanse em paz”.

afinal, só os mortos não correm riscos. Seres em movimento, com contas para pagar, filhos para criar e uma existência inteira para suportar, estão sempre sujeitos ao imponderável. “Vai que…”

esse desejo contemporâneo de viver mais e melhor, com “saúde total” e “alma lavada”, não combina com a nossa vontade louca de simplesmente viver. Jimi Hendrix e Janis Joplin viveram apenas 27 anos. Mas, acredito eu, devem ter vivido intensamente. Não tentaram “enganar” a vida com Light Shake.

como você, temo o câncer, temo a bala perdida, temo a fralda geriátrica, temo a morte. Minha grande dúvida é: será que vale a pena “pisar no freio”, abrir mão das coisas gostosas e arriscadas e viver 100 anos?

e se lá na frente eu descobrir que, para escapar do perigo, eu parei de viver aos 20?

11: 24: 26

E ele explodiu.

Com o peito ainda arfando e encharcado de suor, despencou a cabeça no travesseiro. Ao seu lado, a respiração dela misturava-se com a sua, com ambas dançando pelo quarto, feito notas musicais que procuravam desesperadamente por uma harmonia única.

Ao som deste baile, fechou os olhos e mergulhou na escuridão, plácida e tranquila, como a superfície de um lago negro. E, sentindo a pele molhada, avistou vislumbres de memórias há muito perdidas, tornando-se rei de cada uma delas. De repente, podia sentir todas as sensações de sua vida, percebendo o quarto abafado e cada um de seus objetos de forma inédita.

Sentia o lençol sobre sua pele, cada gota de suor escorrendo pelo seu corpo e o contato com o corpo quente dela que lhe distribuía pequenos choques coloridos pela pele. E deixou de ser rei para se tornar menino, menino daqueles que pode perder tardes e mais tardes andando descalço na chuva por saber que jamais irá envelhecer. Seu calor havia congelado o tempo.

Aos poucos, as cores que pintavam seu cérebro começaram a desfocar. Teve vontade de esticar o braço para agarrá-las, mas seus músculos, preguiçosos de amor, não lhe obedeceram. Para sua surpresa, descobriu que não se importava, enquanto as cores sumiram. Abriu os olhos em busca de um vestígio das cores, mas tudo o que viu foi um amarelo vivo que quase o cegou.

Eram os olhos dela. Eram os olhos do Sol.

Sorriu e adormeceu exausto.

E o relógio digital, esquecido ao lado, silenciosamente transformou-se em 11: 24: 27.

Pra começo de conversa:

Você é altamente egoísta em tudo. Tudo. Todas as suas atitudes são em benefício próprio e mais nada. Você pode discordar, mas eu não estou errada. Então pare de se fazer de alma caridosa e preocupada com os assuntos do mundo. Você simplesmente não se importa. E eu e você sabemos disso.

Segundo ponto:

Seu cachorro não te ama. Ele obedece aos instintos de matilha dele. Quando você se torna o alfa da matilha, ele é submisso a você. E é disso que você gosta: submissão. Você chama isso de amor incondicional porque, encaremos os fatos: você precisa de alguém que dependa exclusivamente de você pra se sentir amado, útil e suprir esse vazio que você é em meio a sete bilhões de outros seres humanos tão descartáveis quanto você.

Terceiro ponto:

Albert Einstein uma vez disse que todo espírito grandioso encontra a oposição violenta de mentes medíocres.
Malcolm X e Martin Luther King provam mais uma das teorias de Einstein.

Com isso dito, não, eu nunca fiz um aborto. E não, eu não sou uma feminista com pernas peludas e uma amante chamada Marta. Não fui abusada sexualmente durante a infância e não tenho raiva de homens. Então relaxa. Guarde seus argumentos irracionais para quando seu time de futebol perder o campeonato, por um gol, na final.

Meu ponto é que eu nasci com uma vagina e fui hostilizada por isso durante dezenove anos, em um país no qual eu não tinha direitos civis. Cresci achando que isso era normal. Eu ainda não tinha relacionado todo sofrimento da minha vida ao fato de ter nascido mulher… Até que eu saí do país. Até que eu me formei na universidade. Até que eu conheci a história do movimento feminista.

E então eu olhei para todas as brasileiras que eu tinha conhecido até ali, incluindo minha mãe, minhas tias, minhas irmãs… E senti uma pena profunda do produto machista no qual elas tinham se tornado.

Eu tinha sido criada para me sentir inferior. Sempre. Então eu me casei e pensei que eu nunca seria alguma coisa senão a sombra de um homem que me ajudava a terminar a faculdade. Só tinha um problema: eu sentia que estava tudo errado.

Não foi até eu me separar que eu descobri que, em menos de seis meses, eu estaria ganhando o dobro do que o meu ex-marido ganhava. Não que eu seja o que eu ganho. Não que eu não estivesse agindo como um homem. A verdade é que eu era só alguém que tinha se libertado da condição de escrava. Eu era qualquer outro ser humano livre.

Teddy Roosevelt uma vez falou que a única coisa da qual nós devemos ter medo é o próprio medo.

Talvez o medo da oposição violenta de mentes medíocres.

É.

Muito provavelmente o medo da oposição violenta. Por isso eu e você somos só gados esperando pelo abate.

Por isso você nunca vai ser Malcolm X.

Por isso eu nunca vou ser Martin Luther King.

Eu e você estamos muito preocupados em pagar contas e comprar um apartamento antes dos 40 anos. Eu e você, somos só dois conformados tentando parecer que valemos alguma coisa.

E ah! Por falar em 40 anos… o Brasil está há exatamente 40 anos de distância dos países desenvolvidos nos quais as mulheres têm direitos civis plenos. Eu olho para as brasileiras que opõem a legalização do aborto e vejo a reflexão assustadora da alegoria do escravo de Platão. Eu me vejo, aos quinze anos.

Aborto não é uma questão moral de defesa do feto, é uma questão social dos direitos da mulher. A mulher, que foi considerada inferior pelos maiores pensadores da história.

De Platão a Hegel, minha amiga, você vale tanto quanto um escravo.

Então é claro que vão te comparar a Stalin se você for pró legalização. Vão falar que você é egoísta e não quer a inconveniência de uma criança na sua vida. Óbvio. Não foram eles que foram criados por mães solteiras, doentes e viciadas.

Eu fui.

Eu fui o feto que deveria ter sido abortado e nasceu. Eu sou o feto que você defende. Então acredita quando eu falo: sua defesa em meu favor não valeu de nada. Porque depois que eu nasci, você nunca veio me defender, nem me ajudar, nem me adotar. Eu não te vi quando eu fui espancada, humilhada ou hostilizada. Você não pagou pela minha faculdade, não me ajudou com a lição de casa, não me ensinou a andar de bicicleta.

Na verdade, eu e você nem nos conhecemos.

Então baixa essa sua bola de Madre Teresa pró vida. Até você esvaziar orfanatos e criar filhos que não são seus, você é só mais um ocupando espaço no planeta.

Para criar um criminoso, basta criar um crime. Para criar uma classe marginalizada, basta criminalizar um comportamento comum a esta classe. Para se sentir melhor sobre você mesmo, basta inferiorizar alguém.

E só pra terminar:

Malcolm X não lutou pelos direitos feministas. Martin Luther King não lutou pelos direitos homossexuais e judeus nunca fazem filmes sobre o holocausto armênio. Então, minha cara, não espere que algum homem lute por algo que, por essência, é sua batalha.

Ao voltar para São Paulo, em uma visita breve, tive uma conversa sobre esse assunto com um amigo.

- Seu problema é que você pensa demais, Sbaile. – Ele comentou, com um sorriso sarcástico.

- Engraçado. Eu acho que o seu problema é exatamente o contrário. – Eu respondi, com pena.

Eu vou embora.

Não de mim. Já não quero mais fingir que sou bom e capaz.

Eu vou embora de vocês.

Já não dá mais pra tentar vos fazer me querer. Nem tenho esse direito.

Por amor, respeito ou apenas porque não tem outro jeito. Tanto faz.

Eu vou embora.

Não pra buscar uma nova vida. Não pra buscar minha independência.

Não pra aprender a me virar. Não pra levar quem eu quiser pro meu quarto.

Não pra fumar no banheiro enquanto faço cocô. Não pra tomar champanhe pelado na cozinha.

Eu vou embora.

Para respirar-me, para livrar-me, para desenxaquecar-me.

Para viver a pós-aceitação da inutilidade dos argumentos sobre o que sou, quero e penso.

Não quero provar, eu quero saborear.

Saborear o que há em mim. O que eu posso buscar sozinho.

O que eu entendo, faço inteligível e não preciso compartilhar.

Os meus, tão meus, hábitos.

Hábitos que vos irrita, vos faz tremer de repúdio, vos faz pecar por julgar-me.

Vos faz sentir pena de mim. Vos faz esgotar a paciência.

Não, não dá pra ser mais assim. Vamos explodir.

Não vou pra longe, nem pra sempre.

Só vou comigo,

pra mim.

Gosto assim, daquele cabelo meio-liso-meio-encaracolado, meio-moreno-meio-loiro-meio-ruivo. Daquele que olho e não consigo descrever. Ou melhor, sou capaz de olhar por horas e demorar mais outro punhado de horas só para tentar explicar porque eles fixam tanto meus olhos míopes neles.

E são só esses cabelos não categorizados que são penteados pelo vento. Só eles são colocados atrás da orelha daquele jeito manhoso, doce e lindo e só eles promovem aqueles movimentos involuntários e infantis que fazemos quando não fazemos mais nada e pensamos em tudo ao mesmo tempo. A gente olha para o céu, respira calmo e emaranha um punhado de fios no dedo indicador esquerdo sabendo que aquele gesto repetitivo, e que se repetirá e se repetirá, fará ao menos com que o céu se abra.

E quando se anda descolado e desencanado pela rua ele, o cabelo, sempre ele, se move com o altivo e verdadeiro gingado de uma mulata passista descendo a ladeira, olhando para baixo com calma e passando a mão na sua franja encaracolada que deixaria qualquer modelo com seu andar e seus fios retos sem graça – e colados na cabeça com qualquer meleca – mais sem graça ainda.

Falando em modelo, o encanto de Gisele não está em seu peito e nas suas pernas torneadas, ou mesmo em seu cabelo loiro milimetricamente ondulado propriamente dito mas em como ela consegue faze-lo sambar a cada firme passada na passarela. Ela anda com segurança mas seu ziriguidum e formosura estão nas linhas douradas que desenham uma onda suave e delicada, dançando como música, deixando um rastro desse ballet sofisticado por onde passa e agindo com o frescor e a preguiça de quem acabou de despertar.

E tem coisa mais linda do que ver aquele cabelo pousado no travesseiro numa manhã depois de uma noite bem dormida? Tem coisa mais gostosa do que fazer cafuné, passando seus dedos devagar nos cabelos sedosos e cheirosos até o outro dormir? Tem coisa melhor do que acordar amassado, inchado e com o cabelo todo marcado com as dobras do travesseiro e do braço que o abraçava por uma noite toda? Não tem não.

E dançar? O bom é dançar com o cabelo estrategicamente cobrindo um pouquinho os olhos em todos os lugares que estamos. Andando pelas ruas, no trabalho, no cinema. De peito aberto, com vontade de conquistar o mundo, sem hora e sem lugar para isso. Ouvindo aquela música nossa sem que uma nota sequer seja ouvida pelos outros. Dançar, dançar, dançar. Como todo bom cabelo deve ser. Como todo cabelo de fato é.

Gosto assim, daquele cabelo meio-liso-meio-encaracolado, meio-moreno-meio-loiro-meio-ruivo. Daquele que olho e não consigo descrever. Daquele que muda todo mês de cor, de corte, de forma. Mas que sem produto volta a ser cuia, volta a ficar como cabelo de criança. Fino, leve, frágil. Daquele que a gente balança a cabeça e ele levemente vai, de um lado para o outro, explorando cada milímetro de esquerdas e direitas capazes de me transformar no mais atento e silencioso telespectador, pronto para assistir a próxima passada sensual de dedos por entre seus sempre finos, leves e frágeis fios.

Cabelos, gosto deles. Assim.

Penso, escrevo, penso mais, existo, penso, é verdade, juro que penso, parece que não, só que sigo pensando. E entre tantos goles que não me levam aos devaneios nem às amnésias, ainda bem, tenho lembrado de tudo. Desde o começo. E tal como quando não lembro, lembrar vai me incomodar por mais muito tempo. Algo que deveria incomodar a você. A vocês. Alguém definiria que é (sou) difícil, simplesmente, e eu respondo que, se fosse fácil, não teria valor. Vocês também são difíceis, meu avô sempre falava assim pra todo mundo. Ou seja, vocês têm lá seu valor. Seus valores.

Eu tenho vivido muitas coisas novas. Coisas que me fazem refrescar uma espécie de transtorno obsessivo de buscar quando foi a última vez que fiz algo pela primeira vez. Tipo a caminhada noturna até a praça que existia e eu não sabia, o banco redondo de cimento gasto, a garrafa de cerveja na mão, o celular na outra e vocês nas duas, e meia hora, exata meia hora, e o rumo de volta. E antes havia sido o jornal que não li, roubei do vizinho no prédio onde não moro e deixei no apartamento dela, a guria que conheci no meio da estrada de areia por eu ser paulista, o time que fiz sei lá como e encheu uma mão, a adoção de uma família como a minha, a reconstrução de uma página do zero, o conselho de vida para quem não se via em vida na virada do ano. Alguns ineditismos nem sempre são bons. Mas nunca trazem arrependimentos. São coisas que se vive ou que se tem de viver. Que se vive e se aprende, como diz a canção. Com vocês, se aprende, verdade seja dita.

Tenho visto que, se fosse uma novela, Éramos Seis seria ideal. Um veio um dia, outro veio noutro, outro, depois, ela estava num dia e sumiu, e o sexto, meio avulso, foi o mote para a união. Mas nestas nunca estivemos todos juntos. Só que estávamos todos juntos. Estamos. Acho que ainda estamos. Ou criamos interseções entre nós, conjuntos A, B e C das aquelas aulas primárias de matemática. A matemática, aliás, poderia ser bem útil agora, poderia trazer uma fórmula simples para dar resposta a tudo isso. Só que são tantas as variáveis que Baskara ou Torricelli desistiriam e adotariam uma solução puramente filosofal. Humanos não têm fórmulas, seria a premissa maior. Nós somos humanos, a menor. A tese óbvia, no entanto, tem de ter o asterisco: por mais que sejamos inconstantes, nós temos de carregar algumas constantes. Alguns valores. Verdadeiros e exatos como a matemática.

Pois era meu avô também que dizia não se deve exigir dos outros valores e posturas que não se carrega em si. Valores tipo sinceridade. Valores tipo clareza. Senão fica complicado, mesmo, de se conseguir olhar no olho do outro, e isso eu não precisei do agora para aprender. O avô, acho, definiria isso em uma única palavra que não gostava de dizer, e por respeito à alma dele, resguardo. É que ele partia do princípio que uma das grandes verdades da vida é a mentira, e essa gente veterana, que uma hora a gente vê como prosaica, até que carrega alguns dogmas válidos.

E estes dogmas transcendem muitas linhas e entrelinhas vindas de dedos e mentes admiravelmente capazes de pôr em papéis virtuais como este as melhores expressões e sentimentos, que mexem, balançam, chacoalham e derrubam, lágrimas também, e no chão provocam uma dualidade. A mesma que nasce e cresce diante da dúvida daquelas palavras, que se esvaziam, que perdem seus valores. E quando se gosta, mais das pessoas — doravante aqui tratada por vocês —, do que das palavras, o pensamento vai longe, e não é a primeira vez que ele vai longe assim. Eis o desafio. Verdade ou desafio, como na brincadeira, e eu nunca escolho o segundo. Bem provável que assim seja porque se é difícil. Por se esquecer, até por conveniência, nossas constantes de formação e de base. Ou mais especificamente, a constante V.

E pra falar a verdade e ser mais claro, não era bem meu avô quem dizia tudo isso.

Complemento

Vocês me fizeram ver algumas verdades. Algumas que eu não compreendia — ou não queria compreender. Muitas geraram oscilações que Newton não mediria em sua lei. E é verdade que as oscilações de vocês eram as mesmas. Nós nos enxergamos em nós mesmos. Viramos por vezes espelhos para sairmos dos nossos labirintos, longos como a distância do Agreste ao Sul. E nas nossas interseções, vimos amores impossíveis à distância, amores longos perto do fim que voltaram porque um não existe sem o outro, amores que, de tão reprimidos, quase não são achados, e aí acham que não há mais amores, e amores a pé e charmosos a dois. Esses, certeza, foram verdadeiros.

da série Encanações Absurdas:

leitor: Meu pênis é bem mais escuro do que o resto da minha pele. Preciso passar algum creme para clareá-lo?

médico: Desde a puberdade os hormônios masculinos determinam um escurecimento normal da pele do pênis e do escroto, sem que isso signifique qualquer problema. Não encane com isso – essa coloração mais escura é totalmente normal. E não existe creme para clarear essa parte do corpo.

outra:

leitor: Eu já tinha reparado que a pele do meu pênis é bem mais escura do que o resto do corpo, mas minha namorada, não. Agora ela viu e diz que é feio e que preciso dar um jeito. Ela trabalha em um salão de beleza. Quero que ela fique satisfeita. Existe creme para clarear essa região?”

médica: Desculpe, leitor, mas sua namorada passou de todos os limites na tentativa de expandir suas atividades de “embelezadora profissional”. Diga não. Que ela pare com essas loucuras já. A cor da pele do órgão sexual não se muda assim, como se fosse uma axila escurecida [...]

não resisti. Dei uma espiada no “pintinho amarelo”. É verdade: a pele do pau é mais escura se comparada ao restante do corpo.

já escrevi aqui sobre um tal “clareamento anal”. Agora, descubro que há meninos (e meninas) preocupados com o escurecimento natural da pele do pênis. Opa! Deu a louca no mundo? Ou sou eu que estou por fora dos últimos acontecimentos?

logo, a indústria da beleza deve inventar algum creme “milagroso” – quem sabe à base de uma planta exótica do Sri Lanka – para resolver mais esse “problema” estético. Se há demanda, por que não esperar sempre pelo pior?

vivemos uma época de crescente negação do próprio corpo. De repente, o que é apenas natural torna-se feio, necessita ser reformulado, recauchutado, photoshopado.

é preciso “dar um jeito”, mandou a namorada do rapaz – a “embelezadora profissional”. Dar um jeito? Como assim? Por acaso, somos porta emperrada? Mesa manca? Chuveiro pifado?

Seneca, o escritor romano, responde: “A deformidade do corpo não afeia uma bela alma, mas a formosura da alma se reflete no corpo.”

e olha que nem estou falando de deformidades físicas. Mas da piração em que se transformou esse culto ao “corpo perfeito”.

Começou quando surgiu o Batman em Taubaté.

O assunto virou piada nas redes sociais por umas duas semanas e depois acabou sendo esquecido. Mas o Batman continuou ali, firme e forte, combatendo pequenos assaltos e ajudando a polícia a capturar criminosos da região. E um dia ele desmantelou uma importante rede de traficantes do interior paulista, caindo de vez nas graças da população.

Agora o Brasil tinha um super-herói.

Logo, outros começaram a seguir o exemplo. Relatos de um homem combatendo o crime vestido como Gavião Arqueiro na região de Campinas começaram a aparecer nos jornais. Ao mesmo tempo, diversos habitantes de Sorocaba afirmavam ter visto um sujeito voador e flamejante percorrendo os céus da cidade.

Logo, o assunto começou a dominar as manchetes dos jornais do mundo inteiro. O Brasil, mais precisamente o estado de São Paulo, havia se tornado uma história em quadrinhos de verdade, com seres fantásticos combatendo o crime e lutando contra a injustiça.

As notícias corriam com a mesma velocidade que novos heróis surgiam. Em Bragança Paulista, um sujeito vestido de verde usou os poderes de seu misterioso anel para salvar as crianças de um orfanato em chamas. Nos arredores de Itu, um gigante que atendia pelo nome de Golias impediu que uma enorme torre elétrica caísse durante uma tempestade.

Não demorou até que os primeiros heróis chegassem à capital. Não era incomum andar pela Avenida Paulista durante o dia e ver um sujeito vestido de azul e vermelho subindo pelos prédios e disparando teias, um sujeito extremamente poderoso cruzando os céus com sua capa e botas vermelhas, ou ainda um gigante esmeralda cruzando a cidade em saltos de centenas de metros.

E isso somente na região da Paulista.

Mas tudo acontecia também em outros bairros da cidade. A Barra Funda era palco de um sujeito prateado que surfava sobre seus céus em uma enorme prancha, enquanto um sujeito misterioso defendia o bairro de Moema usando uma armadura repleta de aparatos tecnológicos. Pinheiros, por sua vez, era território de uma poderosa e belíssima amazona que capturava ladrões com seu laço mágico.

Já os bairros mais violentos também contavam com seus protetores, como o negro que se referia a si mesmo como herói de aluguel defendendo a população do Centro Velho, ao lado de um herói vestido de demônio – que muitos juravam ser cego. Isso sem falar como o guerreiro conhecido como Mestre do Kung Fu que tomou para si a missão de proteger as ruas da Liberdade.

Em semanas, São Paulo passou a ser considerada a cidade mais segura do planeta. A criminalidade caiu até ficar próxima de zero, e, no momento em que um grupo de heróis alugou um imóvel nos Jardins para estabelecer a Mansão dos Vingadores, a própria ONU considerou mudar sua sede para a cidade brasileira.

Não havia mais crime em São Paulo. Os heróis se tornaram parte da rotina da cidade, e seus habitantes andavam a qualquer hora do dia experimentando uma sensação de segurança inimaginável até semanas atrás. Todos os dias, feitos heroicos de sujeitos fantasiados estampavam as páginas dos jornais e das principais revistas.

Tudo começou a mudar durante uma greve dos lixeiros. Almejando maiores salários, os funcionários do serviço de limpeza pararam de trabalhar, deixando a cidade totalmente emporcalhada – até que um homem, vestido de vermelho e mais rápido que um raio, percorreu a cidade recolhendo todos os sacos de lixo em questão de segundos.

A cidade estava limpa novamente, mas o sindicato dos lixeiros emitiu um protesto oficial, acusando o sujeito de atrapalhar as negociações – e começaram a fazer protestos pela cidade, alegando que super-heróis não deveriam se intrometer em serviços públicos.

O que poderia ser um incidente isolado misteriosamente se tornou apenas o primeiro de uma série. Outros eventos misteriosos começaram a ocorrer, abalando a credibilidade dos heróis.

Ao tentar impedir que um criminoso explodisse um prédio da USP, o Capitão América foi apedrejado pelos alunos de História e Geografia sob os gritos de “imperialista filho da puta!”. Alegando que a armadura do Homem de Ferro poderia ser considerada um veículo, o Detran resolveu cobrar uma fortuna de IPVA do vingador dourado, o que acabou com as economias do herói.

Já em Higienópolis, um grupo de mutantes que operava no bairro foi obrigado a abandonar o local às escondidas, após serem perseguidos pelos moradores que não queriam aquela “gente diferenciada” andando pelas redondezas. O Quarteto Fantástico foi notificado judicialmente sob a acusação de que os experimentos realizados em seu prédio – o antigo edifício do Banespa – atrapalhavam os planos de reurbanização do centro de São Paulo.

Os heróis passaram a ser perseguidos, em uma série de eventos aparentemente sem relação alguma. A frase “Quem Vigia os Vigilantes?” começou a ser vista em diversos muros da cidade. Os heróis estavam caindo em desgraça.

A gota d’água foi quando a prefeitura emitiu um comunicado afirmando que os uniformes dos super-heróis eram coloridos demais e, por ferirem a lei Cidade Limpa, eles estavam oficialmente proibidos de patrulharem as ruas de São Paulo. Assim, seres superpoderosos começaram a abandonar a cidade. Muitos fugiram; outros se aposentaram e passaram a viver escondidos sob suas identidades secretas, com seus uniformes escondidos no porão.

Uns poucos ignoraram a lei e desobedeceram. Foi o caso do Justiceiro, que logo desistiu de combater o crime após se cansar de passar horas e mais horas preso no trânsito da Rebouças com seu furgão; e do Motoqueiro Fantasma, que cansou de quase morrer no trânsito da cidade pelo menos três vezes por dia após ser tratado como um simples motoboy.

Logo, estes também desapareceram.

Em poucas semanas, São Paulo não possuía mais heróis. A criminalidade voltou a crescer a níveis alarmantes e, menos de um ano depois, todos os super-heróis haviam caído no esquecimento.

E, na janela do prédio mais alto de São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab sorriu satisfeito. Aquela era a sua cidade, e ninguém iria atrapalhar seus planos. Logo, ele dominaria cada rua e cada beco da metrópole, expandindo cada vez mais seu poder.

Ainda sorrindo, retirou sua peruca e deitou-se em sua cama. E sonhou com o dia em que governaria o país inteiro, e seu poder seria tamanho que ele poderia finalmente abandonar a identidade falsa que havia criado e poder assumir seu nome verdadeiro: Lex Luthor.

Eu queria mentir.

Passei com o meu carro por lá e estava uma confusão. Olhei curiosa e você me viu. Eu continuei devagar, você saiu do meio da multidão com o braço para cima gritando meu nome. Não parecia verdade, mas você gritou meu nome outra vez, me pediu para parar. Eu parei em fila dupla, outros carros me xingando e buzinando, mas não tinha o que fazer. Se eu desse a volta na quadra talvez perdesse você …Não! Nem pensei em andar mais dez metros. Quando vi seu braço esticado, seu pescoço tentando crescer para me acompanhar, sua voz gritando meu nome…eu parei. Só parei.Não olhei para trás. — nem para os carros, nem para você. Tive medo de me mexer. Olhei pelo retrovisor externo e vi você afastando a multidão com os braços, se esgueirando para passar entre as pessoas. Meu coração bateu forte. Um frio na barriga. Medo. Muito medo. Por que você estava aqui? E você veio chegando, as pessoas tentando entender onde você ia, aqueles homens querendo evitar que elas o seguissem, queriam levar você de volta para dentro…e você chegando. Quando você parou na porta do carro, eu não olhei para fora. Fiquei como estava, olhar fixo no espelho que já não mostrava nada, meu coração pulando, meu estômago virando, fechei os olhos como se esperasse a pedra que vinha bater na testa. Você bateu no vidro. Eu apertei o botão e virei o rosto na sua direção com medo que meu coração pulasse e sujasse a sua roupa. A sua roupa… Uma manga longa por baixo da outra curta. E por dentro você vestia um sorriso que ofuscava toda a rua. O ritmo das minhas batidas cardíacas mudou quando encontrei seus olhos. Parou. Três segundos de morte e eu precisei sorrir. Você perguntou onde eu estava indo. Eu disse que não sabia. “Não sei mais, não lembro, e você? Onde você estava indo que veio parar aqui?” Você abriu a porta do carro, levantou a mão e fez sinal para alguém que eu não vi, mas que entrou no meu carro assim que eu saí. Você mandou guardar o carro e disse no meu ouvido que eu não ia a lugar nenhum, e nem você. Eu estava atordoada com toda aquela gente, e não conseguia entender a sua presença, tão perto, sem eu saber, sem me avisar. Era como um sonho ou uma alucinação, mas sonho não segura o braço da gente, e você me puxava pelo braço me levando sei lá pra onde. Passamos no meio de toda aquela gente e elas perguntavam umas às outras quem eu era sem ninguém responder, nem eu, porque eu não sabia mais. Só sabia que você estava ali, jeans, camiseta e a outra, e um sorriso que ofuscava todo o bairro, e aqueles olhos felizes me olhando. Você me puxou correndo e me levou para o elevador, apertou o botão que fecha a porta, três vezes, quatro, cinco e a porta fechou quando a multidão chegava. Você suspirou aliviado fechando os olhos e, sem abrí-los, me abraçou sem dizer nada, de um jeito de quem queria muito um abrigo, mas fui eu quem se abrigou no seu peito, as costas escondidas entre os seus braços, e sua boca beijando o meu cabelo. Eu não disse nada. Não podia. Minha voz não sairia e nem eu saberia o que dizer. Você ficou assim até o elevador parar no décimo andar e só me largou quando a porta abriu. Você me puxou de novo, segurando meu braço e minhas costas, me guiando pelo corredor que eu não sabia onde ia dar. Eu olhei para você, tão alto, que me sorriu outra vez e parou me olhando. Era o meio do corredor do décimo andar e eu não sabia porque estava ali, ou você, sem eu saber, sem me avisar…Você disse que eu sou melhor ao vivo e eu disse que você também não é mal, você sorriu dentro de mim de um jeito que eu não sei explicar e ofuscou toda a cidade. Você me abraçou de novo mas antes que eu pudesse me encaixar no seu peito, me levantou no colo e continuou andando pelo corredor do décimo andar, me beijando enquanto andava, enquanto meu coração parava. Eu não disse nada, porque não sabia como tudo isso estava acontecendo se eu estava acordada e não estava sozinha, porque não tive tempo desde que parei o carro para sonhar por um minuto. Você abriu a porta e eu vi as malas fechadas. Deduzi que você acabara de chegar e comecei a entender porque eu não sabia. Eu também não avisaria; chegaria e pegaria o telefone pra dizer “hey! O que você vai fazer daqui há meia hora?” Aí contaria que estou aqui, que vim te ver, que não podia deixar você sonhar acordado comigo para sempre assim, no vácuo dos pensamentos. E quando você me devolveu ao chão, eu vi tudo rodar e você me segurou, perguntou se eu estava bem e me beijou de novo. Me sentou na cama, parou na minha frente, sorriu com os olhos bem dentro dos meus, e disse tudo o que eu tinha pensado. “Que você ia me ligar, que só veio para me ver, que não podia mais ficar assim, no vácuo dos pensamentos.” Disse que não quis me avisar com medo que eu fugisse. “Fugir? De você?” Você estava mesmo no vácuo de alguma coisa, senão sabia que eu não poderia fugir. Você segurou minhas mãos e eu lembrei que queria as suas. Segurei as duas para mim e olhei os seus três anéis. Agora fui eu quem sorriu e ofuscou todo o planeta. Eu beijei as suas mãos por existirem e você entendeu o que eu quis dizer.

Deixa eu mentir para mim. Deixa eu achar que estou acordada e não estou sozinha e que o seu sorriso está aqui, ofuscando todo o universo…Me deixa.

Não tenho ídolos, mas gosto de um monte de gente

evoluo no mundo que deus criou para você, e rezo sem falar nada, debaixo do chuveiro

não tenho manias gastronômicas, mas uma afeição peculiar por saliva

gosto da noite, mas flerto e faço bagunça com o dia,

gosto de elogios, e de salgadinhos de festa infantil

prefiro um beijo enorme, mas eu trocaria por 100 mil reais pro bolso ficar feliz

não gosto de brigar, mas morro de vontar matar um monte de gente,

eu vejo TV, e jamais desprezo um livro,

não sei citar todos os músicos da banda, mas adoro bater-cabelo cos amigo

eu bebo e faço merda, mas sempre tenho alguém pra abraçar e rir depois

tô longe de muita gente que amo mais que cerveja, e acho distância uma grande bosta

aprendi a gostar de vinho, e a não gostar do legião urbana (mentira, eu ainda gosto)

to com o nome no SPC, mas jamais fiquei devendo no bar

faço textos egoístas, mas quero dar pra todos vocês

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