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O menino entrou correndo no vagão do metrô na estação Tribunal de Madrid chamando a mãe que vinha logo atrás, mas a porta entre ambos se fechou. Ele ainda gritou em vão “No! No! Por favor!” enquanto se jogava em direção ao botão amarelo que poderia impedir a separação. Não adiantou. O cordão umbilical estava cortado.

Em pânico e envergonhado diante de tanta gente que o observava, ele sentou, baixou lentamente a cabeça, cerrou as mãos e, tentado ser forte, engoliu o choro. Enquanto alguns passageiros tentavam acalmá-lo sem nenhum sucesso, falando todos ao mesmo tempo e o deixando ainda mais nervoso, um rapaz se aproximou. Ajoelhou, disse seu nome, colocou a mão no ombro do menino, explicou que era preciso descer na próxima estação e que ele seria sua companhia até o reencontro com sua mãe, que certamente faria o mesmo trajeto.

Ainda sem conseguir falar, o menino então levantou, segurou na mão do desconhecido e ficou bem próximo da porta, já esperando ela abrir. Ainda tremendo, era tudo o que ele precisava naquele momento, alguém tranquilo e que lhe desse a segurança essencial durante um episódio assustador para uma criança de oito ou nove anos.

Eu queria muito ter sido esse rapaz que ajudou o menino. Ainda hoje imagino o abraço entre mãe e filho, mas não consegui fazer nada. Fiquei lá, estático, numa espécie de transe, lembrando de quando a porta se fechou comigo sozinho no metrô de São Paulo e meu pai desapareceu na plataforma.

Eram 13:09h de uma sexta-feira qualquer quando resolvi sair de casa com destino ao endereço de uma livraria em Fortaleza, lugar que considero um oásis. Do meu prédio até lá, caminhando, são cerca de dois quilômetros e foi assim que decidir ir. Logo que viro a esquina, meu telefone toca. Do outro lado, um amigo jornalista. A conversa, bastante importante, continuava normalmente quando fui interrompido por um senhor de cerca de 60 anos de idade que, apesar de reparar claramente que eu estava ocupado, insistiu em dizer, de forma autoritária, que eu deveria proteger e falar mais do time que ele torcia durante meus comentários na TV. Ainda com a lata de cerveja na mão, ele seguiu seu caminho, bradando alguma reclamação, cambaleando. Segui em frente, para o lado oposto.

Andar pelas ruas secundárias do Meireles é sempre agradável. As árvores provocam sombras essenciais e a tática é fugir das grandes avenidas. Não falta a brisa, ainda mais com as temperaturas mais amenas no inverno do Nordeste. É verdade que as calçadas não são muito convidativas e faixas de pedestres quase não existem, o que faz o aventureiro precisar de atenção especial. A caminhada perdeu um pouco de sua ludicidade quando um rapaz muito sujo, encostado no muro. não teve nem forças para pedir esmola. Piorou quando uma criança com o metade do corpo escondido sob um carro fumava crack, numa viagem particular, provavelmente sem volta. Mais pra frente, um guardador de carro ouvia Bob Marley no seu surrado radinho e o balançar concentrado da cabeça indicava uma outra viagem, mas desta vez com hora para acabar.

Parei para almoçar, comida caseira. Segui.

Na livraria, anotações editadas do filósofo André Comte Sponville me esperavam. O livro, reservado, estava muito bem guardado, mas a gentileza dos funcionários estava escancarada. Aproveitei e comprei uma edição da aloprada revista MAD, coisa que não fazia desde o final década de 1980. Uma avalanche de lembranças apareceu daquela época, mas fui interrompido por um assíduo telespectador da TV O POVO, que sempre manda gentis emails para o ÉGOL.

Em lugar de destaque na prateleira central, uma gibi da Turma da Mônica prometia na capa que o Cebolinha era o novo dono da rua. Mesmo sabendo que isso nunca vai acontecer, comprei, afinal, a vida é também feita de esperanças e teimosias, mesmo as mais improváveis.

Ao lado, a revista Vida Simples fazia uma pergunta de resposta complicada: “Por que toleramos ou ficamos calados diante de algo que nos desagrada? Foi para a sacola, para dar de presente a quem está precisando entender a questão.

Nos dois quilômetros da volta para casa, passei a reparar em prédios residenciais e comerciais que nunca tinha visto, apesar de estar no bairro desde 2001, coisas de um passeio em outra perspectiva, de fora do carro. E a bonita arquitetura moderna do Meireles continua recebendo muitos novos prédios e a queda de material é sempre um risco exposto nas placas nas calçadas.

O menino do crack não estava mais no carro, mas não foi difícil encontrar outro alguns minutos depois. A situação é grave e cegar propositalmente é a escolha de muitos. O guardador de carros agora ouvia Axé e o capítulo da novela era o destaque da locutora preferida do porteiro do prédio amarelo.

Desviar do cocô dos cachorros também fez parte da caminhada, situação tradicional. É feio demais constatar que os seres humanos ditos pensantes são mais porcos do que os bichos, com todo respeito aos porcos e aos bichos. Lixo espalhado também não faltou, responsabilidade de quem atira objetos na rua e também de quem não coloca as necessárias lixeiras.

Já perto do portão de casa , olho o mar (as vezes esqueço que ele está tão perto) e o relógio marcava 14:39h, curiosos 90 minutos, o tempo regulamentar de uma partida de futebol, coisa que não vai faltar neste fim de semana. Ainda bem.

Eu era menino e o dia era um sábado à noite qualquer no início da década de 80. Estávamos na sala de TV, no apartamento da Alameda Santos, ainda com piso de tacos e azulejos azuis no banheiro, quando meu pai resolveu me revelar, depois de algumas tentativas frustradas, que as lutas do programa “Gigantes do Ringue” eram armadas. Meu mundo caiu de uma vez só, nocaute, tudo ficou escuro.

Fiquei inconformado. Mais do que isso, a revolta tomou conta de mim. Como é que não existiam os bons e os maus? Então tudo era de mentira e eu estava sendo enganado faz um tempão? Os golpes eram combinados, os personagens anedóticos e vencedores pré-determinados? Até aquele careca baixinho com cavanhaque, que quebrava a cadeira nas costas dos bonzinhos, não era o pior elemento da humanidade? Não era possível. E ele resolveu me contar isso por qual motivo? Já não bastava ter confirmado aquela coisa do Papai Noel? Fui embora, deixei ele lá, falando sozinho.

Revendo o filme “O Lutador” (The Wrestler, 2007) nesta semana, essas lembranças voltaram com muita força. É a história da vida de Randy “Ram” Robinson, participante de espetáculos de luta livre nos Estados Unidos, intrepretado de forma soberba por um desfigurado e assustador Mickey Rourke, trabalho que lhe valeu alguns prêmios, incluindo o Globo de Ouro como melhor ator dramático e a indicação ao Oscar.

A história é comovente, tem uma trilha sonora inesquecível – Bruce Springsteen comanda – e a direção brilhate de Darren Aronofs, do obrigatório “Requiem para um Sonho”. O drama provoca lágrimas, mas as que caíram no meu rosto estavam também carregadas de saudade e arrependimento por não poder voltar atrás de jeito nenhum e naquela sala de TV agradecer ao meu pai pelo carinho das palavras necessárias, deitar no seu colo e simplesmente ouvir o que ele tinha a me dizer.

Da África do Sul e de um cara muito gente boa, o Adrian. Ele dirigia um táxi na cidade de Durban, onde estive para acompanhar a semifinal da Copa do Mundo de 2010 entre Alemanha e Espanha (jogaço). O carro, bem arrumadinho, não era dele e seu salário se formava das comissões das corridas. “Perdi meu emprego e precisei me virar aqui”. Aos 46 anos, Adrian, filho de mãe sul-africana e pai húngaro, foi uma das pessoas mais gentis entre tantas que tive a chance de conhecer nos mais de 40 dias de viagem por um país obrigatório. “Pode me chamar de Adriano se você quiser, porque aí fica em português”. Não, eu não fiz isso.

Nosso primeiro destino era a mesquita Jumah Masjid. Desde o jogo do Brasil contra Portugal na primeira fase da Copa que eu gostaria de tê-la visitado, mas a correria insana impediu. De acordo com os moradores de Durban, é a maior mesquita do Hemisfério Sul. Duas mil pessoas por dia vão rezar ali. São brancos, negros, indianos (eles são mais de um milhão na cidade e construíram o prédio), sul-africanos e outros estrangeiros convertidos. Ao entrar, uma paz instantânea vira companheira. O silêncio e a beleza não combinam com o movimento intenso de cidade enorme do lado de fora. Um contraste inesquecivel.

Distante poucos metros da Jumah, Adrian me mostra a centenária Catedral Emmanuel, a maior igreja católica da cidade, construída com tijolo aparente. Enquanto a conheçia, ele desceu do carro para uma oração. Era bonita a sua genuína fé. Depois fomos visitar outros dois templos próximos. O hinduísta Alayam Temple, dedicado ao deus Shiva e uma igreja anglicana. Durban foi mesmo um dos lugares mais especiais que conheci. “Todo mundo aqui tem profundo respeito por todas as religiões e a convivência é totalmente pacífica”, me contou o Adrian, nascido no Soweto, em Joanesburgo, distante mais de 600 quilômetros de Durban. “Vi muita coisa ruim e desesperadora acontecer lá”.

O destino muda. Era preciso atravessar toda a orla da cidade (linda, banhada pelo Índico) para ir ao luxuoso shopping Gateway. Caminho longo, tempo para mais uma lição. “Fernando (com um sotaque engraçado), você tem sorte de conhecer esse país agora, porque a situação era muito absurda. Meus pais, por exemplo, precisaram se casar na Suazilândia porque minha mãe era mestiça e não havia condição alguma de alguma cerimõnia ser realizada aqui entre pessoas de raças diferentes”.

Comento com ele da dificuldade de ver brancos e negros adultos conversando, mas que já é possível encontrar jovens em grupos multirraciais. “Sim, as crianças de agora já não enxergam tanta diferença e isso é maravilhoso. Meus filhos, por exemplo, têm amigos negros, mas eu te digo com toda certeza que o apartheid, apesar de não ser mais oficial, vai demorar para desaparecer simplesmente porque ele ainda está no coração das pessoas e quando está no coração demora muito para ir embora, se é que um dia vai”.

Entrei no shopping, fui almoçar. No restaurante, mais uma vez nada de negros conversando com brancos, cenário idêntico ao que vi nos corredores das lojas. Adrian, o motorista do Shashi`s Taxi, como um bom professor, estava certo. Ainda vai levar muito tempo.

Na frente do muro onde está pintado o anúncio da escola Comecinho do Saber, um menino ensina o outro a fumar crack.

Na entrada do banco, a espertinha com uniforme sujo da escola informa ao guarda que não tem problema passar na porta automática porque ela é criança e criança não tem arma.

No trânsito parado, o menino rasgado encosta o nariz imundo no vidro do carro e implora por comida.

Na loja de presentes, o choro alto da mini barbie traduz a reclamação contra a babá que ganha bem menos do que vale o galheteiro exposto na vitrine.

Por email, o aviso é da vontade do meu sobrinho, que agora só toma o caldo do feijão, porque das “pedrinhas” ele não gosta mais.

No campinho da favela, com plateia sentada na calçada, é jogo sério valendo pelo campeonato com bola quadrada de embalagem de todynho.

Na padaria, o sorriso pela metade por causa da chupeta.

Na reportagem da TV, a infância perdida pela agressão odiosa presa em algemas.

No elevador, o carinho tranquilizador da mãe que embala o sono do menino.

Na página da UOL, 66 crianças chinesas numa van onde cabem apenas oito.

Outro email, um release: “meu filho não mente…será? converse com a psicopedagoga”

Vou ler gibi.

Outro dia o Rodrigo Borges – sim, um dos malvadezas – escreveu no twitter a seguinte frase: “Não consigo deixar de pensar que homens que vivem em função de seus carros compensam alguma disfunção erétil”. Claro que o desabafo não visava o Tony Kanaan, o Fernando Alonso ou o Sebastian Vettel mas, sim, era um manifesto sóbrio de apenas 114 caracteres diante dos absurdos cometidos por quem não se cansa de mostrar a tremenda importância dos veículos em suas vidas.

Antes de prosseguir, quero deixar bem claro o seguinte: durante dois anos fui proprietário de um lava-jato (sim, eu sei, é lamentável, mas foi verdade, gostaria de esquecer, mas não consigo), período suficiente para defender uma tese de mestrado sobre vários assuntos, entre eles o colocado em pauta pelo Rodrigo.

Logo de cara, me lembro do Afonso. Seu ponto fraco era a entrega do carro no estabelecimento. O momento da separação era dramático para o sensível exemplar do “homem com disfunção erétil”. Estacionava com todo o cuidado do mundo e antes de deixar as chaves lamentava não poder ficar para acompanhar na íntegra a tão esperada limpeza. O Afonso, então, passava a fazer de forma séria e bastante ameaçadora um ritual de recomendações: era pra limpar ali, esfregar acolá, tomar cuidado com a roda, observar bem a tampa do porta-luvas, deixar o painel brilhando e, claro, não poderíamos esquecer de hidratar maravilhosamente bem os bancos de couro. Hidratar os bancos o caralho, eu pensava. Porra, o Afonso era do tipo que não sabia diferenciar se a mulher dele usava ou não hidratante corporal, mas queria o banco de couro do carro todo macio, sabe-se lá o motivo. Era questão de honra. Imagine se ele soubesse que a mulher dele comprava um creme hidradante extraordinário feito pelos experts em cuidados de pele da La Prairie? Minha nossa, era coisa pra deixar o cara maluco exigindo que a ela apenas usasse um de catálogo de quinta categoria ou, melhor ainda, um caseiro, feito de mel, clara de ovo e azeite.

O Gilberto também era figura carimbada. Quando ele chegava, era a alegria dos funcionários. Toda a semana a figura aparecia com o carro para ser polido. Não satisfeito, levava a própria cera importada da Nova Zelândia. Uma latinha era coisa de 150 reais. É ou não é uma bizarrice? Queria ver o Gilberto levando a esposa para o salão de beleza com um frasco de 250 ml do Alterna Ten, shampoo com extrato de cacau africano, complexo de controle de idade feito a partir do caviar, óleo de trufa branca, de semente da uva de Champagne, prímula da Bulgária, incenso da Arábia e o caralho a quatro. Nem ferrando.

A expectativa para ir buscar o carro também testa demais o nosso já simpático “homem com disfunção erétil”. O Jorge, por exemplo, exigia hora marcada sem qualquer tipo de atraso e, não satisfeito, enchia o saco, telefonando cinco vezes num período de 40 minutos (de oito em oito minutos, portanto) para saber se já estava tudo pronto. Um quase psicopata eventual, capaz de transar com o carro, nunca dentro dele.
O Olavo era foda. Sem porra nenhuma pra fazer (sem porra pra fazer, melhor dizendo), ele era a “mãe de miss” do lava-jato, um negócio impressionante. E sabe quais eram os carros dele na passarela? Um Ford Del Rey Guia 1989 com um adesivo enorme do Palmeiras no vidro traseiro e um Monza não me lembro o ano com marcador de velocidade digital e o símbolo da Audi grudado na tampa do porta-malas. Até pegar na mangueira de alta pressão do lavador ele pegava.

Agora, com pena eu ficava da Patrícia. Putz, a arquiteta. Escritório ali do lado, sempre bem vestida, deslumbrante, salto alto com habilidade para andar no terreno irregular, cheirosa e mal comida.”Deixem o carro muito bem limpinho porque se não meu marido fica uma fera”.

Nota do autor: os eventos aqui narrados são rigorosamente verdadeiros. Os nomes dos personagens foram trocados visando a óbvia preservação de suas identidades, ainda mais pelo ridículo da situação.

Tenho uma convicção: as melhores coisas da vida acontecem de improviso. Essa história de programar demais abre um espaço enorme para as coisas darem errado. E elas dão. Noivar, por exemplo, não é uma boa. Ou você namora, ou mora junto ou casa de uma vez. Tudo de ruim ocorre com os noivos. Desmanchar um namoro, sem problema, mas acabar um noivado é muito mais grave. Olha lá, ele não está mais noivo, coitado, nunca mais vai se recuperar. Um noivado nada mais é do que uma lenta expectativa de um casamento e como toda programação, tem uma chance enorme de dar merda. É melhor casar, ligação direta. Eu fiz assim, duas tecladas no chat da uol, direto para o casamento. Ser deixada no altar é algo gravíssimo, convenhamos. E apenas noivas são deixadas no altar. É muito mais traumático do que terminar um casamento. Tadinha, foi deixada no altar, é uma noiva abandonada, chancelada para todo o sempre.

O caso da feijoada no Passeio Público aqui em Fortaleza é sintomático. Porra, mas qual a relação entre feijoada e noivado? Íntima, eu diria. Sem nem saber da existência dela, estive lá pela primeira vez no dia 18 de junho deste ano. Fiquei encantado, coisa raríssima. Eram árvores que minimizavam os efeitos do sol e pessoas com astral leve ouvindo a música instrumental que tocava em tom adequado. A comida, deliciosa e cuidadosamente servida em imensas tigelas de barro, provocava uma fumaça divina. Fiz uma promessa, então: transformaria aquele lugar no meu culto semanal. Um culto pra chamar de meu. Prometer, entretanto, é programar e aí ferrou tudo. Logo no primeiro sábado seguinte, sinusite. No segundo, trabalho. No terceiro, almoço na casa do sogro. No quarto, sono até às 5 da tarde. No quinto, desatenção de quem me ama. No sexto, esqueci, mas deve ter sido mau humor. No sétimo, trabalho. No oitavo, viagem. Hoje, finalmente, estou aqui, notebook ligado, couve do lado, farinha no nariz. É o nono sábado, dia em que escrevo meu primeiro texto para o malvadezas, um convite de improviso e que, de repente, aceitei.

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