Ela, vinte e poucos anos

O lado mais desagradável da convivência com os jovens era o fato de não ser mais um deles. O professor, no entanto, insistia. Estava sempre nas mesas de bares com alunas e agregadas nascidas depois de sua tese de doutorado em Filosofia na prestigiosa Universidade de Princeton. Por que não procurava sua turma? O problema é que ficava entediado com colegas acadêmicos, divididos entre Fenomenologia e artroses, quase todos vovôs, em vias de embarcar na aposentadoria e, pluft, na morte. Então ele escolheu a galera, extasiado com o sorriso d’Ela, eternamente curioso em mundo que não lhe pertencia. No mais, tinha certa destreza no trato com as meninas: cuidadoso para não parecer insinuante, mas não ao ponto de ser considerado fora de cogitação para o sexo. Sonhava com um caso mais duradouro ou amor eterno. Com Ela, vinte e poucos anos.

Era agraciado com freqüentes convites para programinhas. O professor ia, quase sempre, mesmo certo que as coisas terminariam mais ou menos. Ia pelo processo em si. O apelo visual, o sorriso d’Ela, o gosto de expor suas idéias para tão seleta audiência. Vaidade. Por volta das duas da manhã, quando o jogo ficava fisicamente pesado, o som da festa abafando as palavras, ele se recolhia. Algumas vezes experimentou a continuação da balada e terminou só, num canto, sem expor-se ao ridículo de cair na pista de dança. Saia à francesa. Elas entendiam.

Ao observar que não era páreo para homens e mulheres de vinte e poucos anos que sobrevoavam sensualmente suas moças, também tomava o caminho de casa. Parecia insensível diante de decepções e constrangimentos. Simplesmente desarmava o circo. Depois, numa poltrona de couro, cercado de livros em francês (quase um clichê Hautes Études), apenas fazia um balanço de sua performance na noite sob o ângulo mais positivo. A habilidade cinqüentenária para enrolar baseados – um espetáculo diante dos olhos d’Ela – e as informações sobre bandas antigas cultuadas nos dias de hoje devem ter somado uns seis pontos em sua escala imaginária. Sem contar que passou uns bons minutos discorrendo sobre a obra de Gilles Deleuze e, de quebra, serviu fartas doses de Mario Faustino, Noel Rosa e Psicanálise. Coisinhas caras à moçada urbana com pretensões intelectuais. O abismo etário era deixado de lado, embora seu trabalho mais recente fosse a respeito da passagem do tempo, a velhice e a morte na ótica de Nietzsche.

Cuidou das dores nas costas, comprou roupas adequadas (nem pateticamente juvenis nem explicitamente “tiozinho”) e estava de volta à arena. Naquele dia, o professor teria um encontro apenas com Ela, uma conversa a dois. Melhor de tudo: marcada por Ela, sua obsessão, razão de viver etc. Parecia preparado. Andou lendo Philip Roth, “Homem Comum”, mas não se abalou tanto. Ainda se achava na idade da batalha, não do massacre. Tomou meio Rivotril para conter a ansiedade e, cuidadosamente, acomodou o Viagra no bolso esquerdo. O pequeno míssil azul só seria usado em extremo caso, alerta vermelho. Saiu cheio de esperança e desejo. Romance no horizonte.

Mas a vida no universo juvenil se desfez da forma mais dolorosa possível naquela tarde. Ela queria um emprego, uma vaga no Departamento de Ciências Humanas, nem que fosse na burocracia. Precisava de uma grana para ajudar nas despesas do pequeno apartamento onde iria morar com um namorado. O cara ganhava pouco, era músico, vinte poucos anos.

Lula Falcão

11 comments
  1. Tão intelectual… E pensando com o pipi. Nietzsche não cura amor de pica. Fica a dica.

    Muito boa e verdadeira essa crônica.

  2. Ai, tinha que ser músico?
    Adorei o texto, me levou inevitavelmente aos meus tempos de faculdade. Tínhamos um professor assim, que frequentava nossas mesas de bar e churrascos de batismos de calouros. Mas ele nunca saía à francesa: era comum carregar duas ou mais aluninhas para um estudo mais aprofundado das suas teses.

  3. Que malvadeza com o tio! Muito bom e qualquer semelhança não e mera coincidência.
    Os malvadezos estão melhores a cada dia! Adoro.

  4. Vitor Santos disse:

    Muito bom! E, sinceramente, até dessa situação haveria de ter uma saída à francesa. Pra mim, ninguém precisa d´Ela, a gente só precisa da idéia d´Ela.

    Abraço

  5. Joema disse:

    Fiquei com pena do professor… Mesmo! Pode ser ingenuidade minha, mas ontem tava lendo Hard Times da S. Beauvoir e ela dizia como aos 44 anos de idade, chorou ao sentir seu corpo aceso num romance que teve com um homem mais novo, o Lanzmann. Ela achava que depois dos 40 anos, ela nao se entregaria as possibilidades da propria sexualidade, pra nao agir de forma incongruente com a sua idade. Logico que esse pensamento dela foi desconstruido com esse romance que manteve por uns anos e nesse processo ela se ‘desconheceu”… Ainda com pena do professor, acho que essa historia poderia ter uma sequencia. Pra gente saber o que aconteceu com ele… Parabens pelo texto!

    J.

  6. Cacilda Luna disse:

    Lula, parabéns pelo tema….Poucos admitem essa realidade…Os homens que me desculpem, mas essa realidade é muito comum…Depois que passam dos 50 e, alguns, dos 60, decidem provar pra si mesmos que ainda são viris e que os cabelos brancos (o que primeiro denuncia sua verdadeira idade) não afetaram sua tonicidade masculina. Partem, então, para a luta, como se quisessem recuperar um tempo que restou na memória. Conquistar uma mulher bem mais nova e mostrar isso para os amigos é alimentar o ego da vaidade. Freud com certeza explicaria em seu tempo. E Gikovate no nosso. Mas, infelizmente, os “coroas” (sem querer ofender, como diz meu filho de 9 anos) só reconhecem seu próprio espelho. Não desconfiam que o espelho feminino, da garota de 20 e poucos, tem outro reflexo, e acabam fazendo papel ridículo. O espelho das meninas não tem espaço para Electra. A jovem de 20 e poucos quer viver o seu tempo: o tempo dos músculos das academias, dos flertes inocentes, das garupas das motos, dos tatoos, dos corações virgens, das descobertas…e não das recordações. Senhores, quem gosta de coroa é coroa. Não se enganem. Uma terapia pode ajudar a aceitar a nova realidade. Uma vez ouvi um escritor brasileiro, creio que nonagenário, em uma entrevista, falando sobre seu aniversário. E a repórter querendo enaltecer sua experência em contraponto à sua velhice…. Sabiamente, nosso poeta respondeu: “experiência é como o farol de um carro virado para trás: só serve para ver aquilo que já passou…. ” Precisa dizer mais?

  7. Rodolfo Aureliano Filho disse:

    Velho amigo Lula,
    Estás escrevendo muito,muito bem.
    Como acho incrível o ato físico-intelectual de ler dos livros impressos pergunto se tens algum plano de imprimir.
    Como dizia o Chico “A saudade é como um barco que aos poucos descreve um arco…”
    Rodolfo Aureliano

    • Rodolfo, grande prazer encontrá-lo aqui.
      Tenho um livro publicado: “Todo dia me Atiro do Térreo” – e outro em andamento. Mando detalhes pra você
      um grande abraço.

  8. Kika disse:

    Excepcional o texto. Lutar com e contra o tempo. Ah, luta mais perdida que essa não existe. Mas nós não desistimos.
    Parabéns.

  9. Muitas vezes, na minha benevolente autocrítica, achava que tinha escrito um texto do caralho e ele tava com poucos comments. Aí, um ou outro amigo falava “pô, mas o texto tá perfeito, irretocável, tem nem o que comentar…”

    Achava conversa fiada, mas é mais ou menos assim. Seu texto não expressa uma opinião ou algo a respeito, só merece uma palavra: parabéns.

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