o último pedaço de bolo
enquanto a conversa se desenrolava alegremente na sala, eu, sentado diante do último pedaço de bolo que sobrara no prato, não conseguia me concentrar no papo.
era um pedaço de bolo gordo, negro, macio, apetitoso. Eu tentava me desvencilhar da sedutora guloseima. Olhava para o teto, para algum ponto neutro da sala; procurava pensar em algo insólito: na Sandy fazendo sexo anal.
em vão. De nada adiantava. O pedaço de bolo continuava ali, chamando a minha atenção, salivando a minha boca, pedindo para ser devorado: “me come! me come! me come!”
inquieto, comecei a suar frio. A vontade de me lambuzar todo com aquele último pedaço de bolo era tanta que eu sentia o meu estômago estrondear. As mãos tensas, agarradas uma na outra, contorciam-se. Eu quase babava. Resolvi, então, quebrar o protocolo e me servir do último pedaço de bolo.
fodam-se os bons modos!
aliviado com a minha decisão, me ajeitei no sofá e, quando me preparava para pegar o pedaço de bolo da maneira mais natural possível, sem ser notado pelos outros, o desgraçado do moleque foi mais ágil. Surgiu de repente na sala, catou o pedaço de bolo sem nenhuma cerimônia e o enfiou quase inteiro em sua boca enorme, gulosa, miserável e cheia de dentes.
pensei que fosse enfartar. Fui dominado por um ódio profundo e, por pouco, não corri atrás do moleque para reaver o meu pedaço de bolo roubado.
fui embora me sentindo o pior dos seres humanos. Duas vezes culpado: por ainda salivar por aquele pedaço de bolo e por ter amaldiçoado o moleque filho da puta.
ai, ai… quem foi o imbecil que inventou que é feio comer o último pedaço de bolo que sobra no prato? Quando não é Deus a proibir o nosso gozo, somos nós a inventar regras de etiqueta que só fazem a gente passar vontade.