É Só Preconceito

Eu ia falar de EGOÍSMO, mas acho que é só PRECONCEITO. Pra começo de conversa, acho que o lance do Marcelo Montenego encerra o assunto:

“- Você assistiu “Dois Filhos de Francisco“?
- Não, nem vou.
- Isso é preconceito.
- Não, minha filha, isso é CONCEITO
!”

Enfim, é isso aí, porque eu já falei várias vezes que você não precisa comer um prato de merda pra saber que é UMA BOSTA, mas no me aconteceu um negócio que me fez pensar a respeito do preconceito.

Eu tava num aniversário bacanérrimo, puta ambiente bacana, maior astral, fui ficar um pouco com o Duda pra Laura comer, e de repente parecia que tudo era o maior barato: meu filho que não parava de rir, o ambiente, as pessoas em volta, e Bob Dylan tocando. Não sei dizer quanto tempo fiquei nesse “barato”, acho que umas 4 músicas do Bob, aí uma tiazinha saiu e voltou com um CD nas mãos. Ela estava com uma roupa um tanto, como direi, “paquita” (mini-saia, meia calça, bota, muito vermelho e muitas luzes no cabelo pra muita idade), vi o CD brilhando na mão dela e soltei um “Ai, ai, ai…”

O Azamba escutou e eu apontei com a cabeça pro CD na mão da tiazinha, ele perguntou: “O que você acha que vai sair dali, Randall?”. Na hora, eu chutei “Créu” pra dar uma generalizada, mas eu tinha certeza que Bob Dylan não era. Aliás, até acho que o Bob foi a causa dela ir no carro buscar o CD, numas de “vou ajudar o dono da casa a animar essa festa“, ou então era muito bom gosto ali, mais do que ela poderia suportar.

A primeira coisa que se ouviu do CD foi “tira o pé do chão”, mas para a minha surpresa, isso não é exclusividade das Ivetes da vida, o CD era de música sertaneja, embora eu não reconhecesse os criminosos da ocasião. “Vitor e Léo”, alguém me falou.

Então, o que eu pensei ao ver a tiazinha com o CD na mão é preconceito? Ou o fato de ter saído algo que eu previa simplesmente comprova o meu conceito? Eu fiquei pensando no meu bróder, que na própria casa, tem que aturar certas coisas, na hora me lembrei de um aniversário do meu pai em que um amigo dele deu um disco sertanejo e o coroa ficou olhando com uma cara esquisita pro sujeito, que explicou:

“Outro dia eu pedi pra escutar música sertaneja na sua casa e você disse que não tinha, agora tem! Ha ha ha ha ha”.

Meu pai tirou o vinil da capa e jogou pela janela do décimo primeiro andar, dizendo: “Será que presta ao menos pra voar?”.

Aí eu penso na absoluta solidão do meu pai e não sei se não seria o caso de ter aturado certas coisas irrelevantes, pois a tiazinha do “Vítor e Léo” pode ser gente fina, sim. Pode ser uma boa pessoa, claro. Eu não tenho vontade de ouvir uma palavra do que ela tenha pra dizer, mas pode ser uma pessoa legal. Ou casada com alguém legal, assim por diante.

Seria preconceito eu dizer, por exemplo, que ela:

1- Nunca leu um livro?
2- Não perde um capítulo da novela das oito?
3- Compra Caras e Contigo?
4- Adorou “Dois Filhos de Francisco”?

O mais doido nisso tudo é que de repente ela pode responder sim para as 4 perguntas acima e, se algum dia aparecer no Malvadezas, dizer que eu andei falando mal dela!

Como será que eu vou agir no dia em que alguém aparecer na minha casa com um disco de música sertaneja e pedir pra tocar? Será que depois de tentar escrever sobre EGOÍSMO e PRECONCEITO, vou saber um dia dizer alguma coisa sobre TOLERÂNCIA?

9 comments
  1. Lívia disse:

    É que hoje em dia todo mundo tem que ser “eclético”, né. Até na sexualidade, se vc diz que gosta só de homem ou só de mulher, nego já diz que você é preconceituoso(a). Imagine com música, filmes, etc… Ser “cabeça-aberta” já virou uma imposição social. Concordo com você, tá difícil essa pós-modernidade, viu…

    • É o preconceito ao preconceito, Lívia! Mas como diz o Mirisola, trato meu preconceito a iogurte, cuido bem dele!

  2. Tião Martins disse:

    “Não se demorou no beijo. Não falou de saudade no abraço.

    Não a puxou pra perto quando esperavam atravessar a rua. O carinho no cabelo ficou assim, meio sem vontade

    Não sorriu o mesmo tanto e quando falou, nem precisava dizer mais nada. Ela sabia.

    Engraçado como as coisas seguem um caminho lógico em direção ao fim. Depois daquele dia o telefone nunca mais tocou.”

    Me pergunto se você, tão jovem, sabe tudo ou apenas imagina. De qualquer modo, é sempre surpreendente.

    • Surpreendente!

  3. Sandra disse:

    Poderia ser pior,imagine se o cd fosse de funk carioca …. Com certeza a tiazinha não seria gente fina …com certeza o marido seria um babaca….Acho que no meu caso é preconceito

  4. Interessante a sua percepção. É pra se pensar.

    Eu estudei música durante muitos anos e tenho opiniões que chocam a galera do conservatório. Já toquei tanto Verdi quanto Gian e Giovanni. Com o passar dos anos, eu fui pegando bode da galera intelectualizada. E muitas vezes eu prefiro tocar country em uma festa de rednecks do que aguentar a prepotência dos pseudo-intelectuais do erudito. Isso também é pra se pensar.

    • Então… gostar de música boa é ser intelectual ou pseudo-intelectual? E ser intelectual – não estou dizendo que eu sou – é ruim? Legal é ouvir Victor e Léo? Não, eu não entendo. O que é ruim é ruim sempre. Pra ouvir, pra cantar, pra dar uma animada, pra ser engraçado… não existe alívio pra música ruim. E não me considero intelectual, só não tolero coisa idiota.

      • Ah, não foi um ataque a você. É que acho difícil definir música boa e música ruim. Bob Dylan, como músico, é bem mediocre: não inovou nada, e só reciclou um monte de folk que já tinha sido feito há anos atrás, além de ter uma voz péssima. Por isso nenhuma gravadora queria ele na época. Bob Dylan é um poeta brilhante, e é nisso que ele se destaca, e foi nisso que ele inovou.

        Discutir música por esse ângulo sempre me pareceu uma tarefa muito difícil. É filosófico, se você pensar. E quando você coloca cenas no meio (a cena punk, a cena do metal, a cena do hip hop), isso vira algo quase que teológico.

        • Eu não entendo nada de música. Não sei o que é uma escala, uma nota, um arpejo, um solfejo, alegro ma non troppo e etc… mas sei que tem coisa ruim. Que é o que eu não gosto, sempre.

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