O lutador

Eu era menino e o dia era um sábado à noite qualquer no início da década de 80. Estávamos na sala de TV, no apartamento da Alameda Santos, ainda com piso de tacos e azulejos azuis no banheiro, quando meu pai resolveu me revelar, depois de algumas tentativas frustradas, que as lutas do programa “Gigantes do Ringue” eram armadas. Meu mundo caiu de uma vez só, nocaute, tudo ficou escuro.

Fiquei inconformado. Mais do que isso, a revolta tomou conta de mim. Como é que não existiam os bons e os maus? Então tudo era de mentira e eu estava sendo enganado faz um tempão? Os golpes eram combinados, os personagens anedóticos e vencedores pré-determinados? Até aquele careca baixinho com cavanhaque, que quebrava a cadeira nas costas dos bonzinhos, não era o pior elemento da humanidade? Não era possível. E ele resolveu me contar isso por qual motivo? Já não bastava ter confirmado aquela coisa do Papai Noel? Fui embora, deixei ele lá, falando sozinho.

Revendo o filme “O Lutador” (The Wrestler, 2007) nesta semana, essas lembranças voltaram com muita força. É a história da vida de Randy “Ram” Robinson, participante de espetáculos de luta livre nos Estados Unidos, intrepretado de forma soberba por um desfigurado e assustador Mickey Rourke, trabalho que lhe valeu alguns prêmios, incluindo o Globo de Ouro como melhor ator dramático e a indicação ao Oscar.

A história é comovente, tem uma trilha sonora inesquecível – Bruce Springsteen comanda – e a direção brilhate de Darren Aronofs, do obrigatório “Requiem para um Sonho”. O drama provoca lágrimas, mas as que caíram no meu rosto estavam também carregadas de saudade e arrependimento por não poder voltar atrás de jeito nenhum e naquela sala de TV agradecer ao meu pai pelo carinho das palavras necessárias, deitar no seu colo e simplesmente ouvir o que ele tinha a me dizer.

23 comments
  1. Filipe disse:

    Legal o texto… Vou procurar assistir a esse filme… Parabéns…

    • fernandograziani disse:

      Oi Filipe, obrigado pelo comentário…tem para alugar ou baixar…abraço.

  2. Os dois filmes citados são realmente ótimos!
    Parabéns pelo post :)
    abraço

  3. Francisco Monteiro disse:

    Essa relação sua com seu pai é muito parecida com a minha com o meu. Toda vez que leio algo seu a respeito – acho que isso já ocorreu umas duas vezes -, vem-me a impressão de que eles eram pessoas bem parecidas. Deve ser aquela velha fantasia da experiência, uma vez que essas suas lembranças me remetem diretamente às minhas e ao meu grande herói lutador que me deixou em 2002. Há uma semana atrás ou menos, estava pensando na grande falha do meu pai: desde a infância, ele nunca me deu motivos para eu deixar de enxergá-lo como herói. Não houve quebra. Até hoje persiste a dúvida se não seria eu que me mantive ingênuo. Falando do filme, não o vi, mas Aronofsky com Mickey Rourke é uma mistura que me parece muito interessante! Irei vê-lo.

    • fernandograziani disse:

      Valeu Chico, obrigado por dividir as suas impressões e sentimentos. Abração.

  4. Roysson disse:

    O importante é que o seu verdadeiro heroi, o lutador que realmente importa na sua vida, foi fiel a você em todos os rouds em que vocês dois estiveram juntos. Não existem palavras de conforto ou que amenizem a sua saudade de seu pai. Tenho certeza que ele foi um grande ser humano, pois o pouco que conhecemos de você já nos revela isso. Que todo o amor guardado para o seu pai seja transferido para os seus filhos.

    Valeu, Graziani, e obrigado pelo convite

    • fernandograziani disse:

      Obrigado Roysson, foi um legado inesquecível que recebi dele. Até mais.

  5. hyung barreto disse:

    Bacana esses texto… bom não fosse voltar ao passado e sim só viver um replay….

    • fernandograziani disse:

      É isso. Queria muito um replay, só mais um.

  6. fernandograziani disse:

    Obrigado Rodrigo, valeu demais.

  7. Cesar disse:

    Nunca vi esse filme, mas agora fiquei com vontade de baixar.

    • fernandograziani disse:

      Manda bala…rs

  8. Germano disse:

    Antes de conseguir comentar, tive que respirar muito fundo para poder conter as lágrimas, afinal de contas, para quem também tem muitas histórias inacabadas ou desencontradas com o pai, o texto do Grazas tocou fundo. Aliás, tem horas que eu penso que nada poderia ser mais útil que um “Delorean” do Dr. Brown…valeu por mais este presente, Grazas!

    • fernandograziani disse:

      É foda, Germano. E nós sabemos quanto. Abraço.

  9. donluidi disse:

    A sua última frase mostra a grandeza de um homem. Também via luta livre na TV e adorava mesmo sabendo que a luta era combinada.

    • fernandograziani disse:

      Hahahahaha…continuei vendo tb, mesmo depois de saber de tudo…

  10. Lyvia Rocha disse:

    Ai..Graziani,que tocante esse texto.Me lembro também de muitas coisas que meu pai deixou para mim…emocionante demaiis.Valeu por compartilhar essas experiências conosco.

    • fernandograziani disse:

      Valeu Lyvia, força aí.

  11. Papai (que também já faleceu) me ensinou que essas lutas eram combinadas, mas também me ensinou o amor por elas. Assisto até hoje e me divirto bastante.

    Parabéns por mais um bom texto, e volte a assistir. Diversão pura.

    • fernandograziani disse:

      Obrigado Celso, agradeço por você gastar seu tempo lendo o site. Valeu demais.

  12. Alexandre Militão disse:

    Todos nós que tivemos (os que ainda tem também), experiências assim com nossos pais, temos que guardá-las em um espaço muito valioso dentro de nossa mente, pois sempre que nos sentirmos um pouco orfãos é só lembrá-las para que automaticamente apareça em nossos rostos um sorriso de felicidade e saudade e para que venhamos a sentir aquele abraço imaginário dado pelo primeiro super-héroi de nossas vidas. Valeu Graziani!!! Isso é sensibilidade e sentimento a flor da pele. Muito bom !!! Abraço.

    • fernandograziani disse:

      Alexandre, o bom seria se o imaginário virasse real, de novo. Mas não são assim as coisas. Obrigado por sempre aparecer por aqui. Valeu.

  13. Isaias Soares disse:

    Parece que muitos dos que comentaram já viram o pai partir, como aconteceu com você Fernando. Não vou fingir que sei ou imagino o que vocês todos sentem, mas vejo a tristeza e saudade no olhar da minha esposa, que perdeu a mãe há quase cinco anos, quando pega o telefone pra ligar pra ela para contar uma novidade (quando soube que estava esperando nossa filha, por exemplo), e só ai lembra que ela se foi. Seu texto, além de me lembrar o samba “Naquela mesa” que Sérgio Bittencourt escreveu para o pai Jacob do Bandolim, me faz temer o dia que terei que lembrar que meu pai se foi. Muito bacana! Abraço.

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