Insanidade virtual
Era domingo, dia mundial de cura da ressaca, e a pestana que tirava tinha como meta o fim da dor de cabeça, pequena, aquela que só atinge um lado, no caso o esquerdo. A TV funcionava como sonífero, mas o jogo da tarde estava tão interessante que vez ou outra os olhos teimavam em abrir para acompanhar as cenas em que o locutor se empolgava. Meio robótico, não reagiu no primeiro instante quando o telefone ao lado do travesseiro primeiro tremeu para então tocar o tom padrão da marca do celular. Puxou o aparelho para ver quem era. Acordou de vez com o nome no visor.
Ergueu a sobrancelha, a direita, e deu uma leve hesitada em atender. Estranhou: havia oito meses que não recebia uma chamada ou mesmo falava com aquela pessoa, uma dentre as tantas com quem passara a virada do ano em meio a bebidas e farra, mulheres e pouco — nulo — sexo, e principalmente, sem desavenças. Ainda sem apertar a tecla verde, deduziu as intenções: anúncio de alguma notícia ruim ou pedido de favor. Arranhou a garganta ao tirar o pigarro concentrado e, já curioso, soltou o alô. Ouviu de volta, na ordem, a seguinte construção frasal: vogal única fechada que remete a um breque de burro, o vocativo de seu apelido e uma pergunta de nove palavras, em timbre inquisitório.
Deixou-se rir na ironia da incredulidade para reativar o modo normal da mente e da linha de pensamento rápidas. Indignou-se, de prima, não com a pergunta; é que a construção frasal não apresentava a sequência cumprimento qualquer acompanhado do vocativo, formal ou não, e a questão comum que visa saber se tudo vai bem, obrigado. Com aquela pessoa, não ia, de nada. Nem mal nem bem. Indiferente. Era a consequência natural daquela lacuna de tempo de estranha e inexplicável desaparição.
Ainda no silêncio que em outros outonos precederia o esporro sarcástico, resgatou as circunstâncias da indagação propriamente dita. Não que incomodasse, tinha todas na ponta da memória e se transpôs numa situação em que estivesse frente a frente para elencá-las usando os dedos da mão, tipo o veto a uma viagem momesca e a ligação que não veio na data do aniversário. Riu de si, agora naïve, porque sabia que a cena jamais voltaria a acontecer. Nem se importou com a voz que voltava e perguntava se estava na linha. Repentinamente, tornou a se irritar na oscilação necessária dos sentimentos numa realidade em que não se pode perder tempo.
Pensou em valores. Nos seus, porque, no menor deles, dificilmente faria o mesmo. Nos do outro, porque dali se concluía que só o considerava como mais um na lista dos muitos poucos que os numerais centenários apontavam. Nos do mundo, que enfim se rendeu ao socialismo — e que já é tratado como prioritário — e fez da maioria círculos desenhados numa rede infinita e que antecipou para já os futuros feitos de uma insanidade virtual.
No caso, era a perda de uma arroba na quantidade total a razão do brado retumbante. “Por que você deixou de me seguir no Twitter?”, e só agora, depois de quase três meses depois do unfollow, que o outro havia percebido.
Pois respondeu à altura: não respondeu. Desligou e puxou o laptop que estava ao pé da cama, e abriu o aplicativo especializado. Chegou a digitar @vaitomarnocu, riu de novo e pensou ser um @filhodaputa, deu backspace, colocou o apelido do outro, achou e clicou. Deu block e dormiu.
Tá vou ser o primeiro então, vocês não me conhecem, mas leio isso aqui de hora em hora, tipo resultado da tele-sena, e sempre fui fã do @Vitonez e os “giornos”, juntar isso no malvadezas, é fantástico, aliás baita time heim ? Parabéns a todos, e ao Victor pelo texto.
Valeu, Jean! Giorno pra você e venha sempre!
Vou comentar, pq posso ficar algum tempo sem falar com você, mas pelo menos te convido para a minha festa de aniversário. huhuhuhu. Beijos
O problema das suas festas de aniversário são os pós-festa…
Ah meu Deus! Olha, preocupar-se com isso é o fim do mundo.
Ninguém quer saber de viver a vida não? Você foi um “gentleman”, Victor.
Eu mandaria este “ser” contar os grãos de areia da costa brasileira e me deixar em paz.
E, com o título, não pude deixar de lembrar de “Virtual Insanity”, do Jamiroquai. Há um verso que ilustra o tempo em que vivemos:
“And now that things are changing for the worse”
O detalhe é que isso foi escrito em 1996… como será que estamos agora?
É melhor não pensar nisto..
Abraço!
Sim, tem trechos de Virtual Insanity, como os futuros feitos de insanidade virtual. Mas o mundo caminha assim. Daqui um tempo, a gente vai se encontrar com as pessoas via holograma.
Muito bom Victor. Agradabilíssima leitura. Bons textos são sempre prazerosos!
Só a sua foto aí do lado que tá meio estranha, hein?
Hahahaha. Zueira.
Mais uma vez, parabéns pelo post.
Abraços.
Minha foto era do tempo em que eu era modelo e…
Boa Vitão!
Sempre fino e polido…
Um abraço!
Valeu, Papito! Sempre, é um lema! Abs!
Muito legal o texto! E olha, ainda bem que eu não uso twitter…
Twitter é legal, Lívia. O problema é que muita gente fez dele meio de vida. Beijos!
Adorei o texto…dos novos malvadezos, até agora o que mais gostei.
E assim como alguém te ligou só pra saber pq tinha recebdo um unfollow, dia desses fui “dispensada” de uma amizade pelo facebook.
Quer dizer.
Sim, Dani. A questão se concentra no seguinte: na vida, aquela pessoa “deixou de te seguir” ou vice-versa?
Sim, claro. Mas fica aquela coisa: não importa se parei de seguir você “na vida”. Você tem que continuar me seguindo no twitter.
Esse meu “amigo” já tinha me dispensado na vida, mas só pareceu real quando ele me dispensou no facebook. Tendeu?
Sim, perfeitamente. É como se o virtual confirmasse o real. Um complemento válido, de integração.
Então, Victor. Li 3 vezes. Duas pela manhã e uma agora tomando cerveja. Entendi é nada.
Minto. Tudo por um #block numa ex?
E aí, Fabio! Omitirei personagens, mas digo que não foi necessariamente comigo que aconteceu, não! Ou não. Abs!
Sensacional o texto! E eu que levava esse moço à sério…tsc! Risos…
Você não Kansas de me falar isso! Hahaha! Beijão, queridona!
Clássico instantâneo!
Hahaha, boa definição, Flaviz! Abs!
Martins, gosto de seus textos, principalmente estes que retratam o cotidiano. Não esqueço daquele texto na embaixada ou aquele da da moça do WalMart. Parabéns pelo novo espaço.
Abs
Valeu, Fabricio. E olha que aquele texto foi meio ralo, confesso, mas muita gente lembra dele. E eu não lembro mais dela. Oh!…
Pingback: Insanidade virtual (via malvadezas) | Beto Bertagna a 24 quadros
Legal ver o lado “não automobilístico” do Victor Martins.
Muito bom o texto…
Voltarei sempre!