A primeira viagem do resto de nossas vidas

Caia de joelhos e agradeça aos céus, amiga!: Você desencalhou! Quem disse que não chegaria a sua vez? Anos na fila, comendo o pão que o diabo amassou e sendo comida, muitas vezes, pelo próprio.

Aleluia! Você mudou seu status no Facebook. Dog days are over! No more lonely nights! Tá tudo dominado!

E neste final de semana, vocês vão pela primeira vez viajar juntos. Casa de campo da família dele, só os dois! Avance 5 casas, sua linda!

Tá tudo indo muito bem. Não ponha tudo a perder agora. Calcule todos os seus movimentos. Não seja estranha. Que ele continue assim, te achando linda e perfeita.

Primeira viagem com um namorado novo é sempre esse pesadelo, essa tensão. E o medo de ser vista sem maquiagem? E o medo de dormir pesado demais e roncar ou babar? Toca acordar um pouquinho antes do moçoilo pra dar uma limpadinha na remela do olho, uma ajeitadinha no cabelo, se colocar numa posição sexy-natural-angelical e fingir que ainda ta dormindo. Assim.

Come pouco pra não parecer uma demônia da Tasmânia atacando o prato e muito cuidado com os alimentos que provocam gases. Porque, né? O maior medo nessas ocasiões é que ele descubra verdades terríveis a seu respeito, como… que você faz pum, por exemplo.

Péssimo, hein? Não, não queremos que ele pense isso de você!

Aliás, banheiro é um capitulo à parte quando o assunto é a primeira viagem do casal. Porque, seguindo o raciocínio, se ‘intimidade é uma merda’, para nós, mulheres, falta de intimidade é prisão de ventre.

Não que você se importasse com isso. Não. Poderia tranquilamente passar o resto da vida sem ir ao banheiro. O problema é: prisão de ventre = pança. E, pança, Vade Retro!

E como se adiantasse alguma coisa, num ato de desespero você manda um sms pra melhor amiga: “Não consigo fazer coco com esse cara aqui!”

E recebe um: “HAHAHAHAHAHAHA!” como resposta. Solidariedade, cadê?

Bom. Já no domingo, a grande chance. Ele se oferece para ir à padaria te comprar cigarros. Ufa!

O tempo é curto! Você tem que escolher apenas uma das urgências: número 2? Vasculhar as gavetas do moço em busca de evidencias sobre sei lá o que? Ou vistoriar o histórico do notebook dele que está lá ligadinho dando sopa? (sim, porque ficar sozinha no território do objeto da sua afeição, sempre desperta a Mata Hari adormecida em você…) Hein? Hein? Rápido! É preciso maximizar o tempo; arranca a gaveta do criado mudo e senta na privada com ela no colo! Isso! Dois coelhos com uma cajadada só.

Carregador de celular. Trident azul. Notas fiscais. Documentos. Moedas. Caixinha de óculos. Fones de ouvido. Não… nada de mais…

Corre! Joga um Bom-Ar no banheiro e bota a gaveta de volta no lugar!

Volta ao banheiro pra dar uma conferidinha e encontra a necessarie do moço aberta. Hummm… remédios! Melhor dar só aquela checadinha nas bulas. Só por desencargo. Afinal, vai que um dia vocês resolvem ter filhos, né? Sempre bom já saber de toda a verdade logo.

Não. Nada de mais…

Barulho de chave na fechadura! Corre! Senta no sofá e pega um livro. Isso! Agora além de serena você parecerá inteligente. Gênia!

Amorzinho pra lá, amorzinho pra cá. Tá acabando. Hora de voltar.

Coloca no carro um jazzinho pra impressionar, me esconde esses CDs da Beyonceé, pelo amor de Deus!

Já na porta de casa. Se despedem e a vitória é declarada: “Você é perfeita!”. Você sorri, dá um beijinho, e se afasta lenta e graciosamente pensando: “Me dá mais um mês, meu bem…”

Nota da autora: Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência.

6 comments
  1. Nuna disse:

    Hahahahahahaha Sensacional!

  2. “E aí ele te liga falando que seu O.B. entupiu a privada da casa de campo dos pais dele e pra que, da próxima vez, você embrulhe em um papel e jogue no lixo” – Mas isso nunca aconteceu comigo. Só com uma amiga minha, que totalmente não sou eu mesma. Porque eu não menstruo, tipo… nunca.

    Excelente texto. É bem assim mesmo! Nunca vi um começo de namoro tão bem definido.

    • “Gente que menstrua”… credo… ;)
      Obrigada, Carolina!

  3. Genial, com o perdão da redundância e do injustificado atraso na leitura.

  4. Aeeeee!! Tava ficando deprimida já!

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