A cura pela porrada

Perdoem, sobretudo as moças, pelo tom grosseiro que este texto vai acabar adotando em determinado momento, precisamente no próximo parágrafo. Certos temas pedem. E que tema pede mais grosseria do que porrada? Não, não é uma espécie de ode à violência, não estou dizendo que TUDO na vida se resolva na base da distribuição gratuita de bicudas, cascudos e joelhadas. Falo de um tipo de porrada que aplica-se para o bom funcionamento da vida, a porrada enquanto útil ferramenta na educação de marmanjos soltos por esse mundo, quase sempre privados do convívio paterno, que se não ajudasse, orientaria o sujeito a reconhecer autoridade.

Esse tipo de porrada, tanto na infância quanto na adolescência, e são só uns tapinhas bandidos, nada mais, nunca fez vítimas fatais. No máximo, dava uma esquentada na bunda de quem levou, aquela rápida, de chinelo de dedo, e um chorinho soluçado. Pronto, passou. Segue a vida. Você podia até não saber porque apanhou, mas certamente alguém sabia. Bastava.

E aí, por volta dos 13, 14 anos, muita gente escapou de levar uns pescoções daqueles doídos, uns por obra daquela dupla infalível, Omissão paterna e Excesso de zelo materno, ou por uma feliz série de coincidências. Muita gente chama isso de malandragem – “Fulaninho é malandro, aprontou mas conseguiu escapar de uns tabefes”. Não, isso não é malandragem, mas uma combinação de senso de oportunidade com cagaço. Já vi um cara fingir uma crise de asma, numa performance memorável, só para não levar uns tapas do pai. De alguma maneira funcionou. Hoje ele mora na Ilha de Capri e se chama Deise.

Posso dizer que tive minha dose de “porrada de arrumação”, do tipo que orienta a gente. Não sem razão, devo acrescentar. Na mesma proporção, já distribuí doses várias deste poderoso remédio. A carência de tapas no pé do ouvido me incomoda profundamente. Não acho que mereça elogios, apenas fiz e ainda faço a minha parte na luta contra a carência de respeito, honra etc. Por isso tudo, deixo aqui o alerta: Se você está com dificuldades de concentração na própria vida e no trabalho (quando se tem um, é claro), preocupado se falam (QUANDO falam) sobre você ou fica se empenhando no rude trabalho de aparecer e ser reconhecido pelo que faz de ruim, sórdido, malvadinho mesmo, meu amigo, saiba que há cura para tais moléstias. E não falo de amor e piedade.

22 comments
  1. Renata disse:

    Mas olha, isso vai dar o que falar…

  2. Num contexto genérico, como diria Nelson Rodrigues: “Vc pode não saber porque bateu, mas a mulher sempre sabe porque está apanhando”.

    Agora, corrija-me se eu estiver enxergando errado. Entendi que seu texto não é uma ode à violência, mas vc quer dizer que, entre outras consequências, se o cara não toma uns tabefes vira bicha?

    No mais, ótimo texto, como sempre.

    • Não. Foi um comentário jocoso e ilustrativo. beijo.

      • L e o disse:

        OK.
        Li e reli pra entender que tu não estavas insinuando que viadagem é falta de laço. Tudo bem.

        Então: concordo com o texto. No que diz respeito à educação de crianças, não diria nem que precisa da porrada em si, mas uma insistência e inteligência maior por parte dos pais faria toda a diferença. Quando tudo isso não for suficiente, a porrada tem efeitos bastante consideráveis.

        Agora: tapa de mãe não serve?

        • Serve. Melhor remédio, pena que esteja em falta.

    • Pode crer, tem esse ponto aí mesmo. Sei que não é essa a intenção, mas pode dar algum tipo de merda, pois dá margem a obtusos e exegetas/hermeneutas do mal, procurando chifre em cabeça de cavalo.

  3. Com esse construtivismo e essa coisa do politicamente correto, a criançada virou desrespeitosa, preguiçosa e burra. Nada como uns pescotapas pra resolver…

  4. Laura disse:

    Gostei!!! A vida da cada porrada na gente, que rapidinho voltamos aos eixos! Como se diz na minha terra para aqueles que estao fazendo m…, “isso é falta de laço!”. Os psicologos de plantão que podem te julgar mal…

  5. Eu já fui super adepto dessa corrente doutrinária. Ferrenho defensor, quase a ponto de levar estandarte em passeata, depois da Lei da Palmada fiquei pensando. Porque é difícil estimular essa linha de correção e sair coibindo os excessos.

    Mas a mistura “Omissão Paterna + Excesso de Zelo Materno” me faz pensar sempre que as mães são canalhas. Principalmente aquelas que dão chilique de desmaiar pedindo os sais quando encontra uma ponta de baseado na mochila do moleque, mas envida todos os esforços possíveis “para o pai não ficar sabendo”.

    As mães são canalhas!

  6. Lu disse:

    Não sou a favor de bater em criança de maneira alguma, mas em muitos adolescentes acho que o que falta é isso. principalmente os que se vangloriam por serem malandros ou fazer maldades.
    colocou pai, mãe e porrada num mesmo texto, tb acho que vai dar o que falar. mas gostamos de mexer em vespeiros.
    BJO!

  7. Olha, pode dar o que falar, mas de fato algumas pessoas que eu conheço, alguns desafetos inclusive sofrem dessa carência e de maneira aguda.

  8. @dani_andrade disse:

    Ah, concordo com tudo. E não se trata de violência gratuita, ou de se chegar à conclusão pequena de que quem não apanha vira bicha (além do que, dizer algo assim em voz alta é tão preconceituoso que assusta).
    Como diz meu pai, “tem coisa que só um tabefe quente no pé da orelha resolve”.

  9. Amanda OS disse:

    A mais pura verdade. O Ultimo pescotapa q dei no meu filho de 9 anos foi seguido de: Isso é pra quando vc tiver mais velho, falar: Tenho trauma de mentiras… É até engraçado, mas ele não mentiu mais pra mim. Nem se escondeu mais de mim. Nem me disse mais: Vai se ferrar. Se bem q esse “vai ser ferrar” rendeu beelos pescotapas.

  10. “falta de uns tabefes!”, já disse muito isso me referindo a pessoas abusadas ou cheias de mimimi. geralmente pessoas do gênero masculino. talvez porque para esse tipo de gênero, a falta de cólica menstrual amplia em muito a necessidade de umas porradinhas.

  11. Kika disse:

    Concordo em número, gênero e grau. Como advogada já defendi várias mães que tiveram a guarda dos filhos contestadas porque os pais alegavam que seus pimpolhos estavam sendo “espancados” por elas.
    Sempre orientei: “Se o juiz perguntar se vc bate no seu filho, pode responder: bato sim, não espanco, educo. Se merecer uma palmada, vai levar”. Porque juiz também é pai, juíza também é mãe e a grande maioria deles foi criado desse mesmo jeito.
    E foi o que me fez virar gente. Uns belos tapas na bunda e o medo do chinelo “cantar”. Agradeço minha falecida mãe até hoje por isso.

  12. Joema disse:

    Eu sou adepta a palmada. Nao falo em espancar ou machucar pra valer uma crianca. Mas uma palmadinha com sandalia haviana tem mais efeito que apenas “tirar a televisao e o videogame”… E claro, sempre em ultimo caso. Nao conheco gente que tenha ficado louca, ou tenha atirado tiros aleatorios no cinema por conta de uma palmadinha. Pelo contrario. A maioria dos “desajustados” que conheco, desconheceram limites, nem pela conversa e nem pelo galho de goiabeira, como se bate na minha terra (o galho de goiabeira nao quebra mesmo e e fino o suficente e fraco, pra nao causar nada alem de uma dorzinha transitoria). Mas na Europa e nos EUA, os brasileiros sofrem com a criancada. Menino melequento enchendo o saco, se levar safanao, a rainha da Inglaterra manda assistente social e os pais perdem a guarda dos filhos. As pessoas mais educadas que conheci levaram essas palmadinhas. Eu levei um monte nas coxas, porque eu era (sou) gordinha e tinha muita carne. Aprendi a respeitar meus pais, meus professores e o ser humano em geral, tambem por contas delas. Como ser mais a favor da palmadinha? Ainda bem que nao vou ter filho, pra nao ter que me privar desse recurso.

    Belo texto. To contigo e nao abro.

    J.

  13. Lívia disse:

    Acho que a palmada educativa tem o seu lugar. O foda é saber dosar: Tem gente que dá demais, tem gente que dá de menos. Nos dois casos as consequencias são drásticas. Definitivamente, ser pai/ mãe não é pra qualquer um…

    • Eu não chamaria (e não chamei de educativa). É mais ‘orientação’, especialmente para a marmanjada. Pisou na bola, ofendeu, toma-lhe tapa.

  14. Tá pra nascer um remédio mais eficaz.

  15. Jociely Priscila Schmidt disse:

    Muito bom o texto.
    vc vai dar um ótimo pai,doeu quando eu dei um tapa e tirei sangue da boca do meu irmao mais novo,mas foi por uma causa nobre e deu resultado,quando eu for mae serei a moda antiga,ja estou treinando com esse meu irmao,o Gui,alem de algumas pancadas eu o fiz ler ao inves de montar orkut,e o fiz aprender a jogar xadres ao invés de gta…pensei que ele pudesse me odiar e isso é preocupante levando em conta q moro sozinha e nao com ele;mas qual foi minha felicidade quando ele veio me contar q ganhou um campeonato de xadrez?muita!sou uma especie de idolo pra ele…acredito fielmente que foi por causa das porradas…

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