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Ele nasceu em berço de ouro. Não que fosse milionário, mas a família tinha grana. O pai dele era daqueles caras que sabia ganhar dinheiro. Via negócio em tudo quanto era canto, mas era honesto com todo mundo. Até demais.

Ela era de família pobre. Perdeu o pai quando era muito pequena, aos três anos, sem nem conhecê-lo direito. Ele morreu afogado quando nadava no rio. A mãe dela teve que se virar pra criar os filhos sozinha. Daquelas famílias onde os bifes eram contados. Um pra cada um, quando tinha. Nunca passou necessidade, mas teve que trabalhar cedo pra ajudar.

Eles moravam numa cidade pequena, daquelas que todo mundo se conhece. Ele era um dos playboys da cidade. Ela era conhecida por ter uma irmã gêmea. E como eram bonitas as gêmeas!

A mãe dele era professora de português e francês. Praticamente a rainha da Inglaterra quando o assunto era formalidade. A mãe dela fugiu de casa pra casar com o marido, que era caminhoneiro. Só estudou até a quinta série, mas se gabava de fazer todas as contas de cabeça rapidamente. Tinha que costurar pra fora pra sustentar a família. Eram cinco filhos, afinal. E só o mais velho era homem.

Conheceram-se ainda bem jovens, mas só vieram a namorar mais tarde. Ele saiu pra fazer faculdade fora. Engenharia Civil. Combinava bem com ele. Ele era daqueles caras que construía as coisas do zero, começando do chão.

Ela acabou ficando, mas o namoro continuou firme. Trabalhou muito e também fez faculdade. De Serviço Social, vejam vocês. Nada mais justo, já que se tem uma coisa que ela sempre soube fazer como ninguém, essa coisa é ajudar os outros. Ela sempre foi dessas que parava o que estava fazendo pra ir resolver o problema dos outros. Já nasceu assistente social.

Embora em cidades diferentes, eles se viam sempre que dava. Ele tinha carro do ano, dado pelo pai, é claro. Voltava para vê-la quase todos os fins de semana. Morando em cidades diferentes, certamente que o relacionamento dos dois teve lá seus períodos difíceis, mas nada que não tenha sido contornado.

Casaram-se depois de formados. Mas as coisas não foram fáceis pra eles. Numa dessas coisas que acontece, a família dele havia “quebrado” enquanto ele estava na faculdade. A vida de playboy tinha acabado e ele ia ter que se virar sozinho. Mas agora ele estava com ela do lado. Eles iam se virar juntos. Pois bem, nem voltaram depois da lua de mel. Mudaram-se direto pra outra cidade, pra começar uma nova vida.

O começo foi difícil. Ele até tinha um emprego bom, mas a construção civil estava em péssima situação naquela época. Ela trabalhou em algumas empresas. A grana era curta. Eles nem podiam ir visitar os pais com o carrinho deles porque a grana da gasolina e dos pedágios ia pesar no fim do mês. Só se mais alguém fosse junto pra rachar as despesas e olhe lá.

Um ano depois de casados, ele passou num concurso público bacana. As coisas começaram a melhorar. Ele subiu rápido. Teve até que deixar a barba crescer pra parecer mais velho e obter o respeito dos colegas com mais tempo de casa. Ela continuou trabalhando até ficar grávida. Grávida? Pois é. Talvez não fosse o momento, mas o fato é que o primeiro filho veio. Um menino. Diz um primo dele, presente no dia do nascimento, que foi ali que ele virou homem.

Passados mais três anos, mais uma gravidez. Dessa vez, uma menina. A essa altura do campeonato, as coisas estavam um pouco melhores. Ele estava bem no emprego e até um apartamento eles compraram. Ela até pôde ficar sem trabalhar entre um filho e outro pra cuidar da família. Não que estivesse sobrando grana, mas aquele sufoco inicial já havia passado. Evidentemente que sendo do jeito que ela era, voltou a trabalhar depois da segunda gravidez. Dizem por aí que foi melhor assim, já que ninguém a agüentaria em casa com toda aquela energia.

As coisas melhoraram com o tempo. Passaram por períodos difíceis no casamento. Mas que casal que não os teve? Superaram todos e é isso que importa. Sempre deram tudo o que puderam para os filhos, principalmente caráter.

Os filhos, aliás, cresceram.

E eles envelheceram.

E como todas as pessoas que envelhecem, desenvolveram manias. E mania de velho ninguém tira. Ela gosta de uma arrumação como ninguém. E repete tudo uma porção de vezes. Ele tem mania de estar certo. Em TU-DO. E fala pelos cotovelos. Conversar com ele significa sentar e ouvir. Antes de dormir, confere se a porta da frente está trancada pelo menos cinco vezes.

Quem vê de longe, até acha os dois engraçados. Quem convive de perto, pode se irritar. Dá até pra dizer que ficaram chatos.

Meu Deus, como são chatos esses dois!

São chatos, mas eu não os troco por nada nesse mundo.

Eles são e vão continuar sendo as melhores pessoas que eu conheço.

Pai. Mãe. Obrigado

Não sou rico. Nunca fui. Sempre tive, todavia, uma boa condição financeira ao longo da vida, graças aos meus pais. Estudei em bons colégios. Comecei e terminei duas faculdades. Uma pública, na qual só entrei porque meus pais puderam pagar bons colégios, e uma privada, a qual pude cursar porque eles podiam arcar com a (cara) mensalidade. Tive a chance de ir várias vezes para o exterior. Cheguei inclusive a morar fora do país por um tempo. Ganhei carro quando fiz 18 anos. Moro em um apartamento legal e sempre tive mais do que eu precisava para ter uma vida bacana. Tudo isso, obviamente, porque meus pais ralaram muito.

Em resumo, sou apenas mais um cara da classe média paulistana. Em nenhum momento da vida, entretanto, disseram que eu tinha o direito de ser babaca. Aliás, fui ensinado justamente o oposto, mas parece que a “gloriosa” classe média brasileira perdeu essa aula. Antes de tratar dela, porém, uma breve e despretensiosa aula de história.

Por si só, a classe média é deveras contraditória desde a origem. Historicamente, o que é a classe média senão uma parte da burguesia que simplesmente não tem “bala” suficiente? Assim, como parte da burguesia, é natural que ela se veja mais “próxima” dos ricos do que das classes mais baixas e que, ainda, não se considere parte da “massa de manobra”. É justamente aí que o caldo começa a engrossar.

Vejam, dentro de um sistema capitalista, é evidente que a classe dominante é aquela que detém o capital. Nesse caso, a burguesia. Como classe dominante, é justamente da burguesia que emana todo o sistema ideológico que sustenta a sociedade atual. Isso é sociologia básica e não está aberto a discussões. Pois bem, o conjunto de idéias que forma “uma ideologia” precisa de um meio de propagação que consiga ecoar essas idéias o suficiente para que todas as pessoas tomem conhecimento e, mais além, adotem-nas como dogmas. É aqui, meus amigos, que começamos a nos deparar com a instrumentalidade da classe média.

É a “linda” da classe média que reproduz toda a ideologia dominante de uma sociedade. Por se ver mais próxima das classes dominantes do que das dominadas, a reprodução das idéias ocorre sem o menor questionamento. A idéia de que o trabalho dignifica o homem, por exemplo, nada mais é do que uma forma de expressão da ideologia burguesa cujo principal intuito é justamente fazer com que a massa se disponha a trabalhar incessantemente para os detentores dos meios de produção pois, é claro, homens dignos são aqueles que trabalham (E eu não vou nem entrar no mérito do que é ou não é trabalho). A classe média, idiota, apenas reproduz o conceito, na idéia de que ele seja destinado às classes mais baixas. É evidente que isso está errado. O conceito faz parte da ideologia de uma classe dominante que utiliza a classe média como simples instrumento de reprodução e, conseqüentemente, de dominação.

E aí você está se perguntando: por que raios esse moleque petulante está falando da origem classe média? Respondo: Porque só assim pra entender o quanto nós (sim, estamos todos juntos) somos babacas.

Tendo sempre como base tudo isso que eu já falei acima, não tenho como não ficar assustado com o comportamento da classe média brasileira. Eu não sei se sempre foi assim e eu que só comecei a reparar agora ou se agora que tudo ficou mais intenso, mas o fato é que esse comportamento me choca. Tá, eu sei que não deveria ficar assustado com o comportamento de gente que tem Rafinha Bastos, Danilo Gentili e o povo do CQC como exemplos de “humor” “inteligente” (assim mesmo, com aspas nas duas palavras), mas ainda assim é um pouco chocante. Sério, quando eu olho pro Brasil, fico com a impressão de que ser babaca tá na moda e como tudo que é moda, lá está a querida CM (vou chamar de CM pra não ficar repetitivo) pra adotar e reproduzir.

Mas o problema é maior do que uma simples “moda” de humor ruim. Pior, tem gente realmente dirigindo insultos e imbecilidades aos mais diversos grupos sociais pelo simples fato de que essas se entenderem como diferentes, superiores e investidos por sei-lá-quem (deus?) do direito a ofender e proferir baboseiras quando bem entenderem.

Vocês sabem do tipo de pessoa que eu estou falando. Reparem, meus amigos. Esse povo é todo igual. Acham tudo que vem de fora o máximo e tudo que é daqui, uma merda, é claro. Pra eles, bom mesmo é ir pra Nova York ou Paris gastar as economias pra vir pra cá esfregar na cara dos outros. Ao menor sinal de problema, já partem logo para o clichê “nada nesse país funciona”. É gente que usa frases como “eu tô pagando” como justificativa pra tratar garçons, faxineiras, frentistas e vendedores, entre outros, como cachorros. Gente que acha qualquer programa governamental voltado para as classes mais pobres não passa de uma iniciativa paternalista barata do Estado cujo único intuito é comprar votos. Gente que faz comentários do tipo “isso é coisa de pobre”, como se ser pobre fosse uma ofensa. É gente que acha um absurdo uma eleição presidencial ter sido decidida pelos votos dos nordestinos, como se eles fossem menos, por qualquer razão imbecil que a pessoa tenha (Newsflash: Eles são iguais a você e a mim, e o resultado da eleição teria sido o mesmo sem os votos do nordeste). Enfim, vocês sabem de quem eu tô falando e possivelmente têm alguns desses babacas por perto, principalmente se você vive no sudeste ou sul do país.

E o pior é que agora com twitter, facebook, redes sociais e o caralho esse povo tá achando palanque pra falar besteira e não tá se fodendo de acordo. Tá bom, teve a menina lá que falou merda de nordestino lá e teve a vida devassada, mas ela é um caso só. Fico assustado com o tanto de gente que eu vejo tendo o mesmo tipo de atitude. Querem fazer um teste agora? Abram uma pesquisa com a palavra “nordestino” no twitter. Vejam o que aparece. Viram? Pois é.

Pra terminar: Classe Média, sua linda. Por que você tem que ser tão escrota? Você é só mais uma parte da massa que se acha melhorzinha. Eu sei que é difícil não ser rico em um país como o Brasil, mas não me venha com esse papo de que você sofre. Tem muita gente que sofre muito mais do que você. Aliás, sofre inclusive porque você se comporta como uma filha da puta. Agir em prol da manutenção da estrutura social do país (leia-se: foda-se quem é pobre) não é bacana e você não entende isso. Falar o que pensa e, ainda que isso ofenda um montão de gente, não tá na moda. Ser babaca não tá na moda e você não entendeu isso porque é burra.


“Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.”
Trecho de “Adiamento”, de ÁLVARO DE CAMPOS

Eu deveria ter sido engenheiro. Meu pai é engenheiro e a vida toda eu dizia que seria engenheiro. Até que chegou o último ano do ensino médio. Aí eu não queria mais ser engenheiro. Dezessete anos de planos, quase dezoito, pra chegar em cima da hora e não saber o que fazer da vida. Vejam vocês, acabei fazendo direito e depois cinema (!?). Ninguém cria um filho pra ser cineasta, né?

Até então, sempre fui uma pessoa cheia de planos e aspirações, absolutamente avessa a idéia de não saber o que fazer da minha vida. Ainda me lembro da sensação de pânico no colegial, quando via todos os meus amigos decididos em suas opções de carreira e eu sem saber o que fazer. Decidi prestar direito só quando preenchi a ficha do vestibular. Como se sabe, eu errei na opção de carreira, mas acertei pro resto da vida.

Olho pra trás e um sorriso faz menção de aparecer. De fato, essa mudança toda não deixa de ser engraçada. Sempre fui meio certinho, meio “coxinha”. Gostava de fazer as coisas by the book. Aliás, seguir instruções era uma das coisas que eu mais sabia fazer. Dez anos depois, sabe-se lá porque, eu odeio tudo isso. Simplesmente me recuso a enxergar a vida como se ela fosse uma previsão de custos, feita numa planilha de Excel. Não gosto. Não quero. Não vou.

Por que estou falando tudo isso? Porque as coisas mudam, as pessoas mudam (sim!) e hoje em dia planos não fazem mais parte da minha vida. Acho gente que planeja demais um pouco tacanha. Planos só servem para ser desfeitos e são apenas uma forma de se adiar o presente. A idéia de olhar pra frente e ver meu destino traçado me incomoda de um tanto que eu não sei nem explicar. Tenho ojeriza a qualquer coisa marcada mais que três dias pra frente na minha agenda.

Sonhos? Tenho todos. Planos, entretanto, não tenho nenhum.

Acreditem em mim, a indefinição é deveras sedutora. Não saber o que se vai estar fazendo daqui dois dias, duas semanas ou dois anos vicia. A idéia de que a vida pode mudar abruptamente do dia para a noite é a única coisa que me move. Não tenho a menor intenção de saber o amanhã. Até prefiro, pra ser bem sincero.
Peguei gosto pelo inesperado. O improviso é meu modo de vida. Me adapto como poucos a qualquer tipo de situação, e aprecio com um sorriso no rosto as curvas “cegas” que a vida coloca no meu caminho.

Passado e futuro não existem. O que existe é apenas o agora. É aqui que a gente faz o futuro. A vida está acontecendo aqui no presente e ela é muito mais simples do que parece. Pra puta que pariu com planos idiotas. Eu construo minha vida aqui, no chão firme do agora, e sem pensar demais.

Não.

Não vou olhar pra frente. Vou tocar minha vida como se o amanhã não existisse.

E ele não existe.

Nota da editora: O Guilherme, é tão foda, mas tão foda, que eu desisti de tentar seduzir ele. Tenho caminhão pra esse tanto de areia ( leia bibida) não.

Quem já passou aqui pelo Malvadezas deve saber que a responsável por juntar esse povo todo aqui é Carolina Mendes. Sim, a menina dos mil blogs resolveu abrir mais um blog, dessa vez pra publicar textos de outras pessoas que ela achou sabe-se lá como. Quem acompanha o meu Twitter, ou o dela, sabe que Carolina é muito minha amiga, dessas que a gente acha no Twitter e na primeira sentada pra tomar cerveja parece que já nos conhecemos há 15 anos.

Por que eu estou falando tudo isso? Porque até agora eu ainda não descobri a razão pela qual Carolina me chamou para escrever aqui. Veja, eu não estou aqui dizendo que não sei se tenho capacidade pra manter o (alto) nível dos meus colegas de blog, nem que Carolina me chamou apenas porque sou amigo dela. Também, não estou aqui duvidando da minha capacidade e muito menos estou falando isso porque quero confete. Apenas estou dizendo que nossa gloriosa editora não tinha indicação nenhuma de que eu serviria pra esse tipo de coisa. Tá, tudo bem que eu sou daqueles tipos com humor ácido, que não perde nenhuma piada e que é ótimo fingir que é super inteligente perto dos outros. Mas nunca fui do tipo que perde horas escrevendo, nunca fui blogueiro, apesar de ser formado em direito e cinema, nunca fui chegado em sentar pra escrever
roteiros e, tirando alguns textos sobre MMA, a maioria em inglês, ainda por cima, não há muitas linhas disponíveis por aí para que Carolina conhecesse meu texto. Assim, não posso deixar de achar que Carolina me chamou baseada não só na amizade que temos, mas também em uma boa parte de instinto.

Pois bem, cá estou. Folha em branco me olhando na cara e eu aqui pensando porque raios eu aceitei o convite. A bem da verdade, até agora não pensei nisso. Aceitei o convite em meio a um dia lotado de trabalho e achei que Carolina esqueceria. E aí eu recebi o convite por email. Agora estou aqui, pensando sobre o que escrever.

Para ser honesto, já tive pelo menos umas dez idéias, todas com algum potencial. Como sempre acontece com meus textos, escolho um tema e começo a organizar as idéias na minha cabeça. Em alguns minutos já tenho um esqueleto do que quero escrever, separado exatamente daquele jeito que aprendemos nas aulas de redação na escola: introdução, desenvolvimento e conclusão. Quando preciso, faço alguma nota rápida em um pedaço de papel próximo para que eu não esqueça de algo importante para o texto. Aliás, esse é um dos problemas do meu texto. Acho-o muito acadêmico, talvez por herança dos tempos de faculdade de direito.

Dessa vez, todavia, o processo está sendo bem diferente. A proposta do Malvadezas é diferente. Arranjei um motivo para desistir de todos os temas que eu pensei até agora. Bastava sentar em frente ao computador para que eu inventasse algum pretexto para não escrever. Ora por causa do trabalho, ora por causa de qualquer jogo que estivesse passando na TV, ora para comer algo. Fato é que eu desisti de todos os temas antes mesmo de começar.

Este tema não serve. Muito clichê. Aquele outro, também não. O pessoal vai me achar babaca (e com razão). Porra! Sobre o que caralhos eu vou escrever? Escrever sempre foi tão fácil pra mim, mas sempre sob demanda. Nego me dá um tema, eu vou, pesquiso e escrevo. Sem crise. Quer dizer, deveria ser assim, mas não está sendo.

O processo de ter uma idéia, organizar o tema na cabeça e desistir na sequência começou a se tornar incômodo. Natural, então, que eu começasse a investigar as razões desse processo. E a conclusão não foi das mais agradáveis.

Para quem não me conhece, eu sempre fui tido como um cara que faz e fala o que quer, sem muita preocupação com o que os outros vão pensar. Oras, eu sou um cara que trocou um futuro certo (como advogado) por um absolutamente incerto (como produtor de cinema) e nunca nem parei pra pensar “What if?”. Muita gente me acha louco até hoje por isso, mas eu nunca me importei com isso, ou pelo menos achava que
não me importava. É esse o tipo de pessoa que eu sempre acreditei ser.

Acontece que a proposta de escrever livremente sobre qualquer tema de minha escolha me colocou diante de uma situação nova. Pela primeira vez na vida, terei de me expor para pessoas que não conheço e, pior, para pessoas que conheço muitíssimo bem. Sim, escrever abertamente implica em revelar algumas coisas que, particularmente, preferia guardar só pra mim.

Apesar de ser um cara bastante extrovertido e de fácil diálogo, é fato que ao longo dos anos acabei construindo um personagem de mim mesmo, que protege e guarda todos os meus medos e inseguranças. No fundo, sou uma das pessoas mais fechadas de que tenho notícia. Escrever abertamente sobre quaisquer temas significa mostrar um lado meu que até hoje eu preferi manter escondido, por medo.

Então, para que fique claro, vou dizer com todas as letras: tenho medo do que vocês vão pensar quando estiverem lendo essas linhas. Eu tenho medo que vocês me achem um babaca e, sim, tenho medo de não estar a altura dos meus colegas de Malvadezas. Todos eles já foram publicados pelo menos uma vez e eu acho todos melhores do que eu. Toda essa insegurança me incomoda pra caralho. Gosto de ter a sensação de que estou no controle da situação, mas a partir do momento em que esse texto entrar no ar, a última coisa que eu vou ter é controle.

Mas quer saber? Eu aceitei escrever aqui e agora não tem mais volta. Como aprendi com meu pai, vou fazer isso aqui e não vou olhar pra trás. O processo de conhecimento será muito mais meu do que de vocês, leitores. Acreditem quando eu digo que cada palavra que eu publicar aqui será fruto de uma vitória minha contra minha própria insegurança.

Porra! Acabei de reler tudo. Continuo achando que está uma merda. Mas quer saber? Foda-se. Estou fazendo isso por mim e não por vocês.

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