Autoconhecimento

Nota ao leitor: todos os personagens desta crônica são menos fictícios do que deveriam ser.

Quando eu me mudei para os Estados Unidos, deixei toda minha herança para minha irmã doze anos mais nova, a Amanda. Ela herdou quase todos os meus discos de vinil, uma coleção de livros, algumas roupas e talvez uma caixa de O.B.s.

A Amanda foi o mais próximo que eu tive de ter uma filha. Passei inúmeras tardes ajudando a menina com lição de casa, levava à festas de aniversário, jantávamos juntas, eu ensinava ela a cantar Toy Dolls e Ramones, e em troca ela fazia xixi na minha cama e quebrava minhas coisas.

Quando retornei ao Brasil para uma visita, a Amanda estava lá no aeroporto me esperando. Fomos pra casa, e foi aí que eu percebi que havia alguma coisa de errado com ela.

Olhei bem pra cara da minha irmã e indaguei:

Eu: Amanda, você tá loira.

Amanda: Não, eu sempre fui loira.

Eu: Não, não. Você está mais loira. Você pintou o cabelo?

Amanda: Ah, então, só fiz umas luzes.

Eu: Hm. E cadê minha coleção de vinis?

Amanda: Encaixotada.

Eu: Você não quis nenhum, huh?

Amanda: Não, não. Tem mp3 agora, né Carol?

Eu: Hm. E os livros?

Amanda: Ah, não sei.

Eu: E o que é aquele pano de oncinha pendurado na porta?

Amanda: Ah, é meu vestido pra festa de aniversário da Má.

Eu: A Má?

Amanda: É, minha amiga Mariana.

Eu: Hm. Mãe! Mãe, vem aqui!

Mãe: Que foi, filha?

Eu: Você tem conhecimento sobre o desinteresse da Amanda em coisas legais? A menina não lê, não escuta discos de vinil, usa vestidos de oncinha…

Mãe: Amanda, eu acho que é hora de você se abrir com a sua irmã…

Amanda: Ai mãe, mas a Carol não tá preparada…

Eu: Preparada? Pra quê? Agora fala!

Mãe: Filha, sua irmã é piriguete.

Amanda: Sim, eu sou piriguete.

Eu: AAAAAAAAAAAAAAAHHHH!

Amanda: Falei que ela não tava preparada. Agora aguenta o discurso pseudo-liberal dela…

Eu: Não, Amanda, calma! Isso é uma fase! Aposto que é essa tal de Má aí que você tá andando… Você não é assim. Eu te criei na mamadeira do Black Flag, no feminismo, na revolta adolescente, nas botas Dr. Martens…

Amanda: Irmã, piriguetismo não é opção. Eu lembro dos seus ensinamentos, dos seus esforços… Mas a verdade é que… Eu sempre fui piriguete, desde pequena. Eu só quero ser livre pra ser quem eu sou!

Mãe: Carol, aceite sua irmã e ame-a assim, como ela é. Piriguetismo não é doença, filha.

Eu: Não! Nunca! Não nesta família! Não depois de tudo que eu fiz por essa menina!

Amanda: Você não entende, irmã! Essa sou eu! Uma pessoa que sente prazer em postar centenas de fotos de biquíni no facebook, em usar vestidos curtos com saltos altos e em ser loira. Eu não sou você! Eu não ouço Queen no vinil, eu me jogo em um mp3 de sertanejo! Eu não leio Kafka, a Revista Nova é minha Deusa! E, já que estamos falando nisso, o cachorro comeu seu pôster do Malcolm X.

Eu: AAAAAAAAHHH! AAAAAAAAAH! Não o Malcolm! AAAAAH! EU NÃO AGUENTO TANTA DESGRAÇA NUMA FAMÍLIA SÓ!

Meu pai chega em casa.

Pai: Mas o que está acontecendo aqui, hein?

Mãe: A Amanda saiu do armário pra Carol.

Pai: Ah. Deixa eu adivinhar: a Carol tá tendo chilique porque a irmã é piriguete?

Mãe: É, já era de se esperar, né?

Pai: Carol, senta aqui. Deixa eu te explicar uma coisa…

Eu: (com lágrimas nos olhos) Fala, pai…

Pai: Filha, veja bem. Eu sei o que você está passando. A Amanda é como uma filha pra você, mas acredite: ela é minha filha, e eu sofro em dobro. Assim como eu sofri com você, porque afinal, eu tenho um Q.I. extraordinário, sou engenheiro e inventor. E olha pra você: ainda não saiu da continha de dividir com vírgula, nunca lembra que o expoente vem antes do parênteses, ficou de recuperação a vida toda, só passou em química no colegial porque eu fui lá mentir para o seu professor que sua mãe tinha morrido e você estava em uma fase atormentada, e você também…

Eu: Tá, tá… Já saquei! Chega!

Pai: Mas eu tive que aceitar suas limitações intelectuais, e entender que não ser muito inteligente não é uma escolha.

Eu: Verdade…

Pai: Você vê, filhos são projeções egoístas dos pais. Eu queria que você fosse São Paulina, cientista, talvez até astronauta, mas você se tornou só uma corintiana, violinista frustrada com meio diploma em cinema. E eu te amo mesmo assim. Você odeia matemática, mas não é porque pensa que a matemática é má ou nociva, é porque você não entende. Dado este fato, você não entende o piriguetismo, por isso a revolta contra sua irmã. Nestas horas, pense com a razão, filha. A razão.

Eu: Ai, você está certo!

Pai: Eu sei. Já te falei que tenho um dos Q.I.s mais altos do Brasil e que inventei um robô que…

Eu: Já, já… Chega.

Pai: O ódio pelo diferente vem do desconhecimento, daquilo que… Você tem alguma maconha aí?

Eu: Tenho.

Pai: Acende aí. Faz tempo que não tenho um dia de paz. Moro em uma casa com uma mulher e uma piriguete.

Eu: Machista.

Pai: Não. Racional.

Eu: Pai, eu realmente não entendo porque maconha ainda é ilegal…

Pai: Olha, pra ser sincero, do jeito que as coisas andam com a sua irmã, estou mais preocupado com a legalização do aborto…

Eu: É, você tem razão.

Pai: Eu sempre tenho razão. Aliás, você quer ver o meu novo robô? Ele solta papel picado em estádios de futebol. É pra copa!

Eu: Honestamente? Não.

Pai: Ah… É, às vezes eu me empolgo e esqueço desse seu desinteresse em coisas legais.

Eu: Fuma aí e vamos assistir Enemy Mine.

Pai: Ok.

6 comments
  1. Já passei por isso, só que ao contrário.
    A piriguete é a mais velha…

  2. Formidável. Ri à beça. Boa, Sbaile!

  3. Sensacional…muitas risadas durante o texto…e comparações com quem conhecemos são inevitáveis…

  4. Miguel disse:

    É muito longa a linhagem das periguetes…
    Inicia com Eva, a primeira mulher e… a primeira periguete. A prova disso é que, mesmo sendo a única mulher no mundo, vivia pelada ou usando só uma folhinha de parreira. Passa pela Cleopatra, que quando não estava cuidando da beleza, estava traçando imperadores romanos. E chega aos dias de hoje com milhões de piriguetes espalhadas por todos os cantos do mundo.
    Conforme-se e cuide-se, o periguetismo é um vírus muito contagioso.

    PS: Imperdoável mesmo foi ela ter encostado os vinis.

  5. Joema disse:

    Divertido o texto. Se funciona pra voce uma relacao pai e filho com maconha, parabens. No meu caso, embora seja tolerante e respeitadora das diferencas como mola propulsora do mundo, ficaria decepcionada se meu pai tivesse fumado maconha comigo. Nao me leve a mal, mas tem muitas pessoas que nao param na maconha. Na minha profissao, tenho visto pessoas dilaceradas por drogas. Nao acho isso engracado. Mas respeito o seu direito de dizer que funcionou pra voce.

    Grata,

    Joema.

  6. Nuna disse:

    Nossa eu ri muito aqui…sua família é demais, as participações do seu pai são impagáveis!

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