“Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente”
Camilie Claudel
Ela
Deitada nesse sofá sinto determinados movimentos. Mantenho os sonhos sobre a cabeça como um kippa, para que eu não esqueça, para que não flutue demais pela casa, pelos corredores imensos e sem vida.
Depois de querer definir essas coisas todas do dia, vou lentamente fumar esse cigarro, colocar a fumaça no seu devido lugar e esquecer, espalhar essas vontades acesas.
Antes de você chegar estarei sentada na sala desenrolando as cobertas e nesses bad days em que você demora, exatamente nesses, a distância entre eu e você é inundada com chuva.
E ainda persistimos em manter esses silêncios dentro das nossas explosões convulsivas e teus olhos ficam tão parados que tenho certeza que não é você que está aqui. Logo depois você entra com uma história totalmente sem sentido, que a gente acha que a vida está pesada porque não conseguimos parar de nos cortar com essas coisas todas quando tentamos nos defender.
Ele
Fico cansado com minhas próprias sedes e desvios.
Olhando para a parede enquanto você fala, enquanto tento concentrar o que eu tinha para dizer. Sai sem sentido mesmo e vou tentando consertar antes que você argumente de um jeito que não eu veja retorno.
E isso é amadurecer? essa postura superior e complacente?
Lembrando esses dias confusos…
Talvez a ruptura, talvez superar distâncias…
Esse silêncio complacente…
Aliando aos sentimentos extremos da vivência o amor pacífico diluído na violência do tempo
Ela
Esse exercício didático de tentar confrontar você, o que restou desse movimento, do seu perambular pela casa sem objetivo. Me desvinculo dos objetos cada vez mais imprevisíveis, mais irresistíveis, mais incompreensíveis, cada vez mais distante da tola esperança de um futuro.
Analiso as alternativas que tenho para controlar esse vazio imenso, essa dor imensa. Você busca resolver as brigas com passividades momentâneas, mas não dá certo. Aquele olhar taciturno pendido no teu rosto tão distante, e cada vez mais distante…
Essa ruptura já era esperada, mas não consigo digerir muito bem, levantar calma e friamente como se fosse natural. O processo natural de vida e morte das coisas, das relações, do próprio tempo.
Levantei para olhar o tempo lá fora e percebi que voce não voltaria, a chuva foi aumentando significativamente e me ilhei no sofá tentando organizar um plano de fuga…
Às vezes um cansaço físico, às vezes um desespero leve.
“and you will love me more each day until the weight is unbearable“
Ele
Podemos tentar aceitar que não sabemos como domar isso, entende que o ritmo está pesado e não aguentamos mais. Destrincho essas informações com tanta pressa e vida e fome. Talvez sejam esses vestígios que deixo quando em sonho me vejo partir e me imagino pulando essa janela com uma esperança de fuga tão importante nas mãos que não consigo acordar.
Às vezes perco a objetividade, mas tento manter uma linha de raciocínio. Precisamos respeitar nossa natureza, minhas vontades, seus delírios, nossos momentos, minhas surpresas e tudo isso que parece estar guardado, porque não conseguimos mais praticar. E você me olha com um olhar de necessidade. Eu passo a mão pela cabeça sem saber…
Ela
Percebo que estou fitando o cigarro com uma consciência trágica, entendendo que existe esse poder de instância maior, maior que nossas reais necessidades.
Confundimos alguns gestos…
Quem dera espalhar temperaturas, amornar temperamentos.
Essa distância se encarrega de nos deixar para trás.
Inúmeras tentativas, tantos planos e agora essa sensação de derrota, que na verdade é simplesmente a casa abrindo espaço para o vazio.
Ele
Posso desmoronar, mas como encarar se não desta forma minhas próprias vontades? Não fujo deste conflito silencioso.
Ela
Talvez eu acorde e, sem ligar, pense em você com carinho, e pratique este exercício diariamente mesmo que com um leve desconforto.
Ele
Talvez eu acorde e, sem ligar, pense em você com carinho, e pratique este exercício diariamente mesmo que com um leve desconforto.
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