Meninas, Mulheres e Moleques

Aos oito anos moleques brincam de lutinha, gostam de vídeo game e de se empurrar (porque brincadeira sem um mínimo de violência tem o mesmo mínimo de graça), comem com a mão, fazem competição de quantos copos de refrigerantes conseguem beber num gole só, andam de bando e não estão nem ai para música que está tocando. Quando ligam, sacam sua guitarra imaginária e ajoelham-se no show. Show apoteótico.

Meninas vão lindas a festinhas de aniversário e se mantém lindas até o último segundo. Nem que para isso precisem ir para o banheiro 487 vezes. E como vão ao banheiro, minhasalma. Nunca sozinhas, vão com as amigas para perguntar se estão bem, para verificar a roupa-cabelo-batom e para saber o que ela acha do moleque que ela está afinzinho. E amam toda música que toca, se empenham (todas exatamente iguais) nas coreografias e brilham com suas minisaias cheias de lantejoulas prateadas. Aos oito anos.

Os moleques suam porque correm, as meninas cochicham sobre eles. Os moleques brincam de quem escorrega mais no chão engordurado da festa, as meninas continuam soltando gritinhos a cada primeira nota das músicas da Lady Gaga. Moleques usam calça, camiseta, tênis e boné e meninas começam a usar seus charmes e encantos.

Aos trinta e cinco, moleques andam em bando, bebem cerveja, conversam sobre vídeo game e em como Steve Jobs é e sempre será deus. Combinam no churrasco quando irão ao Pacaembu e também quando esquiarão na Patagônia. Zoam uns dos outros. Usam camiseta, calça, tênis e boné. Curtem música mas, definitivamente, estão ligando pouco para o que está tocando no boteco. Quando toca a música certa, na mesa do bar, fazem copos virarem bateria. Certo eles. Vida simples e boa é com bebida gelada, comida engordurada ao alcance das mãos e Ringo Starr no batuque de velhos copos americanos.

Mulheres são lindas e para sair acreditam que três horas de faxina pessoal a transformarão em deusas. Não precisam, mas há um certo encanto nessa transformação toda. Se pintam, usam lantelojas brilhantes, dançam sensualmente. Acham que a noite será incrível quando tocar aquela sua música. É um sinal. E ela toca na hora certa e do jeito certo. E logo depois vão ao banheiro para conferir a-roupa-o-cabelo-o-batom e perguntar para a amiga o que ela acha dele, que não para de falar de computador, que tem um óculos nerd fofo e uma roupa estranha e maltrapilhada.

São diferentes e se manterão assim. E não, não estou falando de sexo. Apenas que existem moleques e meninas-mulheres independente de serem, de fato, gêneros homens e mulheres. Mas uma hora, eles começam a andar com a mesma velocidade na calçada, cada um com seu querer, mas juntos. Sem mãos dadas mas um do lado do outro. Sem pressa, sem pressão. Na mesma velocidade andam. Quietos, cúmplices, olhando de canto de olho, com aquele olhar doce que pessoas diferentes se olham. E passo a passo, naquele instante, ficam iguais.

Mas só naquele instante.

Porque meninas, sinto, vocês mudam mas uma coisa não: seja com oito ou trinta e cinco anos, moleques serão sempre moleques. Sempre.

12 comments
  1. J disse:

    Minhasalma!
    Muito bom!!! Identificação total: sou um moleque que sua e ainda gosta de brincar de lutinha.

    • somos moleques! ;)
      só tenho uma desvantagem: sou ruim demais no videogame! rararara

  2. Melissa Cavallaro disse:

    E o pior… amamos os homens. Mesmo sendo mulekes, e nunca notando nossas lantejoulas…

    • acho que a graça toda está ai, né?

  3. A menina/mulher pode continuar gostando do moleque pra todo o sempre?

    E como classificar a mulher que combina na mesa do bar o dia que vai no Morumbi, e que está feliz com a cerveja e a comida engordurada à mão mas que tá prestando atenção na SUA música?

    demais o texto… DEMAIS!

    • eu acho que não só pode como irá gostar, lourdes.
      e mulheres são tão mais legais que moleques que, mesmo sendo moleques, ainda são mulheres, sabe…
      bjbj

  4. Cíntia Moraes disse:

    ahhhh esse tonho…
    me roubando sorrisos em plena segunda de manhã… texto incrível, autor incrível e os moleques? incríveis tbm… e não há nada que eu possa fazer pra evitar me apaixonar

    ai que saudade docê <3

    • e quem disse que a gente quer evitar, né?
      e quero ser moleque num boteco com vc! <3

  5. disse:

    Grande moleque!!!
    Me arrisco que essa eterna diferença dá um certo charme nas relações… mas isso só a maturidade me mostrou… sorte minha!! rsrs.
    Beijocas

    • nós, os moleques, agradecemos as lindas e incríveis mulheres por tudo. até por provar que somos só moleques… rs
      bjbj

  6. Lívia disse:

    Ótimo texto, se bem que eu acho que meninas/mulheres deveriam se permitir ser mais “molecas” também… Rola essa pressão de ser “adultinha” desde cedo, o que eu particularmente sempre achei um saco.

    • eu concordo completamente com vc, livia!
      bjbj

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