A Metamorfose

Um dia a Flávia reparou que o cabelo do Roberto estava diferente. Foi durante um café da manhã, quando os dois corriam contra o tempo para não chegar atrasados no trabalho.

- Diferente como?

- Não sei. Parece mais claro. Mais avermelhado.

- Deve ser aquele xampu novo que você comprou.

- Será? Eu também estou usando e meu cabelo está igual.

- Bom, sei lá. Pode ser o Sol também.

Não deram muita atenção isso, até uns dias depois, quando Roberto entrou em casa, à noite, com o cabelo totalmente vermelho. E grande. E penteado de lado. Ou melhor, despenteado, já que o cabelo teimava em não assentar.

- O que você fez no cabelo, Roberto?

- Nada! Ele ficou assim durante o dia!

- Vamos cortar isso agora!

- Eu já tentei. Passei num barbeiro antes de vir para cá. Cortei curtinho. Ele já cresceu de novo.

Apesar dos pedidos da Flávia para que ele marcasse um médico (“tem aquele dermatologista que sua irmã foi, ela falou super bem dele”) o Roberto não quis nem saber. A Flávia insistiu, disse que podia ser alguma coisa com hormônios (“porque você já não é mais criança, vai fazer quarenta anos no mês que vem”), mas o Roberto negou. Primeiro, detestava médicos. Além disso, enquanto seus amigos estavam ficando carecas, ele estava ganhando cabelo.

E assim passaram-se os dias e nada do cabelo do Roberto voltar ao normal. Mas também não crescia mais: ficava sempre ali, castanho-avermelhado e desgrenhado. A Flávia estava quase acostumando com o novo visual do marido – e até mesmo achando charmoso – quando o Roberto entrou em casa usando um par de óculos, com aros grossos e pretos.

- O que é isso? Desde quando você tem problema na vista?

- Eu não tenho! Esses óculos apareceram na minha cara na hora do almoço. Eu tiro, mas eles voltam.

- Como assim “voltam”, Roberto?

- É isso mesmo, Flá. Eu tirei umas quatro vezes e, quando eu vejo, eles aparecem no meu rosto. Foi assim o dia inteiro. Cheguei até mesmo a jogar fora, pela janela do carro, mas, menos de um minuto depois, fui arrumar a franja e os óculos estavam lá.

Não havia mais o que discutir. Até mesmo o Roberto concordou que precisava de ajuda – restava saber se era científica ou espiritual. Escolheram a científica, por causa do horário (“mas amanhã mesmo eu vou pegar o nome do cartomante da Zilu, lá do trabalho”) e foram para o hospital. A Flávia quem dirigiu.

No meio do caminho, o Roberto começou a se queixar de dor no corpo. Doía tudo. As pernas, os braços, a coluna. A Flávia tentou acalmá-lo, mas começou a temer pelo pior. O marido estava com alguma doença grave. Ou um distúrbio psiquiátrico. Ou ambos. Ou uma macumba das bravas. Ou tudo isso. Tentou adivinhar se o convênio cobriria doenças desconhecidas, mas, antes que chegasse a uma resposta, o Roberto respirou fundo e disse:

- Passou.

- Como assim, passou?

- As dores. Passaram.

- Assim, do nad… Seu nariz está diferente!

- Diferente?

- Sim! Ele está maior!

O Roberto se esticou e olhou seu reflexo no retrovisor.

- Não é que é mesmo? Por isso que ele estava doendo, acho.

- Ai, Roberto…

- Calma. Não há de ser nada. Vamos para o hospital.

Enquanto estacionavam, o Roberto desandou a falar. Disse que detestava hospitais, que eles tinham cheiro de morte e que se ele quisesse sentir cheiro de gente morta ele deveria ir para um necrotério e passar a noite ali. E antes que a Flávia brigasse com ele, ele ainda encontrou tempo para acrescentar que ao menos no necrotério a vizinhança seria sossegada, e ele poderia aproveitar o silêncio para colocar a leitura em dia. Poderia pechinchar e conseguir uma gaveta dupla e espaçosa e morar ali. E quem sabe até mesmo conhecer pessoas interessantes, descobrir se existe vida depois da morte, e se isso valia para os judeus.

- Judeus?

- Sim, você disse alguma coisa sobre os judeus terem vida depois da morte.

- Eu disse?

- Sim, tenho certeza.

- Bom, sei lá. Escapou, acho. Nem percebi isso.

- Roberto! Você está menor!

- Menor? Não seja idiota!

- É verdade! Pare aqui do meu lado!

Era verdade. Até minutos atrás, a Flávia batia nos ombros do Roberto. Agora, ele batia no queixo dela. E estava vestindo um paletó escuro e surrado, que ela jurava nunca ter visto antes, mas achou melhor não comentar – o marido já estava estressado demais.

No caminho até a entrada, o Roberto foi andando rápido e cutucando a esposa.

- Nós temos que entrar aí mesmo? As pessoas vestem somente branco, ficam fazendo perguntas indiscretas. Toda vez que eu entro num hospital, me sinto como um prisioneiro da Ku Klux Klan. Eu me sinto como se fosse um prisioneiro da Ku Klux Klan. Se eles me internarem, capaz de eu acordar de madrugada com uma cruz pegando fogo na frente da minha cama e com os enfermeiros planejando me enforcar. Você sabe se a Ku Klux Klan tinha algo contra os judeus?

- Olha aí, falou de novo!

- Desculpa. Escapou. Eu retiro o que disse. Mas não a parte do vamos embora. Por que a gente não esquece tudo isso, vamos para casa, ouvimos jazz, bebemos vinho e fazemos sexo até não aguentarmos mais? Quer dizer, eu estou doente, então não vou aguentar muito, acho que só uma meia horinha. Mas em meia horinha eu consigo transar umas quatro vezes. Você vai transar somente meia vez, mas eu estou doente então podemos dar um desconto? Olha um médico ali! Vamos embora! Olhe, esqueça o sexo! Vamos para casa ver filmes clássicos e fingimos que fazemos sexo, que tal? Aí amanhã passamos o dia nos gabando da noite imaginária que tivemos! É até melhor fazer assim, imaginando, porque eu consigo arrumar meus discos enquanto a gente faz sexo. Estou colocando meus discos de jazz em ordem, mas eles estão parados na letra C desde dezembro.

- Roberto! Pelo amor de Deus!

- Meu Deus! O que foi? Um médico? Ele nos viu?

- Não, é que você não para de falar por um minuto!

- Desculpe, eu estou nervoso! Quando eu estou nervoso, começo a falar assim. Algumas espécies de animais ficam paralisadas, outras se enterram, mas eu começo a falar. Meu psiquiatra diz que é meu lado animal, mas que ao invés do meu lado animal ser um leão ou um tigre, é um pássaro. Uma gralha. Ou um corvo. Deve ser corvo, porque estou doente e vou morrer! E vou reencarnar como corvo e ficar o resto da outra vida em cima das janelas gritando “Nunca Mais! Nunca Mais!”. Ao menos isso! Eu sempre fui fã de Poe. Será que as pessoas dão comida para os corvos como dão para os pombos aqui em Nova York?

- Nova York?

- O quê?

- Você disse “aqui em Nova York”.

- Disse?

- Disse.

Antes que ele pudesse responder, a Flavia o empurrou para dentro do saguão e o colocou na sala de espera. Pouco menos de meia hora depois, foram atendidos. O Roberto, em pânico, queria ver o diploma do médico, perguntou se ele era imigrante, mas quando o doutor se ofendeu, logo disfarçou dizendo que “era apenas curiosidade, que tinha lido um artigo falando muito bem da faculdade de medicina de Calcutá” e sussurrando um “você deixou o carro ligado? Quando ele virar para pegar o estetoscópio, eu apago as luzes e nós corremos para lá” no ouvido da Flávia.

Exames aqui e ali, raios X disso e daquilo e ninguém soube explicar o que estava acontecendo com o Roberto. Chamaram outros médicos, e nada.

O fato é que, por algum motivo obscuro da ciência, ele estava se tornando no Woody Allen.

Foram para casa sem explicações, apenas o consolo de que não parecia ser grave ou perigoso. Dias depois, o Roberto já estava mais parecido com o Woody Allen do que o próprio Woody Allen.

Isso aconteceu anos atrás. De lá para cá, tentaram de tudo. Outros médicos, clínicas de medicina alternativa, florais, curandeiros, psiquiatras. Nada deu certo e desistiriam. Menos do psiquiatra, que o Roberto gostou tanto que acabou virando paciente regular. Na verdade, ele passou a frequentar dois psiquiatras: um para conversar sobre a vida, e outro para conversar sobre as coisas que o primeiro psiquiatra falava para ele.

A Flávia se acostumou. Demorou, mas se acostumou. Comprou roupas menores para o marido, passou a conviver com montanhas de livros e discos empoeirados em casa, e foi obrigada a aprender todos os feriados judaicos. E assim foram vivendo nesta nova rotina.

A única coisa chata era na noite do Oscar, que a Flávia sempre adorou e passou a ser obrigada a assistir sozinha. Pois, assim que a transmissão começava, o marido subia as escadas e ficava a noite toda tocando clarinete, sozinho e trancado no quarto.

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