Retrospectiva 2011
A ideia inicial era lambuzar o espaço aqui com um pouco de política. Olhei em volta, senti o drama, desisti. A seguir, pensei em algo confessional, mas faltaram coragem, novidade e conteúdo. Só haveria ruminações queixosas sobre 2011, este ingrato. Mesmo assim, para não virar a crônica do cara sem assunto, vamos então a uma retrospectiva do ano, à moda da casa, tirando da parada Steve Jobs, Osama e Kadafi. Não haverá critério jornalístico. Aliás, não haverá critério de qualquer espécie, mesmo porque as ocorrências abaixo carecem de confirmação. Ainda mais imprecisa, mas com boas fontes, é a história do jovem escritor em Nova York. Segue resumida, com algumas omissões, embora ocupe dois meses deste balanço de coisas nebulosas e sem importância.
Janeiro – No aniversário de 18 anos, o caçula da família ganhou uma carreira política de presente – kit com pesquisa, temas da campanha, fontes de financiamento e um jingle de Robério do acordeom.
Fevereiro – O jovem escritor trocou o carnaval por um recarregamento lítero-existencial, um passeio creative – writing, numa universidade norte-americana. Escolheu Columbia e seu contorno, Manhattan, porque é mais jovem do que escritor, e queria algum movimento. Nada de cidadezinhas, mesmo as descoladas. Logo no primeiro dia, num desses esbarrões de corredor, cuja descrição comeria aqui uns dois parágrafos, conheceu a moça que provocou um abalo sério em sua vida. Ela nasceu no Brasil por acaso, mudou-se para os Estados Unidos ainda bebê, mas mantém um pé na língua portuguesa. Bonita, meio pra linda, mora com o pai, um professor de literatura, amigo – ou, vá lá, conhecido – de meio mundo. O professor, desses com pós-doutorado, batia altos papos com o falecido Edward Said e com Christopher Hitchens, também morto, embora esteja vivo, mas isso é outra história. Leiam a autobiografia Hittch-22, que é melhor do que tudo isso que você está lendo agora.
Março – Bom. A história continuou em março. O professor gostou do jovem escritor, mas gostava especialmente das amigas da filha, com destaque para uma de 30, loura e inteligente. O scholar, um pouquinho passado dos 50, era viciado em sexo e em literatura, nessa ordem, e praticava as duas obsessões numa freqüência diuturna. A filha, a mesma coisa e, para sua própria surpresa, o jovem escritor descobriu-se um Príapo naquele universo. No final do mês, quando tudo caminhava num ritmo de desencanações, sexo e literatura – as coisas que valem a pena, segundo concordavam o professor, a loura, o jovem escritor e sua namorada linda – desabou um enorme porém naquele apartamento da 19th Street: exames de DNA, feitos por um problema de saúde do velho, revelariam que o professor não era sogro do jovem escritor, mas seu pai. A namorada, irmã. O jovem escritor caiu em depressão, mas não perderia a oportunidade de escrever sobre aquilo. “O Acaso” sai no Brasil em 2012. Pena ter abusado tanto das influências de Nelson Rodrigues. Não aguentará críticas negativas como suportou o incesto.
Abril – Alberto perdeu o emprego em pleno espetáculo do desenvolvimento. O País ia bem, por que ele ia mal? Resolveu a questão à antiga, com veneno de rato. Falta de criatividade também foi a causa da demissão.
Maio – Ela chegou. Movida a 24 anos, passagem só de vinda, R$ 250 na bolsa, desceu no aeroporto de Guarulhos disposta a enfrentar a metrópole. Nenhum emprego à vista e nenhum lugar para morar. Mas era decidida. Em uma semana estava casada com o comandante do voo 1731, Campo Grande – São Paulo.
Junho – Um homem, aparentemente louco, pegou um ônibus e na hora de pagar a passagem puxou do bolso uma tapioca. Nela estavam dinheiro e documentos. O cobrador ficou na dele. Não disse nada. Era um passageiro antigo. Nunca passou disso.
Julho – O guia de 24 anos turístico seguia entusiasmado com sua província, explicando ao pequeno grupo que ali, onde hoje é o Paço Municipal, se reuniram os heróis da transformação do distrito em cidade. O cosmopolita disse baixinho: “que lugar de merda”. Não passava pela cabeça do rapaz que o mundo desdenhasse aquele acontecimento único, que deu aos cidadãos locais o título de munícipes, e, além disso, é a sua terra e a de seus avôs, onde ele nasceu, cresceu e aprendeu na escola pública que tais fatos são dignos de orgulho, não só para o pequeno estado, mas para o País inteiro. Tudo foi criado por causa daquele momento, da rua principal ao Instituto Histórico e Geográfico. Mas houve um momento em que o rapaz percebeu ainda mais desatenção do visitante, um muxoxo rápido, quando ele aludia ao desenvolvimento do perímetro urbano nas últimas décadas, com a criação de novos empregos em virtude da instalação de uma fábrica de laticínios com incentivos fiscais da Prefeitura. Aquilo era importante, por que o desprezo? “O senhor vem de onde?”, atreveu-se o guia. O cosmopolita não teve tempo de responder. Foi morto a facadas.
Agosto – O oitavo mês do calendário gregoriano produziu muitas tragédias. Algumas saíram nos jornais; outras não. Não houve notícias sobre o Homem e sua nova casa, no subúrbio. Mas foram 30 dias muito estranhos. A casa era castigada por barulhos infernais durante a noite. Não vinham da rua, mas da vizinhança. Tosses de pulmões encharcados e lamentações em línguas estranhas. Sexo solitário, seguido de berros medonhos, numa mistura viscosa de prazer, culpa e agonia da morte. Todos os sentidos percebiam umidade. Sem contar o eterno arrastar de móveis, bilhas correndo pelo assoalho, miados, gemidos de dores terminais e guizos de cascavéis. Para completar a sonoplastia macabra, a TV estava sempre ligada em programas evangélicos, cuja histeria se entrelaçava com os outros sons. O Homem mudou-se em setembro para um sanatório. As casas vizinhas estavam vazias desde 2009.
Setembro – No mês em que as pessoas sentem alívio, por que agosto já passou, houve um incidente esquisito. De repetente ficaram todos sem assunto. Silêncio absoluto na sala, mesmo com a bebida e a memória ainda viva de conversas anteriores naquela mesma noite. Ocorreu bruscamente. Não havia mais nada a ser dito. Repertório esgotado e vontade de ir embora. O mais novo levantou-se e foi ao computador. Constatou uma novidade: o problema era geral. Um blackout de acontecimentos, de idéias, de temas. Desde as 20h, não havia uma única notícia nas páginas online e já passava da meia noite. Jogos iniciados em zero a zero continuavam com o mesmo placar, nada sobre bombardeios no mundo árabe, nenhum acidente, um vazio na seção de celebridades, tudo na mesma. Nóia ou realidade? Convém levar em conta que nunca tinham fumado um daqueles.
Outubro – Ao lançar seu primeiro livro, no dia 3, o escritor foi previdente. A obra já vinha com uma resenha negativa, feita por ele mesmo, colocando defeitos estéticos em alguns personagens, reclamando que a história não rende e abusando de outros gerúndios do mesmo gênero. À saída da livraria, um crítico respeitável teve um comportamento ao mesmo tempo sincero e inadequado. “Não gostei do seu livro”, disse. “Eu também não”, respondeu o autor.
Gostei da retrospectiva! E fiquei curiosa pra saber como terminou a história do moço que descobre que o sogro é seu pai
Beijos!
Muito bom, estou esperando por Novembro e Dezembro.
Nessa piisada o mundo acaba mesmo em 2012.
Vou ler com calma.