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Aquivos por Autor:

Da nossa falta de norte. Começos, meios e fins.

I

Não espero que você responda, corresponda ou goste,
É só essa minha necessidade de escrever, me abrir e escancarar…

Na vã fragilidade de quem se entrega
Eu vou contando meus pedaços no ritmo de um blues qualquer…

Não se chateie se chegar uma carta, se eu telefonar e me declarar,
Não precisa dizer nada, pode até desligar…

Mas se desligue, então, de uma vez
Só não me deixe no meio passo entre o mal e o bem…

Não me julgue se eu não sei ser pela metade
Se eu não sei te querer ao meio, é essa minha mania de tudo inteiro…

E na tensão dessa intensidade tão minha, eu te escrevo não para você ler
É só para eu saber o quanto se perde no caminho longo da saudade até o papel…

II

A conversa era para ser definitiva
Acabou. Acabou…

Entre justificativas… Declarações
Poesia velada. Palavras que se queriam versos

E no meio desse amor desencontrado
Os olhares se encontravam pedindo mais

O tempo nunca se fez tão necessário
Mas o beijo nunca se fez tão urgente

III

meio tempo
meio amor
meias palavras

e eu vou ficando pela metade
nessas meias horas

sem saber que parte de mim você leva
cada vez que volta

IV

desarmar
desdizer
descontinuar

desesperar

desfotografar
desficar
desconstruir

desconstruindo
indo?

V

Não se demorou no beijo. Não falou de saudade no abraço.

Não a puxou pra perto quando esperavam atravessar a rua. O carinho no cabelo ficou assim, meio sem vontade

Não sorriu o mesmo tanto e quando falou, nem precisava dizer mais nada. Ela sabia.

Engraçado como as coisas seguem um caminho lógico em direção ao fim. Depois daquele dia o telefone nunca mais tocou.

VI

As coisas mais especiais devem continuar assim. Extraordinárias. Fora da ordem. Inatingíveis pela mesmice da rotina, intangíveis pelas incertezas e dúvidas. Deixemos então, que elas continuem como são, especiais.

Porque dessa vez, isso basta…

Você sofre, sofre, sofre, sofre. E sofre. Você passa meses da sua vida espiritualmente com a mão no bolso, cabeça baixa e chutando pedrinha. Sofrendo. Suspirando saudades, gemendo dores se enfiando num buraco que ecoe seus ais.

Ô VIDA, why so cagada?

Às vezes você até se engana. Acha que tá tudo melhorando – porque a gente se fode de tudo que é jeito, mas não perde a esperança – porém… Não. É só o tempo te dando um intervalo pra você respirar, juntar fôlego e se preparar.

Vai piorar.

E piora.

E num dia muito do normal, que pode ser até um domingo de Sol. Tudo dá errado. Eu disse TUDO. E a coisa fica tão grande que você nem chora, você fica lá, estática olhando pro teto, namorando rachaduras e esperando cocôs de mosquito.

Porque temos toda uma carga dramática no sofrimento, mas às vezes, a gente nem consegue sofrer e chorar e descabelar e deslizar na porta do box enquanto chora ouvindo All By Myself, porque simplesmente ainda tá se surpreendendo com o tamanho e com o abuso da vida em te fazer passar por isso. “Deve ser kármico.”

E você olha em volta e se sente um cachorro morto. Porque já não tinha nada certo, mas fizeram questão de te tirar o chão, de chutar. Por crueldade, por desaviso, por falta de noção. Chuta corpo pra lá, chuta corpo pra cá. Escreveram (insira aqui seu nome) num boneco em dia de malhação de judas e, ó: desceram o cacete sem dó.

Mas meus amigos, somos desses que tomamos no cu por prazer e só por prazer. Porque já diria o poeta: anal é coisa séria.

Você está no ápice do sofrimento – seja ele qual for, não interessa o motivo, ele é seu e por isso é o maior do mundo – que ele fica tão grande que se você for sofrer a coisa toda, você morre, sei lá, de tristeza. Então, nessa hora, tudo anda, meus caros. E dá quase pra ouvir a torcida gritando ‘dá-lh(insira seu nome aqui de novo)’. E tem torcida mesmo. Porque isso de nascer legal é uma belezura pra juntar esses amigos de primeira que fazem de tudo pra ver a gente feliz pra caralho.

Então, toda aquela força pra gritar CHEGA DESSA MERDA que as sucessivas cagadas foram minando ao longo do seu calvário (rá!), resolvem se juntar e vêm. E como vêm… E dá tudo certo.

Não tudo, calma… Você ainda tá checando e se apertando pra ver onde dói, porque isso de tombo grande é um prato cheio pra fratura exposta. Mas você cuida dos machucados, deixa cicatrizar em paz e vai viver a vida. Agora sim.

E num momento de reflexão – porque isso de superar e se libertar deixa a gente super reflexivo, clichê e lispectoriano de fachada – a gente pensa: tá tudo bem agora. Porque podem tentar me chutar, mas eu não sou cachorro, não… E tou bem da viva.

(TODOS COMEMORA \o/)

‘Minha educação depende da sua’.

(pausa pra minha cara de susto)

Olha, se a sua educação depende da minha, a sua educação não é um valor, é um oportunismo disfarçado.

Desenrolemos, pois, a coisa toda…

Ser legal, sorridente e espalhar bom dia no meio de gente que te interessa ou que te trata bem é muito fácil. Fácil e conveniente. Quero ver ser educado em ambiente hostil. E não estou falando de falsidade ou puxar saco. Existe um meio-termo louvável entre a o ser legal/falso e o agir para contribuir com a hostilidade do meio, isso se chama educação.

Não nos portemos como um camaleão de valores. Seja neutro, seja aquilo que você é. (Oh céus, estou tão clichê, mas é bem isso.) O pedido é clichê, problema é que pouca gente atende.

Educação é das palavras mais bonitas do Aurélio. To meio que amando.

Também não estamos falando aqui de etiqueta, de classe. Tem muita gente por aí que se diz fina, mas ~~ finésse ~~ a gente pode comprar em livros de boas maneiras com um pouco de interesse. Educação, não. Tem a ver com caráter, criação (pro bem ou pro mal), noção de vida em sociedade e respeito. Isso não se compra. Ou você tem, ou você não tem. (E dá-lhe clichê!) E eu tenho.

E a minha educação não depende da sua.

E porque a vida me colocou numa posição social bem melhor do que as que meu pai e minha mãe estavam na minha idade, eu acabei conhecendo hierarquias de um jeito que a família do interior que cuidava do negócio próprio, desconhecia por completo. E isso virou assunto em casa. Pai que cursou até a oitava série, mãe que não passou da quarta, gente que foi criada e vive e vai morrer no sítio, num universo pequeno de convivência. Sorte deles. Hierarquia lá era uma questão de merecimento, por experiência, pór vivência, mérito de gente que ‘vence na vida’.

Dei dois passos pra fora do sítio e da vidinha pacata e mansa do interior e PLAFT! vem a vida estapeando e mostrando que as coisas se organizam de uma maneira muito diferente. E que gente que se diz melhor que você e está numa posição social (nem financeiramente falando) admirável, está lá por motivos que em nada justificam toda cerimônia e toda reverência que a pessoa exige pra si.

Essa bolha na qual você se enfiou, amigo, é uma bexiga. Qualquer acidez pontiaguda te faz sumir no ar, porque você não se sustenta sozinho. E se você perde o que tem (imagem, dinheiro, fama), você perde o que é. E vira um nada. Que era o que você sempre foi, porque a bexiga que você julgava vidro, era só bexiga e estourou e tá aí, te expondo todo cru enquanto ser humano, pra todo mundo ver suas fraquezas.

Gente que não é nada, quando perde tudo, ou fica no zero, ou recomeça sozinho. Isso é culpa dessas hierarquias injustificáveis, insustentáveis. Cara que acha que porque está numa situação melhor, pode olhar de cima, pode esnobar, pode deixar os outros esperando uma hora e meia para uma reunião, pode não agradecer, nem pedir desculpas. Gente que tá aí aos montes e que a cada dia eu bem descubro umas duas ou três nesse mundo novo que se abriu pra mim.

Como todo mundo, eu queria que muitas coisas mudassem nesse universo de relacionamentos permeados por níveis verticais de valores, mas já estaria de bom tamanho se alguém atendesse à seguinte prece:

Que hierarquia nenhuma supere educação e cavalheirismo. AMÉM

Entrou em casa como quem anda em meio às quinquilharias da loja de antiguidades, desviando de vasos, miudezas e ruídos. Um esbarrão sequer poderia lhe custar caro, acordaria a mãe, acordaria o gato, acordaria seu pai.

Vacilou.

Vacilou no pensamento. Não haveria ninguém ali, além do gato, que pudesse acordar com qualquer barulho que fizesse. Poderia ter orgasmos múltiplos no tapete da sala e gemer feito uma vagabunda. Ninguém iria ouvi-la. A mãe morrera há três anos e o pai… Bem, o pai ela nem sabia quem era, exceto por uma foto que fez questão de deixar para trás na última mudança.

Willie Nelson veio deslizando pelas colunas do velho apartamento, um miado magro, de quem não via comida há três dias. Ela deu uma gargalhada do animal esquelético, depois sorriu. Quis levá-lo até a cozinha, mas estava bêbada demais para tanto esforço. Tirou um chiclete velho do bolso e deu pro bichano, que, se humano fosse, teria mandado-a para a puta que pariu. Com razão, Willie, com razão. Sentiu nojo. Quis vomitar. Segurou. Não queria ter o que limpar na manhã seguinte, não queria ir até o banheiro, queria deitar na cama desarrumada e desmaiar, como quem dorme o sono dos justos. Injusto.

Cocaína e álcool competiam pela medalha de ouro no efeito colateral. Quando se jogou na cama só teve tempo de virar para o lado e vomitar no que seria a almofada do gato infeliz. “Merda”. Não que ligasse muito pro animalzinho, mas aquele cheiro a noite toda era azar demais. Arremessou a almofada pela janela. Deve ter caído no meio da Bela Cintra. Um ‘ai’ ecoou pela rua e ela desejou que tivesse acertado em uma puta. Puta ela também era, afinal, com os programas mantinha seus vícios. Saídas esporádicas, “transas ocasionais”, dizia debochada.

Junto com o vômito, foi-se o sono… E mais uma noite, ou manhã – pela claridade de um Sol que ameaça nascer outono em verão – ela permaneceria acordada. A insônia era costumeira, velha conhecida desde que contar os anos cabia nos dedos de uma das mãos. Mas naquela noite ela queria descansar. Estava exausta… Não que tivesse trabalhado muito.

Depois de foder horrores, as pernas pareciam estar em permanente dormência, as pálpebras se encontravam. Ela continuava lúcida. Quem visse, diria que estava dormindo profundamente, mas estava atenta. Para distrair da eternidade de uma manhã que anunciava-se preguiçosa, deixou que as cinco trepadas seguidas levassem à lembrança dele. Ele. Era para ele que ela ouvia aquela canção. Aquela.

Dele ela já até tinha cobrado pelo sexo, mas faria de graça a vida toda. Com ele ela gostava mais, como se já não gostasse pouco. Sintonia pura, tesão total. Era até amor – juraria na hora do êxtase e em tantos outros momentos de sanidade também. Com ele sentia prazer de verdade e depois de toda a selvageria e de ser virada do avesso, ele a aninhava no colo e tinha a delicadeza de chamar aquele mulherão de pequena, ‘minha pequena’, costumava falar. E ela gostava…

Com ele se sentia segura, com ele passaria o resto de sua vida, por ele, largaria o apartamento na Consolação. Mas, principalmente, os bicos na Augusta.

Querida Amiga,

Faz tempo que não nos falamos. Tanto tempo que nem me lembro mais da última vez que conversamos. Lembro-me, contudo, que nossa última conversa não foi das mais agradáveis. Diversas ofensas minhas contra você. A chamei de baixa e pequena e não ouvi seus conselhos. Mandei você sumir de minha vida e que não aparecesse mais a minha porta. E você, em silêncio, se retirou da minha presença e me deixou sozinha desde então.

Espero que ao ver o remetente no envelope você não tenha rasgado a minha carta. Sei que você ainda está magoada comigo e sei que fui a única culpada disso. Entretanto, depois de algum tempo refletindo e fazendo terapia, decidi que precisávamos retomar contato. Contudo, seguindo as orientações da minha terapeuta, estou tentando me reaproximar de você com calma e aos poucos. Espero que você veja meus esforços sinceros em reparar os danos que lhe causei e me dê a oportunidade de fazermos as pazes.

Queria lhe dizer, antes de mais nada, que me perdoe. Desculpe por ter dado ouvidos a gente que me conhecia tão pouco e nada sabia sobre mim. Desculpe por ter ouvido a opinião de terceiros ao invés da sua, que sempre foi tão apurada, que sempre me conheceu tão bem. E acima de tudo, me perdoe por ter dito tantas vezes o quão horrível eu era, o quão sem graça eu era e o quão desnecessária e pequena você era na minha vida. Repeti estas frases tantas vezes que você mesma começou a acreditar nisso, botei sua visão a respeito de mim tantas vezes em cheque que até mesmo você começou a ter uma imagem distorcida da vida.

Queria lhe contar minha velha amiga, que as coisas mudaram por aqui desde que nos falamos pela última vez. Primeiro, me afastei daqueles meus “amigos” parasitas, que queriam apenas usar a minha amizade para obter vantagem e benefício próprio, sem nunca oferecer um ombro amigo quando eu precisava. Você tinha razão, eu realmente tinha capacidade de encontrar amigos melhores, que realmente gostassem de mim e não quisessem apenas me usar quando tinham interesse. Segundo, contrariando até as suas expectativas, terminei meu casinho com aquele carinha que vivia me colocando para baixo, me criticando, e sendo escroto. Sei bem que você me avisou na época que eu só estava me envolvendo com ele por medo de ficar sozinha e nunca arrumar ninguém, mas eu não lhe dei atenção, como sempre. Agora estou envolvida com outra pessoa, que gosta de mim, que me dá valor, que me trata bem. Aquele tipo de pessoa que você sempre me disse que eu arrumaria, que era só ter paciência.

Queria que você tivesse visto estas coisas acontecerem. Queria que você, mais do que ninguém, tivesse estado ao meu lado, me garantindo que eu sou capaz, que tudo ia dar certo. Foi difícil tomar estas decisões difíceis sem você, sozinha, confrontando minha imagem no espelho, lutando contra aqueles fantasmas que sempre me convenciam o quão insignificante eu era. Mas agora, com essa nova fase da minha vida, está cada dia mais fácil lutar contra eles. E quero você de volta, com seus conselhos sempre motivadores.

Espero que você, ao ler esta carta, reflita e cogite em retomar contato com a minha pessoa. Entenderei se você quiser permanecer distante, mas acredito que seria ótimo, para nós duas, se você voltasse a fazer parte da minha vida. Não irei insistir se você permanecer em silêncio. Mas quero que saiba que nosso relacionamento será diferente de agora em diante.

Meu endereço e telefone continuam os mesmos. Por favor, entre em contato se quiser retomar nosso relacionamento.

Cordialmente,

Samantha Pistor

“Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente”
Camilie Claudel

Ela
Deitada nesse sofá sinto determinados movimentos. Mantenho os sonhos sobre a cabeça como um kippa, para que eu não esqueça, para que não flutue demais pela casa, pelos corredores imensos e sem vida.

Depois de querer definir essas coisas todas do dia, vou lentamente fumar esse cigarro, colocar a fumaça no seu devido lugar e esquecer, espalhar essas vontades acesas.

Antes de você chegar estarei sentada na sala desenrolando as cobertas e nesses bad days em que você demora, exatamente nesses, a distância entre eu e você é inundada com chuva.

E ainda persistimos em manter esses silêncios dentro das nossas explosões convulsivas e teus olhos ficam tão parados que tenho certeza que não é você que está aqui. Logo depois você entra com uma história totalmente sem sentido, que a gente acha que a vida está pesada porque não conseguimos parar de nos cortar com essas coisas todas quando tentamos nos defender.

Ele
Fico cansado com minhas próprias sedes e desvios.

Olhando para a parede enquanto você fala, enquanto tento concentrar o que eu tinha para dizer. Sai sem sentido mesmo e vou tentando consertar antes que você argumente de um jeito que não eu veja retorno.

E isso é amadurecer? essa postura superior e complacente?
Lembrando esses dias confusos…
Talvez a ruptura, talvez superar distâncias…
Esse silêncio complacente…

Aliando aos sentimentos extremos da vivência o amor pacífico diluído na violência do tempo

Ela
Esse exercício didático de tentar confrontar você, o que restou desse movimento, do seu perambular pela casa sem objetivo. Me desvinculo dos objetos cada vez mais imprevisíveis, mais irresistíveis, mais incompreensíveis, cada vez mais distante da tola esperança de um futuro.

Analiso as alternativas que tenho para controlar esse vazio imenso, essa dor imensa. Você busca resolver as brigas com passividades momentâneas, mas não dá certo. Aquele olhar taciturno pendido no teu rosto tão distante, e cada vez mais distante…

Essa ruptura já era esperada, mas não consigo digerir muito bem, levantar calma e friamente como se fosse natural. O processo natural de vida e morte das coisas, das relações, do próprio tempo.

Levantei para olhar o tempo lá fora e percebi que voce não voltaria, a chuva foi aumentando significativamente e me ilhei no sofá tentando organizar um plano de fuga…

Às vezes um cansaço físico, às vezes um desespero leve.

and you will love me more each day until the weight is unbearable

Ele
Podemos tentar aceitar que não sabemos como domar isso, entende que o ritmo está pesado e não aguentamos mais. Destrincho essas informações com tanta pressa e vida e fome. Talvez sejam esses vestígios que deixo quando em sonho me vejo partir e me imagino pulando essa janela com uma esperança de fuga tão importante nas mãos que não consigo acordar.

Às vezes perco a objetividade, mas tento manter uma linha de raciocínio. Precisamos respeitar nossa natureza, minhas vontades, seus delírios, nossos momentos, minhas surpresas e tudo isso que parece estar guardado, porque não conseguimos mais praticar. E você me olha com um olhar de necessidade. Eu passo a mão pela cabeça sem saber…

Ela
Percebo que estou fitando o cigarro com uma consciência trágica, entendendo que existe esse poder de instância maior, maior que nossas reais necessidades.
Confundimos alguns gestos…
Quem dera espalhar temperaturas, amornar temperamentos.

Essa distância se encarrega de nos deixar para trás.
Inúmeras tentativas, tantos planos e agora essa sensação de derrota, que na verdade é simplesmente a casa abrindo espaço para o vazio.

Ele
Posso desmoronar, mas como encarar se não desta forma minhas próprias vontades? Não fujo deste conflito silencioso.

Ela
Talvez eu acorde e, sem ligar, pense em você com carinho, e pratique este exercício diariamente mesmo que com um leve desconforto.

Ele
Talvez eu acorde e, sem ligar, pense em você com carinho, e pratique este exercício diariamente mesmo que com um leve desconforto.

Ele é dez anos mais velho, e talvez seja por isso que tudo tenha dado e ainda dê tão certo. Ele entendeu, desde o primeiro minuto que me viu, que teria que cuidar de mim, me mimar e que, quando eu fosse imatura e infantil, faria toda diferença que ele não se comportasse da mesma maneira. Ele me fez e me faz uma pessoa melhor.

Com ele eu aprendi a gostar de rock, embora até hoje ele cante tudo errado. E foi pra ele o primeiro presente que eu dei com o primeiro dinheiro que eu guardei na vida: um Greatest Hits do Queen. Amor antigo esse. Diria que foi amor à primeira vista, mas – não conte pra ninguém – ele me amava antes mesmo de eu saber que ele existia.

Ele tem o melhor dos pais e dos grandes amigos. Ele é o meu irmão.

E me mostra o mundo que pai e mãe não mostrariam, mas com o cuidado que os amigos não têm. E se preocupa comigo, mas não faz disso motivo de cobrança. E a gente fala merda, fala mal do mundo, fala da gente e do intangível. Temos tanto em comum ainda que vivamos em universos diferentes.

Ele é o filho exemplar, o que ficou no sítio e cuida dos negócios da família, o gênio. O cara mais responsável que conheço, pai de duas crianças lindas. Um marido apaixonado. Um apaixonado. Pelo que faz, pelo que tem, pelo que sonha.Um lindo. Apaixonada eu também sou. Mas eu fui ver o mundo lá fora, eu fui dar trabalho. Eu sou aquela que aos 23 ‘ainda não deu certo’. O oposto da filha perfeita. Mas ainda assim, a maninha. E isso bem que é suficiente.

Ele tem tudo aquilo de altura e desde que me entendo por gente é perto dele que me sinto mais protegida. Foi com ele que eu aprendi as coisas de menino, os palavrões todos, joguei Atari, brinquei de Lego, foi com ele que vivi os anos 80 mesmo sendo a piveta que sou hoje. Foi com o meu irmão que eu aprendi a ser legal. Porque ele é, de longe, o cara mais legal que eu conheço.

E tem ainda aquele sorriso de quem não se leva muito a sério, aquele sorriso de quem se diverte mais que as crianças na hora de brincar. Aquele sorriso que ele abre no sábado de manhã quando me vê pelo sítio depois de eu ter passado a semana toda em São Paulo. É dele me entregando um carrinho de brinquedo a primeira lembrança que eu tenho da minha infância.

Foi ele, na primeira noite em que dormimos em quartos separados, porque meu berço tinha virado cama e não cabia mais, que foi me cobrir no meio da madrugada enquanto eu fingia que dormia só pra ganhar carinho. É por ele, mais do que por qualquer outra pessoa que eu daria a vida, porque quando a vida levar o que nos uniu primeiro, é nele que eu vou me reencontrar pra não me perder do que sou.

E o que eu sou, eu sinto mais forte quando, ainda na cama, ouço ele assobiando o refrão de Leanvin’ On a Jet Plane lá na adega. Porque ele, mais do que ninguém, me faz entender que ali é meu lugar e que é bom estar em casa de novo.

Oito horas da manhã. Primeiros dias de fevereiro, primeiro dia de aula da oitava série. Chego atrasada ajeitando o uniforme e a mochila e pedindo licença. Na timidez do atraso e na preguiça do sono, não entendo picas do que vejo na lousa. Prazer! Era o que dez minutos depois eu viria a chamar de fórmula.

Junto com a disciplina nova veio o primeiro professor homem que tive na vida. Rá! Vocês me conhecem… Preciso dizer que me apaixonei? Não, né?! Não preciso dizer também que fiz da vida desse homem um inferno. Encurtei a saia do uniforme e nunca mais cheguei atrasada às segundas-feiras. Ele era casado, mas não resistiu aos encantos da ninfeta de óculos e saia curta que deixava cair a borracha toda vez que ele passava perto.

Por ironia do destino, meus amigos, foi com o professor de Química, que também era professor de Inglês e tinha um banda (UFA), que eu conheci A química… Aquela coisa que pega, que gruda e ah! Vocês sabem… Não tem vocabulário que dê conta de explicar o que não se explica. Sente e fim. Porque o que veio antes era namorico de classe, era molecagem dos onze aos catorze, era gracejo de nerd que ainda nem tinha descoberto que, olha só, desse jeitinho também pode ser povoar o imaginário masculino, com o perdão do lugar comum.

A oitava série correu entre olhares, provocações e a troca silenciosa do que me interessava e o que interessava a ele. Pronto, estava construída toda minha relação com a tal disciplina pelos próximos anos: nunca prestei atenção em uma aula sequer e em cada apostila de Orgânica ou Inorgânica, era putaria que eu visualizava. Aos 17, eu pagaria o preço por tanta desatenção: zerei em Química na FUVEST.

Corta. Oito anos depois, o reencontro com o professor e com a química, não com a Química (essa ficou pra trás quando decidi pelo Jornalismo). Aos 44 ele voltou mais lindo e aos 22 eu ainda era uma menina, um pouco mais entendida dessas coisas que a gente decidiu não explicar, mas com o mesmo fetiche por professores que são guitarristas em horas vagas e com leve sotaque britânico.

A prova de que essas coisas de pele são atemporal: aquela tarde. E mais do que nunca, aos 22 eu entendi porque aos 14 eu me tornei aquele tipo de garota que “num tem quem diga, mas, olha…” pra nunca mais endireitar. Ou talvez eu sempre tenha sido, mas faltava o `start`… O fato é que a culpada de toda essa indisciplina química que me persegue é a tal da disciplina homônima.

Numa segunda-feira pré-carnaval de 2002, a primeira daquele ano letivo, as calcinhas deixaram de frequentar minhas gavetas com a assiduidade que compete às moças de família… Thanks, teacher.

De todas essas medicinas alternativas, boto fé, essa pouca fé que me resta, que é mais otimismo do que crença, em uma especificamente: a cura pelo refrão.

(Ahhh, meus amigos… Quem empapou o travesseiro de lágrimas ao som de Crosby, Stills and Nash até pegar no sono, pra acordar num dia seguinte com um pouco mais de amor no coração, sabe do que tou falando.)

Refrão tem poder, meu caro. Aqueles quatro ou cinco versos que se repetem entre estrofes, que podem ser doces, ríspidos, fortes, delicados… Verdadeiras declarações de amor ou acenos de despedida. Expressando o que você sente, te fazendo colocar pra fora. Pra desistir do shuffle e apelar pro repeat. Porque não basta ouvir duas ou três vezes ao longo da música. É preciso ouvir mais. Até exorcizar. Reza brava, viu? E cura. E como cura!

Admitamos, beibe. Em algum momento todo mundo já correu para a prateleira dos vinis (ou pastas de mp3) em busca daquele afago ou tapa na cara que só aquela, isso, AQUELA música pode oferecer.

Já fui curada por Beatles, Elvis, Janis, Chico Buarque e tantos inúmeros pós-graduados nas moléstias da alma… Doutores especialistas nessas doenças que – licença, Camões – vêm num sei como, doem num sei porquê…

E não vale passar receita. A cura é pessoal e intransferível, acontece, no máximo, uma coincidência aqui, outra ali. Muito dificilmente AC/DC vai soar libertador para você como soa pra mim. Algumas coisas são até universais, afinal, raro o coração que não se cure pela delicadeza de Bridge over troubled water – na versão de Simon e Garfunkel, obviamente.

Mais do que cura, funciona também como terapia… E lá vamos nós para algum momento distante, entender o começo de certos sentimentos, descobrir coisas jamais conseguiríamos sozinhos. Refrão que acalma o sono ou faz companhia na insônia. No vinho, a verdade? No refrão, a cura. Libertação e entendimento: trabalhamos.

Há milênios as pessoas a praticam consciente ou inconscientemente. Desconheço estudos científicos sobre, mas em breve a ciência chega, senhora de si, validando com números e estatísticas aquilo que o travesseiro ensopado e o coração engasgado já cansaram de saber. Vale amor com dor, vale qualquer coisa que te faça sentir que ok, tá tudo bem agora.

Posso antever o futuro: “Dois versos e uma rima. Urgente! Temos aqui um caso grave. Acho que precisaremos de Sinatra.”

Por ainda não me ser próprio o que há de ser definitivo… Paliativos, por favor. De toda natureza, para que não me falte nada. E que substituam o que há de bom e de ruim, porque é preciso equilibrar. Que sejam honestos e que façam mais do que tapar o Sol com a peneira. Um mínimo de verdade e dignidade. Não peço muito.

Para que não me falte dinheiro, empréstimo. Para que não me falte amor, sexo. Para que não me falte flor, verde. Para que não me falte tristeza, tédio. Para que não me fuja a verdade, espelhos. Para que não me falte certeza, inquietação. Vislumbre metonímico, parte pelo todo.

Essas coisas não completas… Sombras… Ensaios do inteiro… Bastarão. Por enquanto, pois bem. Não por conformismo, não por desistência, mas porque é preciso aceitar que ainda não chegou a hora. E certas horas atrasam, certos ponteiros nos erram: a vida pura e simples em seus acasos e desencontros.

Aceito que ainda não seja o melhor vinho. Aceito que o acordar tarde não seja tão tarde quanto eu gostaria que fosse. Aceito que seja só viagem e não mudança. Aceito o que tem pra hoje. E não reclamo. É temporário e/ou finito. Vai passar… por si só ou por meu próprio esforço. Está bem do bom para quem ainda ameaça os primeiros passos.

Benditos sejam esses rascunhos de toda e qualquer coisa que se encontram no fim de nossas metas, injustamente, por vezes, renegados ao plano de derrota só porque não são exatamente o objeto de nossos desejos. Não trabalhemos com 8 ou 80. O que não é vitória, não é, necessariamente, 0×0.

Em grandes doses, sem economia. Vida longa ao paliativismo! Essa corrente dos que sentam e esperam e fazem o que podem conforme dá, sem o desespero dos que atropelam pelo medo de não alcançarem. Easy, boy. Easy… Aprender a jogar com o que tem na mão é bonito, porque a gente se vira, sem precisar trapacear.

E o que é o presente senão um paliativo do futuro? Pode correr lá pra frente, eu vou ficar aqui degustando o meu agora. Duplo e sem gelo. É preciso entender que enquanto não se encontra a cura, se faz necessária a morfina. Para que os sonhos não se tornem reféns do imediatismo que encrua… Paliativos, por favor.

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