Arquivo

Aquivos por Autor:

Olha, antes de qualquer coisa, preciso deixar claro que nada do que eu vou dizer aqui é inspirado em alguém específico. Isso aqui é só um mashup de uma montanha de histórias que ouço todos os dias de amigas, conhecidas, amigas de amigas, amigas de amigas de amigas.

Não, querido, este texto não é sobre você. Sinto.

Só pra ilustrar, vamos voltar pro inicio dos anos 90. Quando eu tinha meus 13, 14 anos. Mesma idade do Fábio – o menino mais lindo do mundo! da minha rua.

Eu era a melhor amiga do irmão desse muso e um dia resolvi comentar que o achava bonito. Vejam bem: bonito, só. Pronto. Foi o que bastou pro comentário chegar aos ouvidos do tal do Fábio e para ele não falar mais comigo e começar a desfilar na minha frente com tooooodas as meninas do bairro.

Corta para: dias atuais, todas as mulheres do mundo, de qualquer idade.

Você, linda e adulta, com certeza já passou por algo parecido: no final de semana, bebeu um pouquinho a mais e acordou na cama de um colega de trabalho. Segunda-feira, já na fiRma, este mesmo moço, que sempre almoçou descompromissadamente no mesmo grupo que você, resolveu comer sozinho. Você o chama no Messenger, nada de mais, como sempre fez, e ele te trata como se estivesse recebendo a declaração de amor mais descabida. Todo tenso.

Ou:

Um belo dia, a carência pega você e um amigo de longa data e vocês acabam a noite juntos. No dia seguinte, cadê aquela amizade tão linda? Moço não sabe mais o que fazer com você. E um simples convite pra uma festa no próximo final de semana mais se parece um pedido de casamento a partir de então. Climão define.

Desculpa, gato. Eu não te amo.

Deixa a tia explicar uma coisinha pra você. Não leve tão a sério esse papo de “Mulheres não sabem separar sexo de amor”. Não superestime minha carência, nem meu romantismo, muito menos minha inteligência. Entenda: existem amores e amores. Sexos e sexos. E, principalmente, circunstancias e circunstancias. Tudo depende de um mínimo de sensibilidade para discernir.

Calma. Ta tudo bem. Ta tudo igual, na verdade.

Inclusive tudo igual a quando tínhamos… 13, 14 anos de idade. Na falta de naturalidade, de leveza, de tato. Na inexperiência, na imaturidade. Em todo esse exagero. E na falta de culhões, porque não?

Pode parecer absurdo, inimaginável, mas você não está partindo meu coração. Não estou morrendo, nem tentando te cercar por todos os lados. E se for o caso de você ter namorada e cometeu um deslize, entenda que existe uma enorme possibilidade de nem se passar pela minha cabeça destruir seu relacionamento e te roubar pra mim. Louco, né?

Acredite; surreal como enredo de ficção científica: eu não te amo.

Seguimos de onde estávamos antes desse erro no percurso, que tal? Não precisa fingir que nada aconteceu, mas também não aja como se um fato tão fora do contexto tivesse comprometido todo o nosso futuro. Eu não sou uma donzela, nem você meu príncipe. Relaxa.

Repito: este texto aqui não foi escrito pensando em você. Não. Nem em você aí. Muito menos em você aí olhando pra tela do computador com a sobrancelha levantada. Não. Na verdade, muito provavelmente, eu nem me lembro mais da maior parte dos que vestirão a carapuça destas palavras.

Mas não adianta repetir. You’re so vain…

26 de Dezembro de 2012. Esses diazinhos bobos entre o Natal e o Réveillon. Não sou do tipo que canta vitória antes da hora, mas acho que já dá pra falar sobre esse ano moribundo, né?

Bom, contrariando as previsões, o mundo não acabou. E um punhadinho de coisas bem boas aconteceram. Nada muito drástico, nem tão surpreendente assim, mas 2012 foi legal, vai…

Não mudei de emprego, continuo fazendo tudo o que fazia antes. A diferença é que o reconhecimento de tanta genialidade finalmente veio. Sou podre rica e cultuada por intelectuais daqueles bem esquisitões. Escolho só os projetos que me interessam muito, e mando à merda o primeiro que me enche o saco e volto pra casa.

Não que essa minha fortuna importe muito, já que namoro um grande astro do rock que me venera e satisfaz todos os meus caprichos. Me enche de presentes e é um Deus do sexo. O que mais eu posso querer?

Todos aqueles moços que partiram meu coração, agora sofrem. Descobriram que não podem mais viver sem mim e passam dias se humilhando implorando o meu perdão. Nenhuma mulher consegue me substituir, fazer o que? Triste isso. Não desejava mal a eles… (só um pouco)

Acordo todos os dias na hora que eu bem entender. Tenho tempo de sobra e posso calmamente tomar meu café da manhã assistindo meus bons seriados. Nutella, pizza, sorvete, Sucrilhos, Cheddar McMelt e pão-de-queijo, compõem a minha dieta, já que a idade, misteriosamente, transformou o meu corpo numa máquina que transforma carboidratos e açúcar em músculos. E vocês podem ver o resultado dessa mutação genética todos os dias na praia, correndo sensualmente pela areia fofa, de biquíni de lacinho.

Pois é. Continuo morando em São Paulo. Numa casa linda em frente a uma praia deserta, de mar azul e areia branquinha, próxima à Av. Paulista. A descoberta do teletransporte acabou com o trânsito. E magicamente não há violência, nem poluição.

A nova fórmula da Coca-Cola vermelha não engorda, deixa bêbado e sem ressaca. Uma nova vacina transforma toda TPM em cílios longos e curvados. Descobriram que Elvis realmente não morreu e tá até saindo em turnê do novo disco. Participações especiais do Lennon e Freddie Mercury, claro.

Uma lei recém aprovada obriga os animais de estimação morrerem só quando seus donos também se forem. Assim como estão proibidos os filhos baterem as botas antes dos pais.

É. O mundo mudou um pouco. Todos os amores são correspondidos. Todos os adolescentes são legais e calminhos. As agencias de turismo já vendem pacotes pra Lua!

Falando em turismo, vocês me dêem licença que eu tenho que ir. Vou viajar com meu namorado e todos os meus amigos. Pelo mundo, no meu boeing. Deixei cada um escolher um pais de destino. E em cada pais faremos uma grande festa e partiremos deixando muitas saudades.

Olha, a vida anda boa, viu?

Ai, ai… o ano ta acabando… meu desejo?

Que 2012 tenha sido tão bacana pra vocês, como foi pra mim. E que 2013, 2014 sejam melhores e melhores…

Caia de joelhos e agradeça aos céus, amiga!: Você desencalhou! Quem disse que não chegaria a sua vez? Anos na fila, comendo o pão que o diabo amassou e sendo comida, muitas vezes, pelo próprio.

Aleluia! Você mudou seu status no Facebook. Dog days are over! No more lonely nights! Tá tudo dominado!

E neste final de semana, vocês vão pela primeira vez viajar juntos. Casa de campo da família dele, só os dois! Avance 5 casas, sua linda!

Tá tudo indo muito bem. Não ponha tudo a perder agora. Calcule todos os seus movimentos. Não seja estranha. Que ele continue assim, te achando linda e perfeita.

Primeira viagem com um namorado novo é sempre esse pesadelo, essa tensão. E o medo de ser vista sem maquiagem? E o medo de dormir pesado demais e roncar ou babar? Toca acordar um pouquinho antes do moçoilo pra dar uma limpadinha na remela do olho, uma ajeitadinha no cabelo, se colocar numa posição sexy-natural-angelical e fingir que ainda ta dormindo. Assim.

Come pouco pra não parecer uma demônia da Tasmânia atacando o prato e muito cuidado com os alimentos que provocam gases. Porque, né? O maior medo nessas ocasiões é que ele descubra verdades terríveis a seu respeito, como… que você faz pum, por exemplo.

Péssimo, hein? Não, não queremos que ele pense isso de você!

Aliás, banheiro é um capitulo à parte quando o assunto é a primeira viagem do casal. Porque, seguindo o raciocínio, se ‘intimidade é uma merda’, para nós, mulheres, falta de intimidade é prisão de ventre.

Não que você se importasse com isso. Não. Poderia tranquilamente passar o resto da vida sem ir ao banheiro. O problema é: prisão de ventre = pança. E, pança, Vade Retro!

E como se adiantasse alguma coisa, num ato de desespero você manda um sms pra melhor amiga: “Não consigo fazer coco com esse cara aqui!”

E recebe um: “HAHAHAHAHAHAHA!” como resposta. Solidariedade, cadê?

Bom. Já no domingo, a grande chance. Ele se oferece para ir à padaria te comprar cigarros. Ufa!

O tempo é curto! Você tem que escolher apenas uma das urgências: número 2? Vasculhar as gavetas do moço em busca de evidencias sobre sei lá o que? Ou vistoriar o histórico do notebook dele que está lá ligadinho dando sopa? (sim, porque ficar sozinha no território do objeto da sua afeição, sempre desperta a Mata Hari adormecida em você…) Hein? Hein? Rápido! É preciso maximizar o tempo; arranca a gaveta do criado mudo e senta na privada com ela no colo! Isso! Dois coelhos com uma cajadada só.

Carregador de celular. Trident azul. Notas fiscais. Documentos. Moedas. Caixinha de óculos. Fones de ouvido. Não… nada de mais…

Corre! Joga um Bom-Ar no banheiro e bota a gaveta de volta no lugar!

Volta ao banheiro pra dar uma conferidinha e encontra a necessarie do moço aberta. Hummm… remédios! Melhor dar só aquela checadinha nas bulas. Só por desencargo. Afinal, vai que um dia vocês resolvem ter filhos, né? Sempre bom já saber de toda a verdade logo.

Não. Nada de mais…

Barulho de chave na fechadura! Corre! Senta no sofá e pega um livro. Isso! Agora além de serena você parecerá inteligente. Gênia!

Amorzinho pra lá, amorzinho pra cá. Tá acabando. Hora de voltar.

Coloca no carro um jazzinho pra impressionar, me esconde esses CDs da Beyonceé, pelo amor de Deus!

Já na porta de casa. Se despedem e a vitória é declarada: “Você é perfeita!”. Você sorri, dá um beijinho, e se afasta lenta e graciosamente pensando: “Me dá mais um mês, meu bem…”

Nota da autora: Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência.

“E se a gente dissesse pra eles que esta lama é medicinal?…” – fui eu sendo genial e marota, quando avistei um ônibus de turistas se aproximando do lago onde estava nadando com duas amigas que passavam férias comigo na Bahia. Há uns dois anos atrás. Fizemos. E foi a festa da lama! Turistas mineiros por todos os lados rolando no barro, esfregando nos braços, deitando de olhos fechados para melhor aproveitar os benefícios daquela… terra com água.

Céus, como nos divertimos! Até hoje, fico imaginado se aquele lago virou ponto de romaria, ou se realmente alguém se curou de algum reumatismo ou sei lá o que. E secretamente, torço para que sim.

Maldade? Jamais! Eu mesma teria acreditado! E mais; teria trazido potes de lama pra casa, teria arrastado minha velha avó até o tal lago baiano e teria convencido todos os meus amigos que aquela coisa mudou a minha vida. Porque, assim, eu acredito em tudo. Tudo. Tudotudotudo.

E é sobre isso que eu queria falar.

Numerologia, tarot, Feng Shui, vidas passadas, exorcismo, trevo de quatro folhas, benzedeira, roupa branca no reveillon, bola de cristal, fadas, almas gêmeas, Mãe Dinah, Loira do Banheiro, Saci Pererê… pode mandar!

Falou, eu acredito.

Adoro justificar tudo com astrologia, faço novena, promessa, dou três pulinhos pra São Longuinho… Eu sei que racionalmente isso tudo é muito absurdo, mas, pensa comigo. O mundo não seria muito mais legal se tudo isso acontecesse mesmo? Não seria?

É isso. O que me encanta, acho, é imaginar que tudo não se resume a só isso que podemos ver. Que há mágica, coisas obscuras que ninguém consegue explicar. Que nem tudo pode ser explicado e tudo pode realmente acontecer. Ingenuidade quase infantil, talvez. A rotina adulta é maçante demais, cheia de realidades chatas e simplificadas demais. Então, vida me parece mais interessante assim.

Agora, veja bem, meu bem. Acredito. Não significa que eu faça, ou que qualquer coisa dessas vá mudar radicalmente qualquer comportamento meu. Não levanto bandeira alguma, nem tento convencer ninguém de nada. Nem me prejudico ou prejudico alguém com as minhas crenças. Ouço, adoro, me animo toda, e segue a vida.

Ah… e se você não acredita, ao menos respeite. E pare de me dar explicações científicas pra tudo! E pare de me dizer que eu vou cair na mão de um esotérico-vigarista que vai roubar todo o meu dinheirinho! Não vai. Ta tudo bem.

“A fé não costuma faiá” … já cantava o Gil. Até agora não falhou. Nem vai falhar. Eu tenho o corpo fechado, sabe?

Tinham daquela intimidade que só mulheres têm. Duas amigas. Confidentes, cúmplices. Daquelas amizades que de tão intensa, funde duas pessoas até o ponto de torná-las fisicamente parecidas, homogêneas. Cabelos longos, corpos fortes, um certo atrevimento no olhar. Dividiam roupas, gostos, segredos, planos, alguns homens e o mesmo vermelho nos lábios. Compartilhavam daquela descrença, que só quem já viveu muito traz consigo. Um certo tédio, que horas parece um pedido de socorro.

Siamesas. Únicas.

E se você as tivesse encontrado naquela noite, não se esqueceria, jamais.

Dançavam loucas, pervertidas, incansáveis no meio da pista. Dançavam de olhos fechados e com os cabelos encharcados de suor colados no rosto, como se o mundo todo fosse acabar e disso dependesse sua sobrevivência. Volúpia. No meio do escuro e entre sofás de veludo, The Stooges embalava aquele transe: “Gimme danger, little stranger…”

Não precisavam de parceiros ou de aditivos. Alimentam-se de olhares. Olhos masculinos que depravam esse tipo de amizade. Nunca entenderão. Otários.

Gostavam de causar essas sensações, provocarem desejos e serem matéria para tantas fantasias.

Como numa desforra, provocavam. “… swear you gonna feel my hell…”

E tanto atiçaram, esfregaram e ensaiaram, que começaram a desejar. Coisas que meninas não deveriam sentir por meninas. Coisas que soam incestuosas, mas não se tem como fugir. Coisas que vem com uma força tão crescente, que logo se transformam em desespero e esmurram toda a razão.

Vontade de experimentar, de deixar.

“… and I heal your disease…”

Bom sentir o seu mesmo perfume, tão diferente em outra pele. Tocar o corpo que se tornou intimo de tanto que já foi visto nu. Bom conhecer as expectativas e as faltas que tantos homens não preenchiam. Bom saber como agradar e pela primeira vez trocar o diferente pelo igual.

Entregas assim não esperam. E foi assim, tão casual quanto furioso, que a noite se desenrolou. Já no canto do quarto, espremidas, ardendo, explorando, molhando e se deixando molhar. Interminável, até o dia invadir a vida, cinzento, devastador, silencioso. A ausência de palavras, que só quem é muito íntimo permite. Sem arrependimento, nem explicações, como tudo deveria ser sempre.

E riram como só amigas de verdade riem. E se despediram com o mesmo abraço de sempre. E se separaram como das outras vezes. Mas, naquele dia, se afastaram, cada uma sentindo ainda em seus dedos o cheiro da outra.

E você foi embora, de novo. Eu te mandei embora de novo. Mas, como nos nossos melhores dias, acompanhei com os olhos o seu carro até virar na pracinha. Como nos nossos melhores dias eu senti alivio, saudade, raiva de você. Queria que você fosse embora pra sempre. Queria que você voltasse.

Eu só quero continuar sendo um segredo, escondida aqui na minha caverna, protegida, salva, segura. Rindo alto, bebendo, me enchendo de amigos, roupas e maquiagem para disfarçar tantas coisas feias.

Te expulsei de novo, porque só você me conhece e sabe a droga que eu sou. Eu não sei encarar. Eu não sei pedir. Choro do nada. Eu não relaxo. Eu não durmo. Não faço minhas refeições à mesa. Eu fujo. Eu não confio. Me perco. Eu não me entrego. Minto. Eu jogo gente no lixo. Eu finjo que o mundo que te cerca me interessa muito, quando, na verdade, eu acho tudo uma grande merda.

E eu não quero mais que alguém que conheça tantos dos meus aleijões me abrace no meio da noite.

Há coisas que não se pede, nem se explica. Você acusa o meu silêncio, reivindica minha rendição. Mas sabe que eu grito muito mais aqui dentro desse meu oco, do que você no seu discurso redundante, virtuoso e dramático.

Não, você não é meu. E não, você não pode ficar.

Te mandei embora porque eu não sou covarde, mesmo que você chame coragem de paciência. Você fala em vazio, solidão, entrega. Sinto muito, mas cansou.

Eu amo desse jeito torto, feio, ausente. Eu sou um campo minado. Construi minhas trincheiras. Minhas gavetas estão trancadas demais, porque toda vez que eu as abro, vem alguém e bagunça tudo, quebram sentimentos, saqueiam partes de mim. E dói. E leva um tempão pra sarar.

Amo e odeio amar.

Eu verbalizo na sua cama, você sempre soube. A maior declaração de amor que eu posso te dar é um orgasmo e um beijo, você sabe! A felicidade que eu tenho pra te dar não está na calma; tá na cama. E te dou. Este é o momento em que o que eu sinto por você finalmente consegue ebulir, transbordar e vazar. E não foi isso que fez você se apaixonar? Eu falo com a pele, pernas, suor, peitos, dentes, saliva, odores, ossos, fluídos, músculos, cabelos, respiração; você sabe. Sempre soube.

Eu te amo e odeio amar.

Não quero te ver. Seu lugar é aí, do outro lado da rua. Não quero sonhar, nem acreditar. Te mandei embora porque a minha existência é pesada demais e eu não quero me resgatar. Porque eu sofro antes, durante e depois de te encontrar. Porque nosso passado é criminoso, nosso presente é medroso e o futuro me apavora.

Eu amo e não sei amar.

Um dia eu te fiz sorrir. Agora guardo esses nossos risos. Só.

Quer saber? Deixa pra lá… você sabe…

E.S.

A vida já te colocou num lugar propício para que isso acontecesse. Ou não.

Você nasceu e cresceu entre instrumentos musicais, partituras, sons e ritmos. Gostava de mentir para as outras crianças, dizendo que o pai já tinha tocado com o Kiss. Sonhava, se fantasiava e fingia ser Debbie Harry em frente ao espelho.

Já deveria saber. Sua mãe temia, sempre te alertou, e você conhece mais do que ninguém, o tipo.

É daquelas atrações irreprimíveis, quase lisérgica. Feito imã. Música, palco, passagens de som, ensaios. Te hipnotizam. Dopam. Sempre foi assim. Dos professores de música do colégio, dos cabeludos da turma ao grande amor da sua vida. Uns famosos, outros não. Uns talentosos, outros não. Uns geniais, outros só geniosos.

Que roubada, menina, que roubada…

Foram caras que vivem na noite, foram noites de bebedeiras, patifarias e loucuras homéricas. Noites de luas, rímel, tequila, rendas, botas, gozo, cigarros. Foram dias escurecidos pelas lentes de um Ray-Ban, dormindo torta no banco traseiro de alguma van, por alguma estrada, com alguma banda. Essa é a graça. É o mundo que você pertence. Seu habitat. Porque você é um outro tipo de gente. Você é daquele tipo de gente que pula na piscina de cabeça sem nem olhar se tem água lá ou não. Daquele tipo que cai do cavalo, quebra a cara e ainda enxerga poesia nisso. Porque você é daquelas pessoas que devora a vida com as mãos, se lambuza e pede mais, sem pudores.

E porque você é marrenta e quer sempre domar o indomável. Porque você será eternamente uma pirralha mimada que quer exatamente aquele brinquedo que ainda não tem. Ta sempre lá, um depois do outro, tentando botar cabresto e rédeas nos sujeitos mais boêmios, pilantras e cafajestes que encontrou pelo caminho. Mas olha bem lá no fundo, e vê; você também é. Boêmia. Pilantra. Cafajeste. Tudo gente da mesma laia. Farinha do mesmo saco. Ainda bem.

A vida junto das pessoas comuns é monótona e previsível. E você tem essa vontade de ser lenda. Você ama as tempestades. Vive por esses momentos em que se perde o controle. É ciumenta, briga, odeia, chora, quebra a casa, bate o carro. Manhosa, volta de mansinho, se aninha no colo e cola o rosto naquela barba e fecha os olhos e respira fundo. Tranquila. Em casa.

Quem domou quem afinal, beibe?

Nem toda relação precisa de uma nomenclatura. Ele é mais do que namorado , mais que seu amante, mais que marido. É o seu dono, seu homem. Ele tem ‘aquela’ batida na caixa da bateria, sabe? Aquela? Que você reconhece logo e sabe que é ele te procurando no meio da multidão e da fumaça. E tal qual cachorro ouvindo o assobio do seu dono, obedece.

Mulherzinha. Submissa. Dominada. É isso o que você é.

Foda-se.

Podem te chamar de groupie, de vagabunda, do que quiser. Podem cochichar, apontar, falar mal. Pode vir a garçonete e te lançar um sorriso maldoso sempre que te vê na mesa dos músicos. Você ergue os ombros tatuados e solta, duas vezes. Empina o nariz vai pra frente do palco dançar. Linda. Louca. Livre.

Nota da autora: Hoje é dia 1/07. São 3:47 a.m. Escrevo isso sentada num cantinho do palco, copo de vodka ao lado, enquanto espero os caras levarem os instrumentos pro carro.

Antes de começar, acho que vocês deveriam saber: esta deve ser a zilhonésima vez que eu começo a escrever este texto e não consigo passar do primeiro parágrafo. Não porque eu não tenha certeza do que esteja dizendo ou porque não tenha embasamento para desenvolver sobre. Mas, sempre chega o momento em que eu escrevo: “Eu odeio futebol.” E pronto. Acabou. Tá tudo aí. Não tenho nada mais a dizer.

Mas hoje aconteceu. Meu vizinho, fanático por algum time aí, como em todo jogo desse time aí, num desses campeonatos aí, abriu a janela de seu apartamento, e berrou a plenos pulmões: “CHUUUUPAAAA!!!” E eu, depois de suportá-lo fazendo esse tipo de coisa pelos últimos 8 anos, não me contive, também abri minha janela e respondi: “CHUPA O QUE?? CHUPA QUEM???” Mas, ele me ignorou.

Pimba na gorduchinha, isso me bastou! Virou uma questão de honra. Vou arrancar esse texto a fórceps, entrar com bola e tudo. Interesse a minha opinião a alguém, ou não, o mundo vai saber o quanto eu adoro futebol. Só que ao contrário.

Não pense que é um não-gostar gratuito. Não é implicância vazia. Não. Eu tentei gostar, juro. Afinal de contas, né? Brazil-cãipirrinha-futebol-Pele-samba-bunda! Eu é que não ia ser a traidora do movimento. Não mesmo! Já fui a estádios ver jogos, já tentei entender as regras. Mas, não aconteceu. Não decorei até hoje, se um time é formado por onze jogadores contando com o goleiro, ou onze mais o goleiro. Não há quem me faça entender a diferença entre escanteio e tiro-de-meta. É tudo igual, gente! Mas eu sei o que é impedimento, rá! E quando fui ao estádio, bem… eu só comi. Tudo o que passavam vendendo, eu comprava. Sequer prestei atenção no jogo, tamanha era a minha indignação com a histeria daquelas pessoas todas.

Histeria. É isso. Não é o futebol que me irrita, descobri agora. Futebol é só mais um esporte que desperta meu interesse tanto quanto uma palestra sobre… sei lá… fungos leveduriformes. Futebol é o menor dos problemas. O que me mata mesmo é o fanatismo das pessoas em volta dele.

Porque não basta a pessoa gostar enlouquecidamente, não basta assistir todos os jogos, não basta ter a camisa do time. Não! A pessoa tem que morrer do coração, chorar, fazer promessa, dormir na fila para comprar ingresso, sair buzinando com o carro coberto de bandeiras. Não basta ver o jogo do seu time, tem que ver o do adversário pra torcer contra. Não basta o adversário perder, tem que infernizar o mundo, a semana toda com essa derrota. Não basta soltar rojão, tem que inventar uma tal de vuvuzela. E não basta perder o domingo inteiro surtando na frente da televisão, tem que ter o tiro de misericórdia: programa de mesa redonda no final da noite. Olho no lan-CÊ!

Além do que, eu acho o futebol um esporte injusto. Veja bem; um gol, seja de pênalti, seja de um chute lá do outro lado do campo, valem a mesma coisa! Valem 1 (um) ponto! No meu mundo, seria como no basquete. Feito de dentro do campo do adversário, um gol valeria um gol. Se fosse feito bem de longe, lá da outra metade do campo, valeria 2 gols. E pênalti, vale só meio gol. Justo, não? E nada disso de 90 minutos acabarem em zero a zero. Coisa chata, gente! No meu mundo, os jogos iam acabar tipo… 87 a 94. Ripa na chulipa! Isso, sim, é emoção!

Olha, desde que eu me entendo por gente, essa merd… digo, modalidade esportiva, sempre foi uma pedra no meu caminho. Maldito Murphy que só colocou gente fanática por futebol na minha vida. Dos meninos do colégio que trocavam a companhia das meninas no recreio por meia hora chutando uma garrafinha de Yakult vazia, até me casar com um cara que queria viajar na lua-de-mel para assistir a Copa do Mundo. Tiro-liro-li, tiro-liro-lá! Vida, essa grande fanfarrona!

E eu convivi até hoje com isso tudo. Agora chega.
Não precisa odiar comigo, é só me compreender. Você é considerado menos brasileiro se não gostar de futebol. Tem que engolir gente menos articulada que uma foca dando entrevista por aí e ganhando mais dinheiro que a sua família inteira ganhará durante toda a sua existência. A novela de quarta-feira tem o episódio injustamente mais curto. Seus filhos vão pedir camisetas da seleção com nomes como Wanderkleyson ou Klebslandey estampado nas costas.

Isso ainda não te convence?

Eu tenho um trunfo ainda. Incontestável.

Duas palavras. Galvão. Bueno.

Sem mais.

Bêjo!

Só queria informar que a partir de hoje, eu não mato mais uma barata. Nem uminha. Simples assim. Nem levo o carro ao mecânico, nem toco mais naquela furadeira, nem me humilho mais ficando roxa de tanta força pra abrir um vidro de azeitonas.

Pronto.

Não que eu não consiga, você sabe. Não é isso. Eu posso fazer tudo o que vocês caras fazem, posso fazer até melhor, posso até fazer mais. Faço. Aconteço. Já provei isso. Matei a cobra, mostrei o pau. Chega. Agora, dá licença, vou voltar ali pro alto da torre, onde ficam as princesas e donzelas indefesas. E você que vá até lá me resgatar, pode ser?

Hoje você me acusa de querer ser mais macho e ter o pau maior do que o seu. Mas foi porque precisei. Porque a macheza que eu esperava de você, nunca me amparou. Porque aprendemos que era assim que deveria ser. Porque um dia nos fizeram acreditar que somos iguais. Pois é, beibe, surpresa! Não somos!

Não, eu não tô nessa vida pra ser melhor ou me igualar a você. Nunca pedi isso. Quando eu cheguei nesse mundo já tinham decidido. Algum filho da puta, algum dia, transformou isso numa competição. Mas, agora, eu não quero mais brincar desse braço de ferro. Machuca.

O que eu mais desejo agora, são as nossas diferenças. Porque a graça da coisa toda é exatamente essa. Descobrir e se fascinar com algo tão semelhante, mas tão distinto. Tô aqui te pedindo para perceber a minha fragilidade. E que ela te encante tanto, tanto, que você deseje me proteger e paparicar até não poder mais. Da mesma forma que eu prometo ficar aqui toda embasbacada com a sua virilidade e… ‘Céus! Como me sinto segura ao lado desse cara!’

Posso readquirir meu direito de ser tratada à pão-de-ló, por favor? De chorar vendo novela seriado, passar horas me preocupando com coisas realmente importantes como a cor do esmalte, ficar linda, cheirosinha e sair sem correr o risco de a qualquer momento ter que trocar o pneu do carro sozinha? Posso?

Olha, não precisa pagar as minhas contas, não preciso deixar de trabalhar e prometo não ficar burra. Não vou me transformar numa ameba, nem espero que você seja um ogro. Não quero passar os dias em casa com um avental sujo de ovo. Não é isso.

O que eu te proponho é a definição dos nossos quadrados, para que cada um fique no seu. Eu menina, você menino. Básico. Brincamos de coisas diferentes, temos funções diferentes. Sem exageros, sexismo. Nem tão ferro, nem tão fogo. Tão chato quanto o machismo, é o feminismo, desculpa. Agora, chega, obrigada, não vou mais assumir o papel que, pra mim, é seu.

Não quero ter que tomar iniciativa nenhuma, não quero ter que te chamar pra sair. Não fica me olhando com essa cara de pé de alface me esperando te beijar. Me agarra! Você é o homem. Você corteja a dama, lembra?

Eu vou continuar cuidando de você, mimando absurdamente como sempre, mas você poderia, por favor, cuidar muito de mim? Seja cavalheiro comigo e eu serei com você. Eu posso passar na sua casa pra te pegar se você não quiser dirigir, posso pagar a conta do restaurante vez ou outra, posso te levar café da manhã na cama. Mas, segura a porra dessa porta de elevador pra eu passar, pergunte se eu preciso de ajuda para carregar o piano que trago nas costas, me acompanhe até o carro, me telefone para saber se eu cheguei bem! E quando eu chegar em casa cansada, me abrace e me faça sentir que tudo vai ficar bem. Vai! To mandando! ‘Cê não tá vendo que eu sou frágil e delicada, cacete??…

Sério, cansei. Me dá a minha parte de mulher-independente-bem-resolvida em flores, e tá tudo certo. Nós dois bem sabemos; eu não preciso de você, nem de ninguém. Eu poderia muito bem matar todas as baratas que cruzassem o meu caminho. Mas seria tão, tão legal se você matasse…

A gente já entendeu. Todo mundo quer ser modelo/ ator/ cantor/ apresentador de TV/ capa da Caras. Tá. Mas e quando a pessoa é feia, não possui talento algum e a natureza infelizmente lhe deu a capacidade de procriar? O que ela faz? Eu te digo. Ela pega o 13º, pede dinheiro pra parente, rifa ovo de Páscoa. Junta um dinheirão, cata o filho, lambuza o cabelo de gel, põe sapato de verniz, enche de laços e aquela cafonada toda. E faz um book!

Pronto, nasce uma estrela.

Trabalho com produção de cinema e publicidade. Me preparei e desejei essa profissão. Mas, nos 4 anos da faculdade de publicidade ninguém nunca me disse que eu teria que enfrentar isso: comerciais de TV com tantos wannabe Shirley Temple. E… suas famílias.

Há 13 anos, eu faço comerciais para televisão. E nada acaba mais com o meu dia do que teste com crianças.
São sempre dezenas delas. Algumas, eu vejo há anos. Acordando cedo, preenchendo ficha, almoçando salgadinho de isopor com cheiro de chulé, perdendo aula, perdendo a infância, esperando os resultados. Ficam lá, sentadinhos por horas, alguns entediados, outros inquietos, fazendo lição de casa no chão, brincando com amigos que só duram o tempo de espera para o teste. O aprovado é sempre informado por telefone após alguns dias, os outros ficam no vácuo. E, eu sempre me pergunto, o que dizem os pais para uma criança que não foi aprovada simplesmente porque ela não é tão bonita ou engraçadinha como a outra? Não, ela não fez nada de errado. Ela só não era tão bonita quanto todos dizem.

Eu já vi de tudo. Mãe prometendo presentes para quem fizer tudo o que mandarem no teste (“Vai, Flipper!”), mãe mordendo porque na hora o moleque começou a chorar (“Você me fez esperar horas à toa!!”). Já briguei, já ameacei chamar a policia. Deprê.

Mas, aí, já aprovado, vem a parte legal da coisa (legal?). Filmagem.

Eu nem sei o que é me revolta mais. Pais que botam os filhos pra pedir dinheiro no semáforo, ou pais que não reagem ao ver o filho em pleno inverno tendo que brincar numa cachoeira por horas. Ou tomando litros de iogurte, sem vontade, até passar mal, para vender o tal produto. Ou tomando bronca de diretor escroto. Tem diferença? Não sei. Juro.

Dizem que algumas delas ganham mais dinheiro que os pais. Dizem que algumas pedem para ‘aparecer na tv’. Que querem guardar de recordação. Justifica?

Sim, o filho é seu e você tem todo o direito de fazer com ele o que achar melhor. Mas também é meu direito morrer de pena. Sim, precisamos de modelos e atores mirins na ficção e na publicidade. E sim, existem crianças que já nascem talentosas e predestinadas a brilhar. Mas posso falar? É uma em um milhão. Seu filho não demonstra nenhum talento artístico nato? Eu, sinceramente, estaria aliviada. Porque, vamos combinar? Puxa lá na sua memória. A quantidade de crianças que na sua infância eram estrelas e hoje, adultas, são loucas, megalomaníacas, completamente perdidas? É um preço muito alto, um risco muito grande, gente.
Humm… já vejo aqui na minha bola de cristal… vão me achar conivente com essa coisa toda… hipócrita… sei. Não acho. Eu faço o meu trabalho dentro da lei, da melhor maneira que posso e com a responsabilidade que me cabe. E cuido da minha família. O filho dos outros? Sinceramente? Não é problema meu.

*Minipops é uma referência a um programa inglês dos anos 80, em que crianças interpretavam hits da musica pop, vestidos e maquiados como os artistas originais. (vocês são muito novinhos pra se lembrar disso, procura no Youtube)

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 166 outros seguidores