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Kátia. Ela nunca tinha me despertado muita atenção. Nos víamos com alguma frequência, eu olhava e não tinha parado para pensar muito na possibilidade. Havia uma amiga na escola chamada Kátia que me interessava mais. E acho que com ela teria mais chance. Não, nunca tive.

Mas aí aconteceu um daqueles momentos que mudam a vida. Eu já havia conhecido outras. Luciana, Betty, Andréa, Sonia, Gisele, Mayara. Mas não eram minhas. Kátia estava deitada na cama e tudo que pude ver foi seu rosto, cabelos molhados, os braços e talvez um pedaço dos ombros. Eu queria que fosse minha. E foi.

Kátia foi pra casa, mas eu não achava conveniente que meus pais soubessem da sua existência. Não que se irritariam, mas eu tinha vergonha. Não queria explicar. Por um bom tempo eu a escondi aqui e ali, o que era difícil de se fazer em um pequeno sobrado em São Bernardo. Às vezes ela ia comigo para o banho, mas nunca ficamos juntos debaixo do chuveiro. Vivemos um período intenso, porém.

Parecia um relacionamento duradouro, mas nos enganamos muito na adolescência. Tudo é rápido demais, efêmero demais, passageiro demais. Intenso demais. Vivi semanas de paixão pela Kátia. Mas houve um dia em que olhei para o lado na rua e vi a Vera. E sabia, naquele momento, que algo havia mudado. Tinha gratidão pela Kátia, mas Vera era a minha mulher da vez. Aquela que eu queria esconder em casa, levar pro banheiro e admirar por todos os dias da minha vida.

Vera foi pra casa e Kátia percebeu, rapidamente, que seu tempo estava no fim. Vez ou outra tínhamos recaídas típicas dos relacionamentos recém-terminados. Mas as recaídas foram cada vez mais raras. Kátia ficou em seu canto e, hoje, nem me lembro o que aconteceu com ela. Vera também se foi, porque durou pouco. Vivi intensos e rápidos rápidos relacionamentos naqueles tempos.

Era 1991. Kátia Maranhão, a garota da capa da primeira Playboy que eu comprei. Substituída no mês seguinte por Vera Zimmerman. E depois Isadora Ribeiro. E depois Cristiana Oliveira. E não sei quantas outras. Eram bons tempos.

Lembrava uma quadra de escola de samba em tamanho reduzido. Pelo menos é como eu imagino que seja uma quadra de escola de samba, já que nunca estive em uma. Tinha feijoada, uma banda cheia de instrumentos exóticos e que tocava samba. Só havia um problema. Eu odeio samba.

Eu odeio samba e não sei por que não é respeitado o meu direito de não gostar de samba. Sou brasileiro, sim. Meus pais são brasileiros. Meus avós são brasileiros. Mas por isso preciso gostar de samba? Por acaso todo tcheco gosta de polca? “Você não gosta de samba?”, me perguntou a dona da festa, com uma cara de indignação. Dei um sorrisinho quase simpático de negação, pra não ser mal educado, e ela veio com a afirmação que muda tudo. “Mas é samba de raiz”.

Samba de raiz. Porra, e daí? Por acaso samba de raiz não é samba? Beterraba é uma raiz e eu acho uma merda. Samba é outra raiz que eu não gosto. Não gosto de samba de raiz, nem de caule, nem de folhas e nem de frutos, que eu imagino ser o pagode. Pagode vem do samba de raiz. Perceba você que tipo de fruto dá essa raiz. Você gosta de samba? Seu direito. Me deixe não gostar.

Aceito que me digam “odeio rock”. E nem por isso digo para o maluco “mas bicho, isso é Deep Purple, é rock de raiz”. Não gosta, azar o seu. Se você prefere Abraço de Moleque, Cheiro de Pescoço ou Beijo Maroto a Beatles, dane-se. Mas eu sou brasileiro e as pessoas acham que sou obrigado a gostar de samba. Como se a tia do café do Senado fosse obrigada a gostar do Sarney só porque trabalha lá. E porque o Sarney é senador de raiz.

Outra peculiaridade bastante esquisita do samba é que os músicos não sabem montar a bateria. A banda tem nove pessoas num palco apertado, sendo que seis delas tocam, separadamente, pedaços da bateria. Alguém poderia avisar a estas pessoas que é possível conectar todas aquelas peças e colocar apenas um sujeito pra tocar tudo. O grupo precisaria de quatro, e o cachê de cada um seria maior. E não tem guitarra. Banda sem guitarra é tão bizarro que não merece mais do que uma linha.

Minha passagem por aquele lugar que parecia uma quadra de escola de samba durou 36 minutos. Tempo para ver a moça, que foi morar na Europa, e provavelmente vai gostar de polca (de raiz), e de ter certeza que não gosto de samba. E não estou nem aí se é de raiz.

Oi. É, eu sou novo aqui. Meu primeiro texto.

E vou começar com um aviso. Se você, meu amigo ou minha amiga, sonha em ter uma vida como aquela dos comerciais de margarina, com uma família toda perfeitinha sorrindo no café da manhã de um sábado de sol, obrigado, mas este texto não é pra você. Tente o site da Disney.

Ah, você tem como avatar em redes sociais uma foto sua com namorado(a), noiva(a) marido(mulher), seu amoreco, razão do seu viver? Legal, muito obrigado pela presença e daqui a pouco a gente volta. Mas este texto também não é pra você.

Nós, que chegamos até aqui, podemos começar? Certo, obrigado.

“Deus é fiel”. Já viu o adesivo colado na traseira de um monte de carros por aí, né? Fiel, ok. Eu nasci em 1976. Hoje eu tenho 34 anos e vivo no século 21. E por que você, enquanto banca o(a) moderno(a) em redes sociais, insiste em viver no século 19?

Sejamos francos. Eu já traí. Você já traiu. Eu já fui traído e você também. E eu não gosto do verbo trair para este tipo de situação, mas usarei para facilitar a compreensão. Se você não traiu, chegou perto. E o fez ao menos em pensamento. Lembra daquela noite, na cama, de luz apagada? No que você pensou?

Passou a fase da negação? Nem você, que lê este texto, seja homem ou mulher, e nem eu acreditamos que é possível viver uma vida inteira olhando, tocando, beijando e trepando com a mesma pessoa, apenas ela. Sim, isso já foi possível. E no tempo que isso era possível, não existia internet, as pessoas andavam de carroça e um marechal era presidente da República. Nós não vivemos naquele comercial de margarina do início do post. Aqui é 2011, meu filho. Século 21, minha filha.

Eu não proponho um tratado pelo direito à galinhagem. É pelo direito à felicidade. Sufocar um desejo é dar Biotônico Fontoura para a infelicidade. Sim, ainda que eu ame aquela linda, é possível que me veja interessado por outra. Muito interessado. E ela por outro. Não é de tesãozinho besta que estou falando. É desejo a ponto de ir pra casa e pensar nela. E o que eu faço, ignoro? Finjo que não é comigo? Eu não sei ser assim. E não quero que alguém com quem eu vá dividir minha pasta de dente seja assim.

Eu não quero fazer de um relacionamento uma cela. Nem uma coleira. Eu quero ter meu direito de ir e vir e quero que ela tenha o dela. De sair num sábado à noite sozinho sem que isso pareça absurdo. Eu quero ter minha vida independente da vida de quem quer que seja. E eu quero que aquela que tem o direito de usar a minha pasta de dente também tenha o direito a ter sua vida e sua liberdade. Que responda pelos seus atos a si mesma, e não a mim.

Você se orgulha por não ter “pulado a cerca”. E quando está sem roupa no chuveiro, pensando no outro lado da cerca? Ah, entendi. Se não teve contato físico não é traição. Mas pensar e imaginar enquanto ela(e) está do seu lado pode? Ah, tá. Vou procurar no dicionário, espera um pouco.

Achei.

Hipocrisia (hi.po.cri.si.a) sf Manifestação de fingidas virtudes, sentimentos bons, devoção religiosa, compaixão etc.; fingimento, falsidade.

“Trair” é um verbo ultrapassado para um relacionamento. “Viver” é mais adequado. É preciso ser realista e entender que o mundo mudou. Os tempos são outros. Se você tem um iPad em casa – ou quer ter –, deveria pensar por que deseja que a história do seu relacionamento seja escrita com máquina de escrever.

Se Deus existe, e se ele é fiel, como diz o adesivo, então há uma mentira histórica naquele papo de que fez o homem à sua imagem e semelhança.

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