Pra não dizer que não falei de amor
Já faz uns dias que eu bati na mesa, assim como um caminhoneiro bêbado que acaba de ganhar um jogo de truco, e gritei divóóórciooooo!
Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele. E nós ficamos lá, né? Dois idiotas. Dei aquele grito libertador de She-Ra, mas a verdade é não fiz porra nenhuma desde então – porque eu sou pobre e ainda preciso pensar em uma maneira de tirar o máximo de dinheiro que conseguir dessa relação, sem que nenhum de nós precise se prostituir.
O resumo é: nós somos dois seres humanos tão insuportáveis que um já não aguenta mais o outro.
E aliás, pra você que não sabe, casamento é isso: você não suporta seus próprios defeitos, então você arruma um pobre coitado qualquer que ature esses defeitos por você. Em troca disso, você aguenta os defeitos dele.
O segredo aqui é trocar os seus defeitos por defeitos menores.
Por exemplo, eu sou altamente depressiva. Troco depressão por um cara que seja bagunceiro, porque já que eu sou depressiva mesmo, quem liga se a casa estiver uma zona? Eu não ligo, contanto que ele não ligue pra crises histéricas.
Agora, um cara com problemas de, vamos dizer, alcoolismo. Talvez seja bom se ele encontrar uma mulher infiel. Enquanto ele bebe noite a fora, ela sai com algum cara que ainda esteja sóbrio pra fazer sexo.
Os defeitos têm que se encaixar. Sacaram? Isso, meus caros, é o sagrado matrimônio.
-Ai Sbaile, sua tosca! Você só fala isso porque o seu casamento não deu certo, e agora você é um ser humano amargo que morre de inveja de casais felizes.
Sim. Isso é totalmente verdade. E por falar nisso, você, meu amigo, minha amiga, você que se encontra em um início de relacionamento feliz, você que acredita no amor depois da primeira conta conjunta, você que é casado há vinte anos e ainda tem vida sexual ativa…
… O mundo te odeia. Tenha consciência disso.
Mas apesar de eu ser depressiva, amarga, neurótica, insuportável e invejosa, eu ainda tenho a capacidade de amar. Sim, me resta isso.
Eu vivi uma das histórias de amor mais legais do mundo. Mas não, não, não… Não dessas que vocês estão pensando.
Quando eu era bem pequenininha, minha mãe me falava que eu era o maior empecilho da vida dela (ela é uma linda!). E meu pai, por sua vez, resmungava alguma coisa sobre a performance do Raí na seleção.
Mas aí eu conheci minha avó Zeni.
Minha avó Zeni não me falava nada que não fosse mágico ou fantástico. Ela me deu um livro do Pequeno Príncipe depois assistir ao meu protesto, aos oito anos, quanto a Meu Pé de Laranja Lima.
- Não gosto de ler, odeio livros e odeio árvores!
- Meu Pé de Laranja Lima é um saco mesmo, Carol. Toma. Leia esse aqui. Esse é legal.
E em poucos dias, ela era o Pequeno Príncipe e eu era a Raposa.
- Vai, vó. Lê a sua fala. Você é o Pequeno Príncipe.
- De novo?
- Só mais uma vez. Só mais uma!
E do dia em que eu a conheci em diante, éramos assim com tudo. Ela era o John Lennon, eu o Paul McCartney. Ela era o Romeu, eu o Mercúcio. Ela era o Capitão Kirk, e eu o Spock.
E eu nem sabia que aquilo era amor. Na verdade, eu acho que nem tinha entendido sobre os diálogos da Raposa e do Pequeno Príncipe até que eu recebi uma ligação dizendo que minha avó estava morrendo.
Cheguei na casa dela depois de doze horas de voo. Ela não chorou, nem eu. Coloquei minha cabeça no colo dela e comecei a conversar:
- Lembra quando de quando você me levou pra ver a exposição do Monet?
- Lembro. Você ficou fascinada, quis pintar depois disso, sujou a casa toda, foi um horror.
- Haha! É verdade. Eu lembro disso. Lembra quando eu fazia você ler todas as falas do Pequeno Príncipe?
- Lembro. E você vê? Agora eu sou o Pequeno Príncipe de verdade. E você vai ter que ser a raposa.
- Como assim?
- Porque agora eu vou embora. E você vai ter que ficar.
E foi então que eu desabei em choro. Mas ela não.
- Vó, eu queria que você ficasse comigo pra sempre.
- Ah, eu vou ficar. – ela respondeu, apontando pra minha cabeça.
E ali, aos vinte e dois anos, eu tinha descoberto o que era o amor. Não amizade. Amor. Minha amiga estava indo embora, mas o amor continuaria ali pra sempre. O amor que que não julga, nem se entristece, nem é egoísta ao ponto de sentir saudades. O amor que se basta. Aquele descrito por Thomas Mann, porque afinal “É amor, não a razão, que é mais forte que a morte”.
E assim, minha melhor amiga morreu. E eu fiquei.
Logo depois de pedir o divórcio, eu caí em mim e abracei meu marido. Ele chorou, eu não.
- Mike, você vai ter que ser forte, tá? Porque eu vou embora, e você vai ficar.
- Eu planejei passar a vida toda com você.
- Ah, mas eu vou sempre vou fazer parte da sua vida. Eu amo você. A gente vai sobreviver.
- Eu sei. Eu sei. Eu também amo você.
E hoje ninguém me tira da cabeça que isso, e não um casal feliz numa gôndola em Veneza, é a definição real do amor.
Agora…
… Casamento continua sendo só uma troca de defeitos entre duas pessoas frustradas.
PS – Lembrei de uma coisa: você que é preconceituoso e homofóbico, aqui vai uma dica: lute pela liberação do casamento gay. Acredite, é a maior arma contra sexo gay.
Ca-ra-leo, Sbaile. Nunca achei nem acharei definição melhor para o amor e o casamento que a sua!! Perfeito.
“Love and marriage go together like a horse and carriage”? Pffff! Sinatra sabia era nada.
Beijo, Kiti!
Não devia ter acessado hj o malvadezas, hoje é um dia daqueles que textos como o seu me fazem querer chorar! E o foda é que eu to no trabalho, se começo a chorar o povo daqui vai achar que enlouqueci de vez!
Lindo demais!
Bju malvadeza do meu coraçón
Engole o choro! (seus pais te falavam isso? Odiava quando me falavam isso. Repressão infantil me fez ser assim. Ô vida!).
Obrigada, sua linda. Beijão, Mariana!
Excelente Carolina muito bonita a sua relação com sua avó…
Obrigada, Donluidi. Beijo!
Sensacional Carolina! Chute na canela com estilo! Parabéns!
Muito obrigada, Ronan. Mas o chute não foi pra doer, então espero que não tenha doído.
Beijo.
Ui, doeu fundo!
Fodástico!
Ih, doeu na Luciana. Calma, Luciana, que dor de amor é sempre boa
Beijo.
Dois dias depois da morte da minha avó vc publicou um texto sobre a sua no seu blog. Eu nem cheguei a comentar, mas agora vc fez de novo! rs
E minha avó foi a pessoa mais doce e mansa que eu conheci. Por isso achei lindo o jeito que vc falou da sua.
E a sua definição de casamento tb foi excelente.
BJO!!
Avós, essas lindas. Ouvi casos de avós que tinham satanás no corpo, e acho tão difícil de acreditar. Minha impressão é que avós são todas umas fofas.
Ah, e casamento… bom, nem vou comentar mais sobre este assunto. Haha. Beijo, Lu.
eu falo e repito: vó é a coisa már legal do mundo!
E não é? Tô aceitando até avó dos outros agora que a minha já foi.
Beijo, Antonio.
Muito bom o texto, me emocionei
Valeu, Camila.
Beijo!
:’(
Texto com a dose de desilusão diária que eu ainda não tinha ingerido hj… (Té parece que ainda me desiludo).
E ainda me fez rir do P. S. Vc é boa, moça.
Para desilusão e pessimismo, aperte aqui.
Será que casais gays que moram há 20 anos juntos ainda fazem sexo? Eu penso nessas coisas, mas depois fico com medo de saber a resposta e ela ser “sim”, aí vou ter mais inveja ainda.
Beijo!
Putz, texto fodástico. Não superou o do Caio Armando Pinto (mas poucos superarão, eu amo muito essa crônica), mas sem dúvida ficou no top 5. =)
Carolina, queria fazer uma pergunta idiota. Os textos que você se coloca como personagem (tipo o da Crise Eterna e agora este) são baseados em fatos reais ou é pura ficção?
Curiosidade mesmo, porque achei de uma sensibilidade incrível este texto.
Só vi esse comentário agora. Então, eu tento manter um mistério sobre isso. Mas esse, especificamente, é verdade. Tudo que escrevo sobre mim mesma é baseado em fatos reais. Acho que até o Caio Armando Pinto sou eu (ai, que horror admitir isso!).
Que bom que você curtiu. Fico feliz de verdade. Beijão!
Eu assino embaixo. Casamento é a tentativa de compatibilizar neuroses. E depois, você faz filhos a coisa vira um outro foco e a vida segue sempre em frente, o que se há de fazer? Amor é isso aí que fica, mesmo. Lindo!
Lindo é você. Beijo, Randall.
Carolina, porque será que gosto mais dos seus textos no seu blog pessoal, apego ou implicância? Não o anbandone please…
Não entendi.
Puxa, Beolá, não sei. Aqui escrevo sobre outras coisas também, não só sobre mim. Meu outro blog é exclusivamente sobre mim, e acho que sou mais implicante e chata lá. Vai ver você gosta desse lado meu – o que te faz uma guerreira. Tamo junta lá e aqui.
Beijo.
Definitivamente, vc é a minha escritora favorita aqui. Adorei o texto. Me fez chorar e lembrar da relação que tinha com meu avô. Parabéns’