Penso, escrevo, penso mais, existo, penso, é verdade, juro que penso, parece que não, só que sigo pensando. E entre tantos goles que não me levam aos devaneios nem às amnésias, ainda bem, tenho lembrado de tudo. Desde o começo. E tal como quando não lembro, lembrar vai me incomodar por mais muito tempo. Algo que deveria incomodar a você. A vocês. Alguém definiria que é (sou) difícil, simplesmente, e eu respondo que, se fosse fácil, não teria valor. Vocês também são difíceis, meu avô sempre falava assim pra todo mundo. Ou seja, vocês têm lá seu valor. Seus valores.
Eu tenho vivido muitas coisas novas. Coisas que me fazem refrescar uma espécie de transtorno obsessivo de buscar quando foi a última vez que fiz algo pela primeira vez. Tipo a caminhada noturna até a praça que existia e eu não sabia, o banco redondo de cimento gasto, a garrafa de cerveja na mão, o celular na outra e vocês nas duas, e meia hora, exata meia hora, e o rumo de volta. E antes havia sido o jornal que não li, roubei do vizinho no prédio onde não moro e deixei no apartamento dela, a guria que conheci no meio da estrada de areia por eu ser paulista, o time que fiz sei lá como e encheu uma mão, a adoção de uma família como a minha, a reconstrução de uma página do zero, o conselho de vida para quem não se via em vida na virada do ano. Alguns ineditismos nem sempre são bons. Mas nunca trazem arrependimentos. São coisas que se vive ou que se tem de viver. Que se vive e se aprende, como diz a canção. Com vocês, se aprende, verdade seja dita.
Tenho visto que, se fosse uma novela, Éramos Seis seria ideal. Um veio um dia, outro veio noutro, outro, depois, ela estava num dia e sumiu, e o sexto, meio avulso, foi o mote para a união. Mas nestas nunca estivemos todos juntos. Só que estávamos todos juntos. Estamos. Acho que ainda estamos. Ou criamos interseções entre nós, conjuntos A, B e C das aquelas aulas primárias de matemática. A matemática, aliás, poderia ser bem útil agora, poderia trazer uma fórmula simples para dar resposta a tudo isso. Só que são tantas as variáveis que Baskara ou Torricelli desistiriam e adotariam uma solução puramente filosofal. Humanos não têm fórmulas, seria a premissa maior. Nós somos humanos, a menor. A tese óbvia, no entanto, tem de ter o asterisco: por mais que sejamos inconstantes, nós temos de carregar algumas constantes. Alguns valores. Verdadeiros e exatos como a matemática.
Pois era meu avô também que dizia não se deve exigir dos outros valores e posturas que não se carrega em si. Valores tipo sinceridade. Valores tipo clareza. Senão fica complicado, mesmo, de se conseguir olhar no olho do outro, e isso eu não precisei do agora para aprender. O avô, acho, definiria isso em uma única palavra que não gostava de dizer, e por respeito à alma dele, resguardo. É que ele partia do princípio que uma das grandes verdades da vida é a mentira, e essa gente veterana, que uma hora a gente vê como prosaica, até que carrega alguns dogmas válidos.
E estes dogmas transcendem muitas linhas e entrelinhas vindas de dedos e mentes admiravelmente capazes de pôr em papéis virtuais como este as melhores expressões e sentimentos, que mexem, balançam, chacoalham e derrubam, lágrimas também, e no chão provocam uma dualidade. A mesma que nasce e cresce diante da dúvida daquelas palavras, que se esvaziam, que perdem seus valores. E quando se gosta, mais das pessoas — doravante aqui tratada por vocês —, do que das palavras, o pensamento vai longe, e não é a primeira vez que ele vai longe assim. Eis o desafio. Verdade ou desafio, como na brincadeira, e eu nunca escolho o segundo. Bem provável que assim seja porque se é difícil. Por se esquecer, até por conveniência, nossas constantes de formação e de base. Ou mais especificamente, a constante V.
E pra falar a verdade e ser mais claro, não era bem meu avô quem dizia tudo isso.
Complemento
Vocês me fizeram ver algumas verdades. Algumas que eu não compreendia — ou não queria compreender. Muitas geraram oscilações que Newton não mediria em sua lei. E é verdade que as oscilações de vocês eram as mesmas. Nós nos enxergamos em nós mesmos. Viramos por vezes espelhos para sairmos dos nossos labirintos, longos como a distância do Agreste ao Sul. E nas nossas interseções, vimos amores impossíveis à distância, amores longos perto do fim que voltaram porque um não existe sem o outro, amores que, de tão reprimidos, quase não são achados, e aí acham que não há mais amores, e amores a pé e charmosos a dois. Esses, certeza, foram verdadeiros.