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A melhor coisa do Natal é o consumismo. Tem vaga temporária no shopping, a indústria produz mais e os camelôs tiram a barriga da miséria. Não existe nada mais bíblico do que as multidões da 25 de Março e a Bíblia, como sabemos, adora multidões, especialmente atrás de Jesus, desde a Galiléia a Sidom. A vantagem da onda humana da rua paulistana e dos shoppings é a sua comprovação em tempo real. Já o livro sagrado dos cristãos foi escrito bem depois do nascimento e morte do suposto enviado de Deus. Como obra literária é interessante, mas em termos de reportagem perde para qualquer flash Jornal Hoje.

Nesta época do ano, com a economia morna, há sempre vozes clamando pela volta das origens do natal, com sua manjedoura e bichinhos em volta. Acham que o capitalismo acabou com a celebração. Esquecem de um detalhe. Há 10 mil anos, povos agricultores trocavam presentes, no solstício do Inverno, e foram os cristãos que tentaram detonar a festa pagã. Como não conseguiram, decretaram que o costume passaria a simbolizar a chegada dos Reis Magos, com ouro, incenso e mirra para o recém-nascido menino Jesus. Ai os presentinhos começaram a ficar mais sofisticados. Depois vieram Papai Noel, a árvore de Natal, o Wal-Mart e as quinquilharias chinesas.

Os Reis Magos, então, deram início ao consumismo da era cristã. A história é estranha. Eles foram guiados por uma estrela e levaram presentes para um bebê que nasceu de uma virgem, por obra do espírito santo, e que estava destinado a morrer para salvar os homens. Ele morreu para nos salvar, mas três dias depois estava vivo de novo. Enganou todo mundo. Mas isso é outra história. Fica para a semana santa.

O importante agora é vender e comprar. Aproveitar a data para dar vazão à sanha consumista, enfrentar a horda dos shoppings e encher de cara de sidra Cereser nas ceias natalinas. Para os cristãos mais tradicionais, resta um consolo: a Bíblia traz uma história fantástica, às vezes sem pé nem cabeça, mas não dá para desprezar um case de marketing com quase dois mil anos.

Para minha amiga roteirista o texto é muito mais do que uma fonte de renda. É tudo. A vida diante do precipício, inferno e céu, mar calmo e mar bravio, amores e separações, juventude e morte. Um mundo real. Só que mais bem escrito e turbulento, emocionado ao extremo, sem meios termos, oito ou oitenta. Dramaticamente intenso. Escrevendo, ela chora, sua frio, ri feito um louca e, em casos mais graves, desmaia. Despeja sentimentos em forma de enxurrada, inundando sua alma sensível e seu quarto espaçoso. Já baixou ao hospital por causa de uma frase. Uma palavra pode provocar depressão ou ansiedade. Às vezes, uma letra tirar-lhe o sono. O “W”, por exemplo, espeta suas costas.

O texto diz-lhe verdades, traz boas notícias, abre um vale de lágrimas ou um campo florido povoado de noviças rebeldes. A escrita explode a cada parágrafo, estoura os limites da emoção e se ela esbarra no mau gosto, acerta o passo na sequência, transformando um pântano de breguice numa delicada paródia. Chega a achar que não existe de fato – é apenas um personagem de si mesma.

Ela não tem a afetação pública de alguns escritores, mas é enormemente afetada quando escreve. Nem os ansiolíticos resolvem seu mergulho na história. Linhas tristes, tristeza de verdade. Quando a ouve, o analista sente-se num congresso de literatura. Só ficção. Nenhum pio sobre aflições reais. Mesmo porque o analista é mais do que analista; também é personagem dela. Está em seu próximo livro, numa trama sem saída, recheada de situações desagradáveis e um suicídio quase escatológico. Os dois terminam conversando sobre o desenrolar desse romance trágico. Ele não se conforma com a idéia de morrer no final – muito menos daquele jeito.
Outra fonte de desespero são as influências. Quanto se afunda na alma do personagem lembra que alguém já fez parecido, talvez Clarice ou Conrad. Noutras horas, sente-se escrevendo à Somerset Maugham e grita: “não!”. Se andou lendo Machado logo aparecem ironiazinhas bem clássicas e ela desce as escadas do prédio, correndo, para uma volta no bairro, sem destino.

Minha amiga quer uma literatura selvagem, sem interferências externas, ligada ao sistema nervoso central, com a exasperação no talo. Nem sempre consegue. Nessas horas, a família entra em cena e a recolhe para uma semana na Clínica.

A ideia inicial era lambuzar o espaço aqui com um pouco de política. Olhei em volta, senti o drama, desisti. A seguir, pensei em algo confessional, mas faltaram coragem, novidade e conteúdo. Só haveria ruminações queixosas sobre 2011, este ingrato. Mesmo assim, para não virar a crônica do cara sem assunto, vamos então a uma retrospectiva do ano, à moda da casa, tirando da parada Steve Jobs, Osama e Kadafi. Não haverá critério jornalístico. Aliás, não haverá critério de qualquer espécie, mesmo porque as ocorrências abaixo carecem de confirmação. Ainda mais imprecisa, mas com boas fontes, é a história do jovem escritor em Nova York. Segue resumida, com algumas omissões, embora ocupe dois meses deste balanço de coisas nebulosas e sem importância.

Janeiro – No aniversário de 18 anos, o caçula da família ganhou uma carreira política de presente – kit com pesquisa, temas da campanha, fontes de financiamento e um jingle de Robério do acordeom.

Fevereiro – O jovem escritor trocou o carnaval por um recarregamento lítero-existencial, um passeio creative – writing, numa universidade norte-americana. Escolheu Columbia e seu contorno, Manhattan, porque é mais jovem do que escritor, e queria algum movimento. Nada de cidadezinhas, mesmo as descoladas. Logo no primeiro dia, num desses esbarrões de corredor, cuja descrição comeria aqui uns dois parágrafos, conheceu a moça que provocou um abalo sério em sua vida. Ela nasceu no Brasil por acaso, mudou-se para os Estados Unidos ainda bebê, mas mantém um pé na língua portuguesa. Bonita, meio pra linda, mora com o pai, um professor de literatura, amigo – ou, vá lá, conhecido – de meio mundo. O professor, desses com pós-doutorado, batia altos papos com o falecido Edward Said e com Christopher Hitchens, também morto, embora esteja vivo, mas isso é outra história. Leiam a autobiografia Hittch-22, que é melhor do que tudo isso que você está lendo agora.

Março – Bom. A história continuou em março. O professor gostou do jovem escritor, mas gostava especialmente das amigas da filha, com destaque para uma de 30, loura e inteligente. O scholar, um pouquinho passado dos 50, era viciado em sexo e em literatura, nessa ordem, e praticava as duas obsessões numa freqüência diuturna. A filha, a mesma coisa e, para sua própria surpresa, o jovem escritor descobriu-se um Príapo naquele universo. No final do mês, quando tudo caminhava num ritmo de desencanações, sexo e literatura – as coisas que valem a pena, segundo concordavam o professor, a loura, o jovem escritor e sua namorada linda – desabou um enorme porém naquele apartamento da 19th Street: exames de DNA, feitos por um problema de saúde do velho, revelariam que o professor não era sogro do jovem escritor, mas seu pai. A namorada, irmã. O jovem escritor caiu em depressão, mas não perderia a oportunidade de escrever sobre aquilo. “O Acaso” sai no Brasil em 2012. Pena ter abusado tanto das influências de Nelson Rodrigues. Não aguentará críticas negativas como suportou o incesto.

Abril – Alberto perdeu o emprego em pleno espetáculo do desenvolvimento. O País ia bem, por que ele ia mal? Resolveu a questão à antiga, com veneno de rato. Falta de criatividade também foi a causa da demissão.

Maio – Ela chegou. Movida a 24 anos, passagem só de vinda, R$ 250 na bolsa, desceu no aeroporto de Guarulhos disposta a enfrentar a metrópole. Nenhum emprego à vista e nenhum lugar para morar. Mas era decidida. Em uma semana estava casada com o comandante do voo 1731, Campo Grande – São Paulo.

Junho – Um homem, aparentemente louco, pegou um ônibus e na hora de pagar a passagem puxou do bolso uma tapioca. Nela estavam dinheiro e documentos. O cobrador ficou na dele. Não disse nada. Era um passageiro antigo. Nunca passou disso.

Julho – O guia de 24 anos turístico seguia entusiasmado com sua província, explicando ao pequeno grupo que ali, onde hoje é o Paço Municipal, se reuniram os heróis da transformação do distrito em cidade. O cosmopolita disse baixinho: “que lugar de merda”. Não passava pela cabeça do rapaz que o mundo desdenhasse aquele acontecimento único, que deu aos cidadãos locais o título de munícipes, e, além disso, é a sua terra e a de seus avôs, onde ele nasceu, cresceu e aprendeu na escola pública que tais fatos são dignos de orgulho, não só para o pequeno estado, mas para o País inteiro. Tudo foi criado por causa daquele momento, da rua principal ao Instituto Histórico e Geográfico. Mas houve um momento em que o rapaz percebeu ainda mais desatenção do visitante, um muxoxo rápido, quando ele aludia ao desenvolvimento do perímetro urbano nas últimas décadas, com a criação de novos empregos em virtude da instalação de uma fábrica de laticínios com incentivos fiscais da Prefeitura. Aquilo era importante, por que o desprezo? “O senhor vem de onde?”, atreveu-se o guia. O cosmopolita não teve tempo de responder. Foi morto a facadas.

Agosto – O oitavo mês do calendário gregoriano produziu muitas tragédias. Algumas saíram nos jornais; outras não. Não houve notícias sobre o Homem e sua nova casa, no subúrbio. Mas foram 30 dias muito estranhos. A casa era castigada por barulhos infernais durante a noite. Não vinham da rua, mas da vizinhança. Tosses de pulmões encharcados e lamentações em línguas estranhas. Sexo solitário, seguido de berros medonhos, numa mistura viscosa de prazer, culpa e agonia da morte. Todos os sentidos percebiam umidade. Sem contar o eterno arrastar de móveis, bilhas correndo pelo assoalho, miados, gemidos de dores terminais e guizos de cascavéis. Para completar a sonoplastia macabra, a TV estava sempre ligada em programas evangélicos, cuja histeria se entrelaçava com os outros sons. O Homem mudou-se em setembro para um sanatório. As casas vizinhas estavam vazias desde 2009.

Setembro – No mês em que as pessoas sentem alívio, por que agosto já passou, houve um incidente esquisito. De repetente ficaram todos sem assunto. Silêncio absoluto na sala, mesmo com a bebida e a memória ainda viva de conversas anteriores naquela mesma noite. Ocorreu bruscamente. Não havia mais nada a ser dito. Repertório esgotado e vontade de ir embora. O mais novo levantou-se e foi ao computador. Constatou uma novidade: o problema era geral. Um blackout de acontecimentos, de idéias, de temas. Desde as 20h, não havia uma única notícia nas páginas online e já passava da meia noite. Jogos iniciados em zero a zero continuavam com o mesmo placar, nada sobre bombardeios no mundo árabe, nenhum acidente, um vazio na seção de celebridades, tudo na mesma. Nóia ou realidade? Convém levar em conta que nunca tinham fumado um daqueles.

Outubro – Ao lançar seu primeiro livro, no dia 3, o escritor foi previdente. A obra já vinha com uma resenha negativa, feita por ele mesmo, colocando defeitos estéticos em alguns personagens, reclamando que a história não rende e abusando de outros gerúndios do mesmo gênero. À saída da livraria, um crítico respeitável teve um comportamento ao mesmo tempo sincero e inadequado. “Não gostei do seu livro”, disse. “Eu também não”, respondeu o autor.

Não comece uma história sem
saber como ela vai terminar
Sir Walter Rawley

Começou a namorar a logo descobriu um desafio a ser enfrentado: a moça é esotérica, daquelas bem plurais, sincrética até o último chacra, dona de um altarzinho com Buda, Shiva, Jesus, gnomos, iemanjá e a foto do Doutor Matias (1890-1954), um espírito de luz. O pacote inclui ainda Tarô, I-Ching, Búzios e algo chamado “Teoria das emas totalizantes”, mistura de cabala, ensinamentos de Lao-Tse e Física Quântica. Pelo menos foi o que ele entendeu, assim, meio por cima.

Por que um cético foi parar nessa? Ele explica: “a gata é inteligente, linda, cheirosinha e engraçada. O misticismo foi encoberto por esses predicados, mas agora tenho que encarar o incenso”. Dito isto, pelo próprio personagem, vamos adiante, sublinhando alguns conflitos da relação entre o incréu de botequim e a deusa candidata ao Nirvana.

Nesses casos, o cara não pode simplesmente detonar todas as teses da namorada. Primeiro porque são muitas, interligadas, cheias de nuances e citações de mestres desconhecidos. Seria também deselegante. Nada de posar de dono da verdade, mesmo convencido da impossibilidade daquele arranjo metafísico. Um sujeito qualquer teria aderido de vez às convicções astrais da garota em troca de uns amassos. Merecia. Ele, não. O herege romântico queria ser verdadeiro.

O jeito era escutar, fazer alguns paralelos antropológicos e literários (“oba, tem o Borges”) e dedicar-se com mais afinco à leitura de temas nunca dantes navegados. Pelo Google descobriu um mundo habitado por serpentes energéticas, editores com terceiro olho, criaturinhas luminescentes, deuses ETs e outros mistérios do universo além da vida e da morte. Só nas cartas, havia matéria para o resto da existência, com nomes e procedências variadas, desde egípcias, ciganas e marselhesas às das bruxas, de Crowley, de Wicca, de Dali, entre as de outros e outras. Aquele gibi fantástico era a religião da amada.

Como a vida não é apenas sexo, seria preciso penetrar (no sentido exegético, é claro), nos abismos filosóficos da moça. Com algum conhecimento, ele tentou obter mais detalhes com a própria, especialmente dados mitológicos, com os quais poderia manobrar com facilidade. Leu “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell. Deu assim para ir levando, enquanto beijos, abraços e carinhos sem ter fim continuaram sendo a melhor coisa da vida, acima de todos os deuses, astros e estrelas.

Tudo caminhava bem no amor e no mundo das fadinhas. Até o dia em que ela anunciou a chegada de seu guru. A primeira imagem que lhe veio á cabeça não preocupava: um senhor idoso, barbudo e de cabelos brancos, magro como um faquir, casto e paterno. Mas no caso não era o caso. Apareceu o guru. Um garoto cheio de vida, quase um surfista, mas certamente dotado de rara sabedoria para envolver suas seguidoras em inebriantes transes e transas. O pior estava por vir – e veio: sexo tântrico, ritual necessário à compreensão do corpo e da alma. Ela tentou explicar, “é só a teoria, não se preocupe”, mas não deu certo.

O ateu, até então compreensivo, foi tomado pelos mais baixos instintos e toda aquela intersecção entre filosofia e misticismo foi por água abaixo. Ele bateu pé, não quis que o guru californiano ficasse hospedado na casa da namorada e muito menos viesse com essa conversa de sexo tântrico, teórico ou prático. Nem pensar. Ela chorou, mas a decisão estava tomada: guru e sexo tântrico.

Poucas horas depois, já entorpecido por substâncias terrenas – sete cervejas e meia garrafa de uísque –, começou a relembrar o sorriso da ex-namorada, a Sininho da Vila Madalena. Depois passou a maldizer o guru e o chifre transcendental talvez já acontecendo, numa trepada de hiper-orgasmos e algo mais acima da compreensão humana. Também soltou impropérios contra o politeísmo ingrato e traidor. Enquanto isso bebia álcool e lágrimas para aplacar sua alma de descrente e a dor do abandono.

O bolero seguiu em frente, noite adentro, e ele só acordou muitas horas mais tarde nos braços ternos de Sininho, refeita de sua experiência tântrica com o guru e inteiramente a postos para aplicar seus novos conhecimentos com o homem de sua vida. O cenário não era o bar, mas um lugar estranho e agradável. O paraíso na Terra ou fora dela. Todas as visões do Éden estavam ali reunidas, com seres outrora imaginários em festa pela união do casal. Não havia tempo e todos podiam voar sobre as enormes cachoeiras, florestas infinitas e cidades limpas e fenomenais. Ao lado de dois dragões bonzinhos, quatro duendes, um par de Teletubbies e divindades de toda natureza, ele pode perceber a presença do guru californiano. Para seu alívio não tinha sexo, apenas a palavra “Aeon”, em grego, tatuada na virilha, e estava cercado de borboletas gigantes e tagarelas. Naquela dimensão desconhecida, ele e Sininho iniciaram um jogo de carícias em que cada orgasmo equivalia a um Bing bang.

Pena. Era delírio alcoólico. Pena. Este final medíocre.

@ Hoje de manhã, quando acordei para ir ao banheiro, um passarinho cantava na minha janela. Olhei direito: era o do twitter. Devo ter tomado alguma coisa muita pesada ontem para estar vendo isso. Mas o bicho parecia real. Cantava. Até ai, mais ou menos. Só que a música tinha letra. A vozinha atacava de “Mister Sandman”, num inglês bastante convincente para uma ave.

@ Mas não deixo de voltar à cama por causa de uma alucinação. Não é a primeira vez que acontece e eu preciso colocar o sono em dia. Durmo até o começo da tarde, em plena segunda-feira, e ainda levanto com a sensação do dever cumprido. Agora, é só dar um jeito no apartamento, tomar o meu Cimbalta e ligar o computador. O passarinho saiu da janela – ou da minha cabeça. Joguei na conta das coisas que a ciência ainda não consegue explicar.

@ Super acho que estou passando por uma fase que já dura a vida inteira. Fase ruim. Mas de repente começo a pensar que comer, beber, dormir e escrever umas besteiras são as melhores coisas do mundo. Felicidade não existe, como já atestaram Nietzsche e Odair José. Vou levando.

@ Sonhos de ontem: um vizinho aderiu à necrofilia e o genro cego enlouqueceu com a ideia fixa de que poderia conversar em Braille. O resto foi pornografia. Ninguém entende essa minha necessidade de estar eternamente sobressaltada pela malvadeza humana.

@ Vi um vídeo pornô do Stalone, “Party at Kitty and Stud’s”. Todo aquele rambismo desaparece quando o pau come de outra forma. Chatinho, soft, brochante. Uma merda. Curioso ele falar que no Brasil podem explodir tudo. E aquelas duas torres da terra dele?

@ De resto, perdi a mão. Literariamente, claro, como afirma a garota má do twitter. Mas procuro segurar a pose com algum esnobismo, apesar da grana curta dos projetos culturais e da dieta à base de miojo, sardinha Coqueiro e álcool. O jeito é manter o Physique du Role (tem a ver?) da eterna insatisfeita. Às vezes dá certo. Às vezes, não. O “não” ganha.

“Vendo coisas” é um capítulo do livro “Todo Dia me Atiro do Térreo” (Editora Bookess), de Lula Falcão. Comprar

@ Viajei. Uma viagem incomum, no meu caso. Dessas de um lugar para outro. Ônibus, paisagens, rodoviária. Nada de drogas. Pelo menos por enquanto. Fazia tempo que não saia de casa, mas cá estou, numa cidade estranha, fugindo de mim mesma e atrás de alguém que conheci no twitter. Nem sei se é homem ou mulher, mas não estou em condições de exigir muito. O nome dele (a) é @I-Toy. No momento é o que basta.

@ O problema: @I-Toy não me esperava. Peguei um táxi e me instalei num hotel duas estrelas, com banheiro coletivo e uma estranha placa de advertência no quarto: “É proibido cuspir no chão, limpar o pau na cortina e matar pernilongo na parede”. Acho que parei num puteiro. Agora é tarde.

@ O quarto: cheiro de mofo, uma Veja de 1989 jogada no Chão, torneira pingando, cama precária e uma TV de 16 polegadas. Banda larga, nem pensar. A boa notícia: o canal privê só com clássicos do gênero, vintage total. Rever John Holmes, no auge, vale a passagem. Mas, cadê o @I-Toy? Ligo para o celular que a figura me passou por DM. Fora de área.

@ A sensação de que @I-Toy não existe vai se tornando cada vez mais forte. Com esse nome, talvez nem seja uma pessoa, mas uma coisa, um robozinho que tuíta ou um novo lançamento da Apple. O jeito é sair por ai até encontrar um porto seguro, ou seja, uma Lan House. Nessas horas, não adianta reclamar, você tem que aproveitar o que Deus lhe deu – essa vida de merda – e manter o foco. Agora eu pergunto: que foco?

@ Lan House: para minha surpresa @I-Toy aparece na timeline, cheio de desculpas. Promete me encontrar às 14h30, depois da depilação. Penso: é mulher. Mais tarde, descubro a verdade: @I-Toy é um traveco.

@ Finalmente juntos, eu e @I-Toy, iniciamos o delicado jogo do amor. Primeiro peço para ele se livrar da gilete. Topo tudo, mas assim é demais. Conversamos um pouco e me vejo diante do impensável para uma figura tão submundo: @I-Toy é um intelectual refinadíssimo, daqueles que a gente só vê no Café filosófico da TV Cultura. Numa tarde, me ensina tudo sobre Giles Deleuze. À noite, me encaminha aos segredos da literatura erótica do século 19.

@ Foi bom enquanto durou. Volto pra casa abatida, desencantada da vida, depois que @I-Toy me dispensou sob a desculpa de que tem uma tese de doutorado pra escrever. O ônibus me leva ao inevitável – um apartamento em ruínas. Com pouco dinheiro, vou ao supermercado. Levo uma garrafa de 51 e um limão só pra pensarem que vou fazer caipirinha. Mas detesto bebida com frutas. Como evito beber de manhã, espero pelo início da tarde. Ainda bem que já são 11h59.

Nota: Encontro o amor e depois perco é um capítulo do livro “Todo Dia me Atiro do Térreo” (Editora Bookess), de Lula Falcão. <a href="http://lulafalcao.blogspot.com/2011/05/promocao-por-tempo-ilimitado_28.html ” target=”_blank”>Comprar

O lado mais desagradável da convivência com os jovens era o fato de não ser mais um deles. O professor, no entanto, insistia. Estava sempre nas mesas de bares com alunas e agregadas nascidas depois de sua tese de doutorado em Filosofia na prestigiosa Universidade de Princeton. Por que não procurava sua turma? O problema é que ficava entediado com colegas acadêmicos, divididos entre Fenomenologia e artroses, quase todos vovôs, em vias de embarcar na aposentadoria e, pluft, na morte. Então ele escolheu a galera, extasiado com o sorriso d’Ela, eternamente curioso em mundo que não lhe pertencia. No mais, tinha certa destreza no trato com as meninas: cuidadoso para não parecer insinuante, mas não ao ponto de ser considerado fora de cogitação para o sexo. Sonhava com um caso mais duradouro ou amor eterno. Com Ela, vinte e poucos anos.

Era agraciado com freqüentes convites para programinhas. O professor ia, quase sempre, mesmo certo que as coisas terminariam mais ou menos. Ia pelo processo em si. O apelo visual, o sorriso d’Ela, o gosto de expor suas idéias para tão seleta audiência. Vaidade. Por volta das duas da manhã, quando o jogo ficava fisicamente pesado, o som da festa abafando as palavras, ele se recolhia. Algumas vezes experimentou a continuação da balada e terminou só, num canto, sem expor-se ao ridículo de cair na pista de dança. Saia à francesa. Elas entendiam.

Ao observar que não era páreo para homens e mulheres de vinte e poucos anos que sobrevoavam sensualmente suas moças, também tomava o caminho de casa. Parecia insensível diante de decepções e constrangimentos. Simplesmente desarmava o circo. Depois, numa poltrona de couro, cercado de livros em francês (quase um clichê Hautes Études), apenas fazia um balanço de sua performance na noite sob o ângulo mais positivo. A habilidade cinqüentenária para enrolar baseados – um espetáculo diante dos olhos d’Ela – e as informações sobre bandas antigas cultuadas nos dias de hoje devem ter somado uns seis pontos em sua escala imaginária. Sem contar que passou uns bons minutos discorrendo sobre a obra de Gilles Deleuze e, de quebra, serviu fartas doses de Mario Faustino, Noel Rosa e Psicanálise. Coisinhas caras à moçada urbana com pretensões intelectuais. O abismo etário era deixado de lado, embora seu trabalho mais recente fosse a respeito da passagem do tempo, a velhice e a morte na ótica de Nietzsche.

Cuidou das dores nas costas, comprou roupas adequadas (nem pateticamente juvenis nem explicitamente “tiozinho”) e estava de volta à arena. Naquele dia, o professor teria um encontro apenas com Ela, uma conversa a dois. Melhor de tudo: marcada por Ela, sua obsessão, razão de viver etc. Parecia preparado. Andou lendo Philip Roth, “Homem Comum”, mas não se abalou tanto. Ainda se achava na idade da batalha, não do massacre. Tomou meio Rivotril para conter a ansiedade e, cuidadosamente, acomodou o Viagra no bolso esquerdo. O pequeno míssil azul só seria usado em extremo caso, alerta vermelho. Saiu cheio de esperança e desejo. Romance no horizonte.

Mas a vida no universo juvenil se desfez da forma mais dolorosa possível naquela tarde. Ela queria um emprego, uma vaga no Departamento de Ciências Humanas, nem que fosse na burocracia. Precisava de uma grana para ajudar nas despesas do pequeno apartamento onde iria morar com um namorado. O cara ganhava pouco, era músico, vinte poucos anos.

Lula Falcão

“Viver não é isso”. Talvez o nome de um próximo livro em que personagens insatisfeitos vagam por seus infernos particulares à procura de um autor que lhes dê sentido, razões para existir e alguma densidade. Já foi dito que a literatura brasileira está um bagaço e, nesse mundo irreal e precário, fraco de tramas, é o próprio cast do livro que sai em protesto por um texto decente, uma história convincente, alguma coisa com começo, meio e fim. Eles reclamam – mesmo os que ainda não foram escritos – dessa marmelada existencialista. No caso, a minha e a sua. Chega exacerbações sobre o próprio umbigo, monólogos internos intermináveis e desespero de araque. Cadê a paisagem? Onde está a história? Que merda é essa?

Os personagens querem um livro de verdade, cansaram de discursar sobre suas mazelas. Os bons diálogos sumiram. Uma candidata a Capitu, cheia de ambiguidades, toma a palavra: o cara se diz escritor e não põe em cena um mísero travessão em que o povo que está nos parágrafos possa escorar suas falas, dizer a que veio, conversar uns com os outros. Estão soltos ou sozinhos. Não há romance ou novela, mas um emaranhado de croniquetas que forma um universo duvidoso. Depois, a meleca é editada e, mais grave, impressa. Até blogs viram pastiches de romances, quando não passam de coletâneas de trivialidades, exibicionismo barato, listinhas de frases de efeito para deleite de amigos condescendentes.

Unido ao crítico acadêmico, os personagens desancam os escritores de fim de semana – apontando o dedo para o autor destes 2.817 caracteres e para outros da mesma natureza: “vocês trocaram Machado pelo twitter e estão condenados”, argumentam, cheios até a borda do lixo reciclado nas madrugadas. “Querem dizer tudo em quatro parágrafos, mas não fazem literatura; fazem posts. Não contam histórias; exageram a vida real, como se bebedeiras presentes e passadas fossem do interesse geral”.

Estivesse vivo, Graciliano vomitaria nas calçadas de Palmeira dos Indios ao ler a produção literária dessa galera. Das gentes que lançam um livro uma vez por mês, dos escriturários das redes sociais, dos jornalistas cansados e de seus textos escritos à base de maconha, informações do Google e de pedaços da vida alheia. Tudo por uma vaguinha nas centenas de bienais do País, nos concursos literários patrocinados pelo dinheiro público e nos workshops pagos. Não vendem quase nada e por motivos inexplicáveis, continuam a escrever. E tem mais: saem por ai ensinando como se escreve.

“Viver não é isso”, a revolta dos personagens, certamente é uma faca contra o próprio peito. Aquela história de produzir o romance de sua geração passou batida e, sob vaias, continuamos em busca de entendimento com os insurgentes. Chamamos para um acordo. Não tem jeito. Voltamos ao delírio de sempre. Os personagens seguem seu rumo, em busca de romance e aventura.

Lula Falcão

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