Por Shaonny Kethery- Lembranças das madrugadas de criança – PARTE I

Coluna da autora convidada Shaonny Kethery, para saber como colocar um texto no próximo domingo, clique aqui.

Sempre fui uma garota solar e diurna. A claridade do dia me atraía mais, com suas infinitas possibilidades, do que o escuro da noite, vazio, silencioso, carente de agitação. Entretanto, o fascínio pela madrugada passou a me rondar de uns tempos pra cá. Pensando bem, sempre tive uma relação ambígua com este período obscuro da noite. Da minha infância, no sul de Minas Gerais, lembro-me de como eram atormentadas as minhas madrugadas. Deitada sozinha no quarto, na casa centenária de meus avós, eram muitas as noites em que eu passava acordada, sem conseguir dormir, me revirando de um lado para o outro na cama. Me lembro de como eram aterrorizantes as badaladas do imenso relógio cuco da sala, todo trabalhado em madeira de lei, e o único habitante da casa que não fazia silêncio àquela hora tão alta. A cada nova badalada, minha aflição aumentava. Eu percebia que as horas iam passando e eu estava ali, sozinha e insone. Meu temor era muito grande. Do medo bobo de criança, aquele clássico, do escuro, eu descobri durante as minhas madrugadas o pior dos medos humanos. O medo da solidão. E a madrugada é particularmente cruel com quem tem esse medo. Afinal, quem, em sã consciência, trocará seu sono repousante para compartilhar com você uma noite em claro? Nem mesmo os pais, os irmãos, os melhores amigos. Na madrugada, todo mundo está só. Esta foi a primeira das minhas grandes descobertas de criança. Depois viriam outras.

Voltando às minhas primeiras sensações. As madrugadas na casa dos meus avós, que já abrigou sete gerações diferentes da família Mendes, eram também marcadas pelo badalar longínquo de outro relógio. O do Santuário do Sagrado Coração de Maria, uma igreja antiga situada ali nas redondezas. Ao ouvir aquele som distante, eu sempre me punha a pensar que mais alguém estaria acordado àquela hora, apenas para ter o trabalho de tocar aqueles sinos tão pesados. De certa forma, isso me confortava. Talvez por isso, por essa cumplicidade que eu tinha com um certo sacristão que morava por perto, algumas das minhas madrugadas foram dedicadas à uma estranha devoção religiosa, estranha porque eu era uma menina de apenas seis anos.

Durante o dia eu não freqüentava o catecismo, que fique claro. Também não ia à missa aos domingos, pois nunca gostei das omnias dos padres, que eu achava insuportavelmente longas. Mas, durante a noite, não tenho certeza se por medo ou por cumplicidade com o tal sacristão (que, nos meus sonhos infantis, eu imaginava se tratar de um menino um pouco mais velho do que eu, que se punha ao trabalho árduo de fazer ressoar os sinos por todo o bairro), passei a ser uma devota, pra não dizer beata.

Eu montava um altarzinho com um crucifixo dourado da minha avó, um terço, uma imagem de Maria segurando o menino Jesus nos braços, uma vela, e me punha a rezar as orações que, com muito custo, tinha decorado dentro da cachola. Tal como um padre, eu celebrava minhas próprias missas imaginárias. Na ausência de vinho, fazia a eucaristia com o que estivesse à disposição na despensa da minha avó: maguari de uva ou maracujá, café com leite, suco de laranja, chá de camomila. Mas com o corpo de Cristo eu era metódica. Sempre o bom e velho pão francês. Afinal, é pecado brincar com o corpo de Cristo. Apenas uma vez, na ausência do pão, tive de representar a hóstia sagrada com um pedaço de banana nanica. Depois, passei a tomar minhas precauções durante o dia, sempre guardando um naco de pão escondido no bolso para as omnias secretas de mais tarde.

Minhas missas não duravam muito. A bem da verdade, eu não era doutorada em religião ou filosofia e, assim, não tinha muito o que pregar. E meus fiéis também eram poucos. Apenas os retratos – bastante amedrontadores – de meus bisavós, que já eram mortos há muito tempo e que eu nunca havia conhecido. Como aqueles olhares me metiam medo, meu Deus! Pra ser sincera, eles me causam mal estar até hoje, passados vinte anos desde as minhas primeiras missas do galo diárias. Aqueles retratos não pareciam ser de pessoas que estiveram vivas um dia. Pra mim, eram retrato de gente morta mesmo. Como se alguém tivesse conseguido captar os espectros de meus antepassados no além e depois passá-los para a película fotográfica. Mais do que fiéis das minhas missas, eles eram testemunhas do meu pecado. Afinal, celebrar uma missa às escondidas, com as tralhas religiosas da minha avó, soava como brincadeira altamente pecaminosa pra mim. E eu nunca confessei esse pecado a ninguém, nem mesmo a um padre, com medo da punição que ele iria me impor.

Mas uma coisa é certa. Minhas missas serviam mesmo para espantar meus fantasmas, tanto os imaginários, os espíritos dos parentes mortos que eu julgava habitar ainda na casa, quanto os fantasmas reais, como a recente separação de meus pais e a ida de meu pai que, naquela época ainda era meu herói, para um país longínquo, de língua e costumes estranhos e situado do outro lado do mundo, onde eu não sabia dizer ao certo, pois nunca fui boa em geografia (até os doze anos, eu sempre achei que a Alemanha estava situada onde fica a ilha de Madagascar, sabe-se lá por que). O fato é que, só depois de celebrada a minha missa, bem após o Corujão, eu podia ir dormir tranquila.

Enquanto a cidade dormia…

Os comentários estão fechados.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 166 outros seguidores