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Perdoem, sobretudo as moças, pelo tom grosseiro que este texto vai acabar adotando em determinado momento, precisamente no próximo parágrafo. Certos temas pedem. E que tema pede mais grosseria do que porrada? Não, não é uma espécie de ode à violência, não estou dizendo que TUDO na vida se resolva na base da distribuição gratuita de bicudas, cascudos e joelhadas. Falo de um tipo de porrada que aplica-se para o bom funcionamento da vida, a porrada enquanto útil ferramenta na educação de marmanjos soltos por esse mundo, quase sempre privados do convívio paterno, que se não ajudasse, orientaria o sujeito a reconhecer autoridade.

Esse tipo de porrada, tanto na infância quanto na adolescência, e são só uns tapinhas bandidos, nada mais, nunca fez vítimas fatais. No máximo, dava uma esquentada na bunda de quem levou, aquela rápida, de chinelo de dedo, e um chorinho soluçado. Pronto, passou. Segue a vida. Você podia até não saber porque apanhou, mas certamente alguém sabia. Bastava.

E aí, por volta dos 13, 14 anos, muita gente escapou de levar uns pescoções daqueles doídos, uns por obra daquela dupla infalível, Omissão paterna e Excesso de zelo materno, ou por uma feliz série de coincidências. Muita gente chama isso de malandragem – “Fulaninho é malandro, aprontou mas conseguiu escapar de uns tabefes”. Não, isso não é malandragem, mas uma combinação de senso de oportunidade com cagaço. Já vi um cara fingir uma crise de asma, numa performance memorável, só para não levar uns tapas do pai. De alguma maneira funcionou. Hoje ele mora na Ilha de Capri e se chama Deise.

Posso dizer que tive minha dose de “porrada de arrumação”, do tipo que orienta a gente. Não sem razão, devo acrescentar. Na mesma proporção, já distribuí doses várias deste poderoso remédio. A carência de tapas no pé do ouvido me incomoda profundamente. Não acho que mereça elogios, apenas fiz e ainda faço a minha parte na luta contra a carência de respeito, honra etc. Por isso tudo, deixo aqui o alerta: Se você está com dificuldades de concentração na própria vida e no trabalho (quando se tem um, é claro), preocupado se falam (QUANDO falam) sobre você ou fica se empenhando no rude trabalho de aparecer e ser reconhecido pelo que faz de ruim, sórdido, malvadinho mesmo, meu amigo, saiba que há cura para tais moléstias. E não falo de amor e piedade.

“Amizade é um amor que não foi pra cama.”* A frase obviamente não é minha, muito embora eu já tenha levado muitas amizades pra cama – e lá elas tenham terminado, meio que contra a minha vontade em certos casos. Não tarda, vem um esperto dizer “Então não era amizade”. Ótimo, então me defina aí o que é e eu prometo pensar a respeito. Quase sempre a definição falha pois é uma coleção de adjetivos surrados e construções toscas. Logo, dizer que não era amizade é só perda de tempo.

Minhas amizades, sobretudo as femininas, sempre nasceram de acidentes, falhas e rachaduras que eu mesmo fiz e que, de tanto gosto que tomei por ter feito, fui lá e escancarei a maioria delas. Uma amiga diria que é o meu jeitão. Deve ser. No que diz respeito às amizades masculinas, nunca tive dentro de casa a cumplicidade que queria dos amigos. Tenho um irmão que seria o mais indicado para o posto, mas somos tão diferentes (diferentes mesmo) que é impossível termos uma amizade que dure, sei lá, duas horas. Ele é Flu, eu sou Fla. Preciso me alongar na explicação?

“Você é a melhor amiga que fiz nos últimos dez anos.” Não sou dado a causar impacto ou sensação com frases como esta (sou mas não espalhem, por favor), mas ela me veio do fundo da alma, perfeita para o momento, e eu a proferi. De fato, faço poucos amigos e poucos são aqueles que merecem ouvir certos elogios de mim. Posso contar nos dedos de uma das mãos quantos amigos tenho – nos quais posso confiar e com quais posso me confessar, abrir o peito mesmo e deixar sangrar.

Um já morreu; o outro é um poeta recluso cinqüentão; o outro casou-se com uma venezuelana e quer se mudar para lá (contra a minha vontade, diga-se). Para minha surpresa, a mais nova amiga que tenho está aqui, neste blog. Ela provavelmente lerá este texto e se enxergará nele. Ela e todos os outros. Que virão e que já foram, indo ou não pra cama.

* A frase é do gênio Millôr Fernandes, que teve um AVC, ficou em coma, teve alta e infelizmente voltou a ser internado ontem. Compre “A Bíblia do Caos” e você encontrará a frase.

Maconha. Agora todo mundo fala. Acabou o cagaço. Pode falar, mas não pode fumar. Quer dizer, pode. Só escolha com carinho o lugar onde vai fumar.

Ela já era fumada muito antes de estarmos aqui e continuará sendo fumada muito tempo depois que nós passarmos dessa para outra. E não me pergunte, não sei qual é essa outra. Ela é fumada agora, nesse instante, em tudo quanto é buraco. Na Vieira Souto, na Paulista, no barraco, no DCE das faculdades públicas ou particulares, camarins, estúdios de gravação. Até em sala de espera de consultório dentário, posso garantir (quando não NO consultório). Não há polícia, tribunal, governo que pare com isso. E, convenhamos, todos eles sabem que não vão parar.

A gente era criança e via vídeo do Bob Marley, alguém mais velho dava um risinho. “Qual a graça?” perguntávamos. “Maior maconheiro esse maluco aí”. Não dava para entender. Tudo bem, são todos rastafari, parecem relaxados, ali, sentados no estúdio. Mas, maconheiros? Ele comia o troço? Ele cheirava? Ele fumava? Mistério. A erva danada. Cigarrinho do capeta. Orégano. Fumo. Preto. Erva sem vergonha. “Olha aquele ali, com pinta de queimador de fumo.” Queimador de fumo era a definição mais utilizada no meu glorioso círculo familiar para qualquer um que usasse cabelos compridos, tocasse guitarra ou estivesse mais ocupado em pegar ondas em Saquarema do que ler um livro. Eu tinha oito anos.

Um primo, PhD em caretice, me chama para sair. Fiquei todo empolgado. Perfume, carteira de identidade falsa, dentes duplamente escovados. Sento no sofá. E espero. Toca o telefone. Meu primo. “Não vou mais. O maluco que ia dar carona vai… é… fumar ‘a parada’”. Perguntei se era maconha. Meu primo envergonhado, riso nervoso, é, é sim. Caramba, que mistério esse negócio de maconha. Idéia: na primeira chance que tiver, fumo. Só para matar essa maldita curiosidade.

Janeiro de 95. Pacaembu. Fugido de casa para ver o primeiro show dos Stones no Brasil. Tinha o ingresso e o dinheiro das passagens, e só. Me embrenho na multidão, faço amizade com um grupo. Lá pelas tantas, acendem um baseado. Esqueço o show. Ia matar a bendita curiosidade. O baseado some. “Sujô”. Não foi dessa vez. Dias depois estou no Maracanã para ver o último show. Dessa vez na arquibancada. Estou com outro primo, mais velho, menos careta. Ele leva um binóculo(!). Encostam duas meninas, lindas. Acendem um baseado. “Quer trocar seu binóculo pelo beque?” Troquei na hora. Mas não fumei, fiquei com vergonha. Me senti com um letreiro luminoso sobre a cabeça:”Aqui Queimador de Fumo”. Não foi dessa vez.

Não me perguntem como, consegui um pouco de fumo. Encagaçado, trancado no banheiro, sozinho em casa, olhava para a pedrinha, que olhava para mim, que olhava para o maço de papéis de seda Lion of Judah. Apertei (de novo, não perguntem como) e fiquei contemplando a cobrinha de massa de modelar que tinha resultado. Acendo. Já tinha fumado cigarros, não deveria ser muito diferente. Um trago, dois, três. Eu deveria estar me sentindo diferente. “Você ri muito depois que fuma” me alertaram. Nada. Apago. Levo comigo para o colégio. Um cara me ensina a ‘prender’. Fico zonzo, mas consigo andar, falar. E rir. E rir mais. Matei a curiosidade. E não parei, ao que tudo indica.

Não sei de vocês, mas eu estudei num colégio em que havia concurso de bandas na hora do recreio. Funcionava assim: toda sexta-feira a direção bancava o sistema de som, a banda trazia os instrumentos, montava e tocava três músicas. Na última sexta do mês, a banda mais votada – votação à vera, com cédula e três linhas para comentários – fazia um show de uma hora, com a presença dos pais e quem mais quisesse ver. Desnecessário dizer que o couro comia e a coisa tomou proporções estranhas.

Tinha boicote, sabotagem (furar pele de bumbo), ameaça, pichação na parede do banheiro. Como tudo que é bom acaba cedo, a direção parou com o concurso no terceiro mês: uma briga durante um show deu fim àquele flerte juvenil com o estrelato. (engraçado: a maioria hoje em dia não vive de música)

No segundo mês de concurso estavam na disputa as três melhores bandas do colégio. Uma delas, por ser a vencedora do primeiro mês, despontava como favorita. De fato a banda era boa e fiava-se num repertório que ecoava as rádios: sucesso garantido num tempo sem mp3 e sem tv a cabo. Pelos corredores já se dava como certa a vitória naquele mês e, óbvio, as outras bandas e seus seguidores não gostaram nem um pouco disso. Durante semanas se arrastou o clima de “peidaram fedido no elevador”. Gente que se falava não se falou durante um tempo, integrantes e fãs das bandas concorrentes se cruzavam nos corredores e um festival de xingamentos e gestos era quase que obrigatório.

Para fechar aquela semana com chave de ouro, dois fãs ardorosos de uma das bandas que não era a favorita desenharam, copiaram e espalharam por todo o colégio uma caricatura pouco simpática dos integrantes da favorita na qual os integrantes, em traços exagerados, praticavam atos obscenos uns com os outros. O nível da disputa despencou vertiginosamente e, a meu ver, só fez crescer a popularidade dos caras. O tiro saiu pela culatra de uma vez quando a banda venceu o segundo mês de concurso.

Eu, que fazia parte de uma banda fora do colégio, não me esquentei nem dei bola. Achei até divertido que tivessem transformado uma distração (para a maioria) numa competição que acirrou os ânimos e instalou no colégio aquele clima de merda. Tinha amigos em todas as bandas mas não tomei partido de ninguém.

Penso que música não é o tipo da coisa que se divida em guetos, facções ou qualquer outra divisão que se queira inventar (estão aí os Billboard charts que não me deixam mentir). Há estilos musicais que te agradam e que não te agradam, que você ouve sempre ou que você não ouve nunca. E ponto. Atribuída a Louis Armstrong, a seguinte frase carrega uma tonelada de verdade in natura: “Existem dois tipos de música: boa e ruim.” Gostar de um não te autoriza a meter o bedelho no gosto alheio. Cada um com seu cada qual e a vida continua bela.

Assisti quieto ao ir e vir de piadas, paródias e impropérios de toda sorte sobre uma determinada banda. Vocês sabem de que banda falo (dica: não é uma banda FEIA) e, se você circula em ‘redes sociais’ (argh), sabe o tiroteio que se sucedeu ao lançamento de um vídeo. Não demorou para começar o festival de piadas ruins, trocadilhos infames com o nome da banda e de paródias, todas medíocres e, a meu ver, produzidas por gente simplesmente frustrada.

Assisti uma única vez o vídeo original e me dei por satisfeito, exatamente como faço com discos, livros e filmes que me recomendam. Se volto a ouvir/ler/assistir é porque me interessei além do que normalmente me interesso. Se gostei da banda? Gostei. Não vi uma GRANDE banda, mas ouvi uma harmonia linda, cantada em coro, o que sempre deixa qualquer canção GRANDIOSA. O resto é mau humor e recalque.

Confesso que fiquei encucado com a onda de ódio e desprezo. Não importa em que ramo você atue, sempre haverá um sujeito pronto a atirar pedras gratuitamente. Ele não leu, viu ou sequer ouviu o que você fez: só atira pedras, quase sempre motivado por uma denotada vontade de aparecer. É a parte que lhes cabe no latifúndio. No fundo, é recalque. Muito ou pouco, velado ou escancarado. Ontem eles faziam desenhos obscenos e espalhavam pelo colégio. Hoje eles fazem ‘virais’. Esquecem que recalque também é lisonja.

O doce aroma da vingança

Não venham bancar os bonzinhos, de alma pura e coração limpo, e me dizer que vocês nunca, jamais, em tempo algum, se vingaram de alguém. Não venham, mesmo. Porque eu sei, vocês se renderam e devolveram – na mesma ou em maior quantia – aquilo que receberam. E vou além: vocês se vingaram e gostaram. Não é? Claro que sim. E não tem problema: vingança é bom, até mesmo se você carrega aquela culpa de ex-coroinha e tem medo de admitir que já se vingou.Tirando a religião da jogada (sempre de bom tom fazê-lo), o que sobra? O bom e velho instinto do bateu, levou. Quid pro quo, This for that, vocês já entenderam. Vale a pena? Basta ter se vingado para saber. (nota: Vale, pra caralho)

Foi mal, Paul

Se você não é exatamente um fã dos Beatles (uma heresia da sua parte, diga-se), esta semana não é das mais indicadas para ‘xingar muito no twitter’. Você se arriscará demais a levar pedradas de todos os lados e ouvir termos chulos e palavras de baixo calão de toda sorte. Beatlemaníacos, quando querem, são piores que qualquer jihad. Há quem defenda aquilo que gosta de maneira apaixonada – por vezes violenta e grosseira – mesmo que isso o faça parecer uma adolescente, fã de algum pré-moldado pop colorido desses que infestam o mundo. Portanto, se você está pensando em escrever um manifesto Pró-Stones ou questionar o espectro da obra de Lennon/McCartney na música pop inglesa da metade da década de 90, aí vai uma dica: guarde para a semana que vem. Ou então encare o desafio de chamar McCartney de velho e burocrata durante esse Ramadã Beatleístico e veja o que acontece.

Em tempo: não fui aos shows anteriores (91, por pouca idade de consciência, ano passado, por pouca ‘con$ciência’) e não vou aos da semana que vem. Motivo: digamos que muito me falta, disposição, por exemplo.

Long-Term Karma

Embora não acredite em uma vírgula do que dizem horóscopos e oráculos, acho que, sim, inferno astral existe, e tenho a impressão de que não usei o meu do ano passado, o que quer dizer que estou tendo um ‘inferno bimestral astral’. Não recomendo, a sensação não é nada boa. O calendário do Seicho No Ie na parede da cozinha, para me fazer sentir melhor, lembra: “o que te acontece de ruim é carma sendo queimado”. E quem termina em cinzas, eu ou os carmas?

Filipe Quintans resenha filmes em elclandestino.blogspot.com. É carioca mas não exerce.
Nota da editora: Filipe Quintans escreveu a nota acima, na terceira pessoa. Vai estar no festa do blog dia 23 de junho, e discotecar a força, mas ainda não sabe.

Já não me irrito mais com tanta facilidade e sinto um prazer gostosinho quando faço certas coisas, daquelas que só eu acho que faço, como ouvir rádio AM no escuro até dormir e dobrar camisetas cantarolando Secos e Molhados. Não me sinto mais disposto a entrar em certas brigas e desenvolvi, ao longo dos anos e à custa de muito trabalho, apurada técnica de aceitar todos os convites que me são oferecidos, garantir presença e desistir de ir com a chave já na ignição. Esse troll misantropo que adotei não sei quando e cuidei não sei por quê – e quando vi, já estava crescido e barbado – agora vive agarrado no meu pescoço, fazendo manha e beicinho e implorando que eu fique em um e somente um lugar: em casa.

Me cerquei dos discos (um monte), dos livros (toneladas), das guitarras (duas, sem contar violão e baixolão), dos daschunds (três) e decidi fincar bandeira num território que já era meu. Com a vantagem de morar num bairro silencioso e a desvantagem de morar num bairro distante de tudo o que interessa na cidade, recolhi aquele ímpeto (forte que só) de meter a cara noite afora e quando saio – uma em cada cento e vinte luas cheias – acho chato, fico bêbado rápido e sou o primeiro a fazer sinal para o táxi e dar no pé.

Andei muito na rua. Quando fugi da casa paterna e fui viver com o Velho, abri no mundo e só parei quando da minha visita à uma delegacia de polícia. Não há uma ponta de orgulho neste final sombrio. A viagem até ali me bastou. Hoje me pego lembrando e rindo das figuras que conheci, muitos já defuntos, quiçá pó; dos lugares exóticos, entre eles um puteiro gerenciado por uma anã; e das inúmeras – com ênfase, por favor – roubadas (furtar um caminhão de biscoitos ou guiar dois fotógrafos dinamarqueses pelo Complexo da Maré a 500 pratas/dia).

Valeu? Porra. E como. Mas num período de dez anos – 94 a 2004 – me acabei como poucos. Minha saúde cobra o preço agora. Sem perceber, se acabou também a minha paciência para a noite, a balada, para conquistar o amor mesmo pagando por ele. Foi-se também minha paciência com as rodinhas de violão regadas a cerveja quente e piadas juvenis, as caminhadas (para onde?) Lapa adentro; com as mesmas festas, com as mesmas pessoas, com as mesmas músicas, tocadas pelos mesmos dj’s saltitantes. Aqui, soterrado por livros, discos, filmes e daschunds, meus ‘escombros morais’, sigo achando tudo uma chatice e alimentando esse troll misantropo que adotei, cuidei e levo para passear todo domingo de manhã bem cedo.

Relutei o quanto pude. Deixei que a família inteira fosse na frente. Lutei arduamente contra, com todas as forças que tenho. Tudo inútil. Acabei indo. Asilos são lugares muito tristes. Asilos, não sei se vocês já tiveram a oportunidade de checar, são bicolores. É tudo bege, cinza. Cemitérios e asilos, dois lugares que não faço mínima questão de visitar, a não ser obrigado ou por “motivo de força maior”. A Clínica Geriátrica São Sebastião fica num ‘bico’ de rua arborizado no início da Rua São Miguel, na Tijuca (falamos do Rio de Janeiro). A ‘interna’ (achei o termo aterrorizante) estava sentada à porta do quarto que divide com outras duas senhorinhas. As três com Mal de Alzhmeimer, em diferentes estágios. Nossa ‘interna’ é a ‘melhor’ das três. Fiquei um tempo junto à porta de saída, do lado oposto ao quarto, relutando em dar o primeiro passo, e o segundo e me ver defronte àquele quadro triste, o retrato da vida se esvaindo, se desfazendo no ar como fumaça. Acendi um cigarro e logo fui reprimido por um enfermeiro. Ele sorriu e me apontou o sinal de ‘Não fume’.

A ‘interna’ não teve vida fácil. Nasceu em 1927, no interior mineiro, pobre de doer. Era a segunda filha do segundo casamento do pai, morto quando ela completou três anos. A mãe morreu logo em seguida. Criada pela madrinha, depois pela irmã mais velha (por parte de pai), nossa heroína não esteve por muito tempo nos bancos escolares e logo foi encaminhada ao bom serviço doméstico: trabalhou como empregada na casa da própria irmã até os 15 anos, quando resgatada por uma tia, no Rio, foi colocada numa espécie de internato, tocado por freiras. Falo freiras e lembro de seu ódio por elas. Aos 18, liberta, tratou de fazer duas coisas: dar e procurar um ofício. Dar ela deu, procurar um ofício, também. Manicure. Passou os dez anos seguintes solta no mundo. Até que aos 28, conheceu um sujeito, bem mais novo, recém-saído do exército. Devo dizer que eles se apaixonaram, casaram, tiveram um filho? Também achei que não.

Tomei coragem, cruzei o jardim e fui em direção à varanda em frente ao quarto. Me aproximei dela, disse um ‘oi’ e dei-lhe um beijinho na testa. Bem devagar ela levantou os olhos, me fitou e disse meu nome como se tivesse me visto no dia anterior. Afaguei seu cabelo, agora branco (costumava ser pintado de um tom cobre), puxei-o para trás num rabo de cavalo. Me sentei à sua frente e fiz perguntas de praxe; ela me respondia na medida do possível. Repetidas vezes ela tem o que seu médico entende como ‘decolagem’. No meio de uma frase, fixa o olhar num ponto vazio, para de falar e não volta mais. Me perguntou seis vezes como estava minha sobrinha. Outras seis vezes, agora de ‘Quando ela nasceu mesmo?’. Respondi pacientemente cada uma das perguntas. Numa das ‘decolagens’, fiquei observando-a e me lembrando de como era ativa, safa, conhecedora da rua e das malandragens da vida. Não era, digamos, letrada, estudada, mas sabia das coisas. O pouso. Ela diz que tem fome. Faço sinal para uma enfermeira, peço uma fruta. Ela traz uma pêra, que a ‘interna’ comeu lentamente, de colher na boca.

Já estivemos em situação semelhante, uns 30 anos atrás. A diferença é que, antes, eu estava sendo alimentado e ela escavava a pêra com a colher.

Depois de casada e mãe de um filho, as coisas voltaram a ficar complexas para nossa heroína. Traída e abandonada pelo marido, ela morou de favor no apartamento de uma prima em Copacabana, depois numa casa em Jacarepaguá, depois, vejam só, na São Miguel, esta mesma onde hoje, digamos, reside. Foram anos terríveis. Não havia dinheiro para o pão. Ela viveu de doações até o marido retornar, em fins de 77. O filho casou-se no ano seguinte, a vida entrou na longa e inevitável reta final. Os onze anos seguintes, no entanto, foram de alegria. O primeiro neto veio em 79, o segundo em 83. A vida fazia sentido mesmo depois de tanto dissabor. Os netos recebiam doses cavalares de amor e carinho. Os almoços de domingo eram fartos, os doces idem. Não faltou mimo, presente, cafuné, nada. Na casa dela tudo podia. Um estalo e já estamos em 1990. O marido morto, ela se muda para um apartamento modestíssimo, no Grajaú. Até que…

Terminada a pêra e uma enxurrada de reclamações (ela ficou irritada, disse que ‘aquelas velhas xexelentas [com quem divide o quarto] fazem muito barulho à noite’), vejo que ela está cansada. Pergunto se quer deitar, ela faz um meneio curto, sem força. O trajeto é longo da porta até a cama. Ela reclama, se deita e fecha os olhos como que para sempre. Me sento à beira da cama e fico observando minha avó, ali, sumindo, consumida pela própria existência, trazendo na cara e nas mãos cada porrada, rasteira e bofetão que a vida lhe deu. Digo que vou embora. É como se tivesse dito ‘bom dia’. Pego em sua mão, dou um beijo, digo que volto. Cruzo a porta, o jardim, a saída. Sento na praça em frente à clínica. Fico ali, fumando, olhando aquela casa feia, onde tudo é bicolor, onde minha avó se esvai.

Nota: Filipe é jornalista e escreve sobre cinema no El Clandestino. Siga no twitter.

Já recebi ameaça de morte. Mais de uma, inclusive. Pela internet, pelo telefone, por carta, bilhete preso no para-brisa do carro. Como se percebe, nenhuma delas foi cumprida. Estou aqui, eles talvez também. Talvez fosse o mesmo cara, o que é bastante provável, mas duvido que ele tenha se dado ao trabalho. Jamais fui à polícia. Jamais consultei advogados. Jamais consegui medida judicial. Me preocupei em não fazer pública nenhuma das ameaças, todas recebidas num período de três anos. Envolvia mulher, dinheiro, não tinha nada a ver com qualquer ato criminoso. Éramos, digamos, sócios num empreendimento, a coisa andava mal, a mulher não queria nada com meu sócio, and so it goes… Não sou Eddie Vedder mas ainda estou ‘alive‘.

E por que diabos eu comecei falando disso? Ah, sim. Queria escrever sobre homofobia contando uma história. Vocês sabem, e se não sabem tratem de saber, que há uma proposta de lei para criminalizar a homofobia (PLC 122). Eu concordo com algumas coisas da proposta, discordo de outras, mas em geral acredito que vá dar caldo transformar em crime uma prática tão odiosa quanto o preconceito aos gordinhos, negros, índios, albinos, corintianos etc.

Criado num lar homofóbico, ouvindo comentários homofóbicos e racistas numa base diária, eu tinha tudo para sair por aí, como muitos que conheço, “batendo em viado”. Não cheguei a tanto porque desde cedo fiz a conexão, por vezes demorada para alguns: não é eliminando o que eu não gosto que eu demonstro que não gosto. Simples. Um acontecimento, que revelo aqui pela primeira vez, foi o que mudou radicalmente tudo o que ouvi e fui doutrinado a pensar e que pautou a minha conduta quando o assunto é preconceito.

Corria o ano de 1995. Eu estava às turras com os estudos (quando não estive? me pergunto), só queria saber de guitarra, maconha e rock (não mudou muito, eu suponho); era visto no colégio como uma espécie de eminência parda: não era metaleiro, apesar do cabelo comprido e das roupas rastaquera; não era ‘bombado’ porque sempre odiei academias; não era bonito (continuo não sendo) então não era disputado pelas mulheres, apesar de tratar todas com educação e cavalheirismo peculiares à minha pessoa. Todo mundo me respeitava porque sabia que eu tinha sido expulso de três colégios, entre eles o Naval e um semi-internato barra pesada, e era o cara que “falava o que pensava” (ainda sou). Fiquei em paz por um longo tempo.

Lia muito, escrevia bastante, respondia aos professores quando contrariado ou quando achava que eles exageravam e sempre advogava em causas que julgava injustas. Nunca fui de botar galho dentro e, mesmo sabendo que iria apanhar, chamava para a porrada se assim julgasse necessário. Daí que, herói torto que era (péssimo aluno, mas gente boa), passei a ser uma espécie de porto seguro aos degredados: nerds, gordinhos e esquisitos de toda sorte sabiam que, perto de mim, eles estavam seguros.

Em 1996, entrou para o colégio um menino que chamarei daqui em diante de Mora. Inteligente, bonito e, caralho, gay assumido. Perdi as contas das vezes em que ele tinha que provar para os colegas que os pais não tinham nada contra, que ele podia ficar com o namorado, em casa, sem ser perturbado. Perdi a porra da conta. Como tocava violão e Mora cantava bem pra caralho, viramos uma dupla de recreio rapidinho. Fazíamos harmonias vocais, cantávamos coisas de boy bands, beatles, pop brasileiro dos anos 90. Trocávamos livros, vinis e passamos a andar juntos. Não tardou para que eu fosse tido como aquilo que era o pavor dos adolescentes suburbanos cariocas da década de 90 (e de tantas outras décadas): Filipe, o amigo do viado.

Não tem vergonha não?”, me perguntou um dia um brucutu que hoje é guia turístico em Campos do Jordão. Não, não tenho. Tenho vergonha de tirar nota baixa, de não saber ler direito e de ser flamenguista na segunda-feira quando o Vasco dava um sacode no meu time. Dessas coisas eu tinha vergonha. E ainda tenho. De ser amigo – amigo mesmo – de um cara da minha idade, inteligente, talentoso para o canto e gay assumido, não.

A babaquice se prolongou por mais tempo que deveria até chegar ao ponto do insustentável. Mora chegou ao colégio um dia e me mostrou um bilhete deixado dentro de sua mochila no dia anterior. O bilhete dizia mais ou menos que se ele saísse do colégio sozinho (leia-se sem mim), morria. Disse-lhe que era besteira, que quem quer fazer essas coisas não manda recado (falo por experiência própria). Mais uma semana, mais um bilhete, e agora um rasgo na mochila do Mora, feito à estilete. Começaram a sumir os cadernos dele, bem como seu material escolar, como estojo, régua, dicionário.

Vocês sabem, e se não sabem tratem logo de saber, que preconceituosos, de maneira geral, não param até que a vítima se veja louca. Dos pequenos atentados de colégio, passaram aos trotes telefônicos, às agressões físicas gratuitas em qualquer momento, dentro e fora de sala de aula, corredor polonês no banheiro masculino e demais. A coisa caminhou um pouco mais e eu vi meu amigo, com quem infelizmente não posso conversar hoje, definhando aos 17 anos de idade. Mora não comia, começou a tirar notas medíocres (para os padrões dele, normais para os meus padrões) e passou a beber e cheirar cocaína. Companheiro, me solidarizei em ambos os vícios e os dois quase acabaram comigo nos anos seguintes. Acabou com ele, certamente. Mora se jogou da janela do próprio quarto e aterrisou no telhado de amianto da garagem do prédio. Quebrou as duas pernas, passou por nove cirurgias no rosto, ficou meses em coma. Morreu em dezembro de 98, sem ter voltado aos estudos, deformado e infeliz.

O leitor chega até esse último parágrafo e pensa que eu fiquei de sacanagem até aqui. Fiquei não. Mora, apesar de um amigo querido, de quem sinto falta até hoje e, não minto, cuja lembrança me faz verter umas lágrimas que, macho que sou, não deixo rolar, cometeu um erro: tornou públicas as ameaças que sofreu. Deixou transparecer que aqueles imbecis estavam obtendo êxito, que realmente era só apertar que ele peidava. E ele peidou. Um deputado, mais conhecido (ou pelo menos mais lembrado) por ter vencido um reality show, recebeu, pela internet, 17 ameaças de morte recentemente. Fez públicas as ameaças, embora tenha tomado medidas legais e procurado a polícia. Burrice. Não se combate indigentes do pensamento jogando luz sobre eles e dizendo “vejam, que vergonha, o pastor Silas Malafaia, o Marcelo Dourado e as puta que os pariram, como são preconceituosos“.

Homofóbicos são como cogumelos: se alimentam de merda e devem viver no escuro, para sempre.

Como um trapezista sem rede, me joguei no mato, contrariando minha promessa, feita anos atrás, de que jamais faria isso de novo. Não que a experiência tivesse sido de todo traumática, acampar pode ser profundamente educativo, traz de volta noções básicas do que é ser gente e nos lembra como fazer, enfim, coisas de gente (comer, dormir etc.). Mas estou velho – velhíssimo – para acampamentos (imaginar a fogueira e o violão desafinado tocando legião urbana já me deixa com taquicardia), portanto decidi ir para um mato, digamos, mais sofisticado.

No interior do estado, à beira de um rio, sob os cuidados de um chefe cubano e seu assistente, tive cinco dias do mais puro e absoluto nada: nada para fazer, nada para pensar. Parece a alguns um traço de insanidade desligar tuiter, facebook, celular, deixa para trás o computador, o fax, a tv em HD e se voltar para coisas simples como ar puro, silêncio, café da manhã farto e horas mais do que estendidas de sono. Que se fodam. Minhas baterias estavam operando na reserva e eu precisava exercer o pleno direito à procrastinação.

Levei alguns livros, a maioria sobre montagem de cinema. Ainda tentando ‘achar’ o meu documentário no meio da barafunda do material bruto (coloque no youtube “O Fracasso da Memória” e conversamos mais depois), precisava me reorientar. Talvez o momento não tenha sido dos melhores: não tirei os livros da mochila e a última coisa que pensei foi como chegar ao corte final do documentário. Desnecessário dizer que, tentando me reorientar, me desorientei mais ainda. Pensar e fazer nada parecia mais sedutor. E foi. Até que, no meio de uma das últimas noites, ao som dos grilos e do rio, consegui concatenar em que pé está e onde quero levar meu documentário.

O Fracasso da Memória era apenas trabalho de conclusão de curso de pós-graduação. Não ficou pronto no devido prazo, impedimentos não faltaram, e foram os de sempre, destacando-se na fila a falta de tempo e a falta de dinheiro. Gramei até consegui realizar todas as entrevistas de que precisava para a primeira parte (ou primeiro segmento) do filme. De quatro entrevistas, aproveitei, por razões técnicas, duas. Das duas, pouco se aproveitou. Com o prazo estourado, decidi abandonar o trabalho de conclusão e fazer um filme de fato, com toda a burocracia e os descaminhos que isso implica quando se faz cinema no Salvelindo. Ancine, MinC, leis. Não. Passo. Farei cinema, perdoem o linguajar, independente. Câmera na mão, idéia mais do que mastigada na cabeça. Não serei um Glauber, me contento em ser um Maysle (ou um Eduardo Coutinho). O Fracasso… caminhou um pouco mais. E estagnou.

O ano de 2010 passou quase todo e, ainda gramando, consegui dar sentido a uma hora de material bruto aproveitável. Pouco, pouquíssimo. Preparei um teaser, um trailer-aperitivo, um quase-experimento sociológico para saber que tipo de filme estava fazendo e que tipo de filme parecia que eu estava fazendo. Passei então a segunda fase (ou segundo segmento), gravando conversas com um ex-veterano russo da Segunda Guerra que, de saída, recusava-se a falar da guerra. Lembrava de tudo – tudo mesmo – mas não queria tocar no assunto vai saber por quê. Ainda assisto e confesso que não achei espaço para seu depoimento. Talvez grave outros, não sei.

Fato é que, hoje, O Fracasso da Memória é um filme sobre si mesmo, sobre o seu… fracasso como filme. As reflexões do mato me ajudaram a decidir juntar os vídeo-diários feitos entre 2008 e 2009, todas as entrevistas feitas até aqui e contar o que se passou nos últimos três anos. Conclui que minha própria incapacidade de fazer um filme é um filme, que o defeito é meu, digamos, mérito.

Não faz muito tempo, um experiente diretor de fotografia brasileiro, meu professor e permanente conselheiro, me explicou porque tinha começado uma seqüência com um plano torto, mal planejado, quase desfocado. “Se eu começo pelo belo, me fodia, passaria a achar que tudo dali para frente tinha que ser tão bonito quanto. Sempre começo pelo feio”. Levei à cabo seu conselho-reflexão e recomecei. E recomecei pelo feio, defeituoso.

*nota da editora: Aqui o teaser

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