Pra começo de conversa:
Você é altamente egoísta em tudo. Tudo. Todas as suas atitudes são em benefício próprio e mais nada. Você pode discordar, mas eu não estou errada. Então pare de se fazer de alma caridosa e preocupada com os assuntos do mundo. Você simplesmente não se importa. E eu e você sabemos disso.
Segundo ponto:
Seu cachorro não te ama. Ele obedece aos instintos de matilha dele. Quando você se torna o alfa da matilha, ele é submisso a você. E é disso que você gosta: submissão. Você chama isso de amor incondicional porque, encaremos os fatos: você precisa de alguém que dependa exclusivamente de você pra se sentir amado, útil e suprir esse vazio que você é em meio a sete bilhões de outros seres humanos tão descartáveis quanto você.
Terceiro ponto:
Albert Einstein uma vez disse que todo espírito grandioso encontra a oposição violenta de mentes medíocres.
Malcolm X e Martin Luther King provam mais uma das teorias de Einstein.
Com isso dito, não, eu nunca fiz um aborto. E não, eu não sou uma feminista com pernas peludas e uma amante chamada Marta. Não fui abusada sexualmente durante a infância e não tenho raiva de homens. Então relaxa. Guarde seus argumentos irracionais para quando seu time de futebol perder o campeonato, por um gol, na final.
Meu ponto é que eu nasci com uma vagina e fui hostilizada por isso durante dezenove anos, em um país no qual eu não tinha direitos civis. Cresci achando que isso era normal. Eu ainda não tinha relacionado todo sofrimento da minha vida ao fato de ter nascido mulher… Até que eu saí do país. Até que eu me formei na universidade. Até que eu conheci a história do movimento feminista.
E então eu olhei para todas as brasileiras que eu tinha conhecido até ali, incluindo minha mãe, minhas tias, minhas irmãs… E senti uma pena profunda do produto machista no qual elas tinham se tornado.
Eu tinha sido criada para me sentir inferior. Sempre. Então eu me casei e pensei que eu nunca seria alguma coisa senão a sombra de um homem que me ajudava a terminar a faculdade. Só tinha um problema: eu sentia que estava tudo errado.
Não foi até eu me separar que eu descobri que, em menos de seis meses, eu estaria ganhando o dobro do que o meu ex-marido ganhava. Não que eu seja o que eu ganho. Não que eu não estivesse agindo como um homem. A verdade é que eu era só alguém que tinha se libertado da condição de escrava. Eu era qualquer outro ser humano livre.
Teddy Roosevelt uma vez falou que a única coisa da qual nós devemos ter medo é o próprio medo.
Talvez o medo da oposição violenta de mentes medíocres.
É.
Muito provavelmente o medo da oposição violenta. Por isso eu e você somos só gados esperando pelo abate.
Por isso você nunca vai ser Malcolm X.
Por isso eu nunca vou ser Martin Luther King.
Eu e você estamos muito preocupados em pagar contas e comprar um apartamento antes dos 40 anos. Eu e você, somos só dois conformados tentando parecer que valemos alguma coisa.
E ah! Por falar em 40 anos… o Brasil está há exatamente 40 anos de distância dos países desenvolvidos nos quais as mulheres têm direitos civis plenos. Eu olho para as brasileiras que opõem a legalização do aborto e vejo a reflexão assustadora da alegoria do escravo de Platão. Eu me vejo, aos quinze anos.
Aborto não é uma questão moral de defesa do feto, é uma questão social dos direitos da mulher. A mulher, que foi considerada inferior pelos maiores pensadores da história.
De Platão a Hegel, minha amiga, você vale tanto quanto um escravo.
Então é claro que vão te comparar a Stalin se você for pró legalização. Vão falar que você é egoísta e não quer a inconveniência de uma criança na sua vida. Óbvio. Não foram eles que foram criados por mães solteiras, doentes e viciadas.
Eu fui.
Eu fui o feto que deveria ter sido abortado e nasceu. Eu sou o feto que você defende. Então acredita quando eu falo: sua defesa em meu favor não valeu de nada. Porque depois que eu nasci, você nunca veio me defender, nem me ajudar, nem me adotar. Eu não te vi quando eu fui espancada, humilhada ou hostilizada. Você não pagou pela minha faculdade, não me ajudou com a lição de casa, não me ensinou a andar de bicicleta.
Na verdade, eu e você nem nos conhecemos.
Então baixa essa sua bola de Madre Teresa pró vida. Até você esvaziar orfanatos e criar filhos que não são seus, você é só mais um ocupando espaço no planeta.
Para criar um criminoso, basta criar um crime. Para criar uma classe marginalizada, basta criminalizar um comportamento comum a esta classe. Para se sentir melhor sobre você mesmo, basta inferiorizar alguém.
E só pra terminar:
Malcolm X não lutou pelos direitos feministas. Martin Luther King não lutou pelos direitos homossexuais e judeus nunca fazem filmes sobre o holocausto armênio. Então, minha cara, não espere que algum homem lute por algo que, por essência, é sua batalha.
Ao voltar para São Paulo, em uma visita breve, tive uma conversa sobre esse assunto com um amigo.
- Seu problema é que você pensa demais, Sbaile. – Ele comentou, com um sorriso sarcástico.
- Engraçado. Eu acho que o seu problema é exatamente o contrário. – Eu respondi, com pena.