Super-Heróis

Começou quando surgiu o Batman em Taubaté.

O assunto virou piada nas redes sociais por umas duas semanas e depois acabou sendo esquecido. Mas o Batman continuou ali, firme e forte, combatendo pequenos assaltos e ajudando a polícia a capturar criminosos da região. E um dia ele desmantelou uma importante rede de traficantes do interior paulista, caindo de vez nas graças da população.

Agora o Brasil tinha um super-herói.

Logo, outros começaram a seguir o exemplo. Relatos de um homem combatendo o crime vestido como Gavião Arqueiro na região de Campinas começaram a aparecer nos jornais. Ao mesmo tempo, diversos habitantes de Sorocaba afirmavam ter visto um sujeito voador e flamejante percorrendo os céus da cidade.

Logo, o assunto começou a dominar as manchetes dos jornais do mundo inteiro. O Brasil, mais precisamente o estado de São Paulo, havia se tornado uma história em quadrinhos de verdade, com seres fantásticos combatendo o crime e lutando contra a injustiça.

As notícias corriam com a mesma velocidade que novos heróis surgiam. Em Bragança Paulista, um sujeito vestido de verde usou os poderes de seu misterioso anel para salvar as crianças de um orfanato em chamas. Nos arredores de Itu, um gigante que atendia pelo nome de Golias impediu que uma enorme torre elétrica caísse durante uma tempestade.

Não demorou até que os primeiros heróis chegassem à capital. Não era incomum andar pela Avenida Paulista durante o dia e ver um sujeito vestido de azul e vermelho subindo pelos prédios e disparando teias, um sujeito extremamente poderoso cruzando os céus com sua capa e botas vermelhas, ou ainda um gigante esmeralda cruzando a cidade em saltos de centenas de metros.

E isso somente na região da Paulista.

Mas tudo acontecia também em outros bairros da cidade. A Barra Funda era palco de um sujeito prateado que surfava sobre seus céus em uma enorme prancha, enquanto um sujeito misterioso defendia o bairro de Moema usando uma armadura repleta de aparatos tecnológicos. Pinheiros, por sua vez, era território de uma poderosa e belíssima amazona que capturava ladrões com seu laço mágico.

Já os bairros mais violentos também contavam com seus protetores, como o negro que se referia a si mesmo como herói de aluguel defendendo a população do Centro Velho, ao lado de um herói vestido de demônio – que muitos juravam ser cego. Isso sem falar como o guerreiro conhecido como Mestre do Kung Fu que tomou para si a missão de proteger as ruas da Liberdade.

Em semanas, São Paulo passou a ser considerada a cidade mais segura do planeta. A criminalidade caiu até ficar próxima de zero, e, no momento em que um grupo de heróis alugou um imóvel nos Jardins para estabelecer a Mansão dos Vingadores, a própria ONU considerou mudar sua sede para a cidade brasileira.

Não havia mais crime em São Paulo. Os heróis se tornaram parte da rotina da cidade, e seus habitantes andavam a qualquer hora do dia experimentando uma sensação de segurança inimaginável até semanas atrás. Todos os dias, feitos heroicos de sujeitos fantasiados estampavam as páginas dos jornais e das principais revistas.

Tudo começou a mudar durante uma greve dos lixeiros. Almejando maiores salários, os funcionários do serviço de limpeza pararam de trabalhar, deixando a cidade totalmente emporcalhada – até que um homem, vestido de vermelho e mais rápido que um raio, percorreu a cidade recolhendo todos os sacos de lixo em questão de segundos.

A cidade estava limpa novamente, mas o sindicato dos lixeiros emitiu um protesto oficial, acusando o sujeito de atrapalhar as negociações – e começaram a fazer protestos pela cidade, alegando que super-heróis não deveriam se intrometer em serviços públicos.

O que poderia ser um incidente isolado misteriosamente se tornou apenas o primeiro de uma série. Outros eventos misteriosos começaram a ocorrer, abalando a credibilidade dos heróis.

Ao tentar impedir que um criminoso explodisse um prédio da USP, o Capitão América foi apedrejado pelos alunos de História e Geografia sob os gritos de “imperialista filho da puta!”. Alegando que a armadura do Homem de Ferro poderia ser considerada um veículo, o Detran resolveu cobrar uma fortuna de IPVA do vingador dourado, o que acabou com as economias do herói.

Já em Higienópolis, um grupo de mutantes que operava no bairro foi obrigado a abandonar o local às escondidas, após serem perseguidos pelos moradores que não queriam aquela “gente diferenciada” andando pelas redondezas. O Quarteto Fantástico foi notificado judicialmente sob a acusação de que os experimentos realizados em seu prédio – o antigo edifício do Banespa – atrapalhavam os planos de reurbanização do centro de São Paulo.

Os heróis passaram a ser perseguidos, em uma série de eventos aparentemente sem relação alguma. A frase “Quem Vigia os Vigilantes?” começou a ser vista em diversos muros da cidade. Os heróis estavam caindo em desgraça.

A gota d’água foi quando a prefeitura emitiu um comunicado afirmando que os uniformes dos super-heróis eram coloridos demais e, por ferirem a lei Cidade Limpa, eles estavam oficialmente proibidos de patrulharem as ruas de São Paulo. Assim, seres superpoderosos começaram a abandonar a cidade. Muitos fugiram; outros se aposentaram e passaram a viver escondidos sob suas identidades secretas, com seus uniformes escondidos no porão.

Uns poucos ignoraram a lei e desobedeceram. Foi o caso do Justiceiro, que logo desistiu de combater o crime após se cansar de passar horas e mais horas preso no trânsito da Rebouças com seu furgão; e do Motoqueiro Fantasma, que cansou de quase morrer no trânsito da cidade pelo menos três vezes por dia após ser tratado como um simples motoboy.

Logo, estes também desapareceram.

Em poucas semanas, São Paulo não possuía mais heróis. A criminalidade voltou a crescer a níveis alarmantes e, menos de um ano depois, todos os super-heróis haviam caído no esquecimento.

E, na janela do prédio mais alto de São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab sorriu satisfeito. Aquela era a sua cidade, e ninguém iria atrapalhar seus planos. Logo, ele dominaria cada rua e cada beco da metrópole, expandindo cada vez mais seu poder.

Ainda sorrindo, retirou sua peruca e deitou-se em sua cama. E sonhou com o dia em que governaria o país inteiro, e seu poder seria tamanho que ele poderia finalmente abandonar a identidade falsa que havia criado e poder assumir seu nome verdadeiro: Lex Luthor.

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