A revolta dos personagens
“Viver não é isso”. Talvez o nome de um próximo livro em que personagens insatisfeitos vagam por seus infernos particulares à procura de um autor que lhes dê sentido, razões para existir e alguma densidade. Já foi dito que a literatura brasileira está um bagaço e, nesse mundo irreal e precário, fraco de tramas, é o próprio cast do livro que sai em protesto por um texto decente, uma história convincente, alguma coisa com começo, meio e fim. Eles reclamam – mesmo os que ainda não foram escritos – dessa marmelada existencialista. No caso, a minha e a sua. Chega exacerbações sobre o próprio umbigo, monólogos internos intermináveis e desespero de araque. Cadê a paisagem? Onde está a história? Que merda é essa?
Os personagens querem um livro de verdade, cansaram de discursar sobre suas mazelas. Os bons diálogos sumiram. Uma candidata a Capitu, cheia de ambiguidades, toma a palavra: o cara se diz escritor e não põe em cena um mísero travessão em que o povo que está nos parágrafos possa escorar suas falas, dizer a que veio, conversar uns com os outros. Estão soltos ou sozinhos. Não há romance ou novela, mas um emaranhado de croniquetas que forma um universo duvidoso. Depois, a meleca é editada e, mais grave, impressa. Até blogs viram pastiches de romances, quando não passam de coletâneas de trivialidades, exibicionismo barato, listinhas de frases de efeito para deleite de amigos condescendentes.
Unido ao crítico acadêmico, os personagens desancam os escritores de fim de semana – apontando o dedo para o autor destes 2.817 caracteres e para outros da mesma natureza: “vocês trocaram Machado pelo twitter e estão condenados”, argumentam, cheios até a borda do lixo reciclado nas madrugadas. “Querem dizer tudo em quatro parágrafos, mas não fazem literatura; fazem posts. Não contam histórias; exageram a vida real, como se bebedeiras presentes e passadas fossem do interesse geral”.
Estivesse vivo, Graciliano vomitaria nas calçadas de Palmeira dos Indios ao ler a produção literária dessa galera. Das gentes que lançam um livro uma vez por mês, dos escriturários das redes sociais, dos jornalistas cansados e de seus textos escritos à base de maconha, informações do Google e de pedaços da vida alheia. Tudo por uma vaguinha nas centenas de bienais do País, nos concursos literários patrocinados pelo dinheiro público e nos workshops pagos. Não vendem quase nada e por motivos inexplicáveis, continuam a escrever. E tem mais: saem por ai ensinando como se escreve.
“Viver não é isso”, a revolta dos personagens, certamente é uma faca contra o próprio peito. Aquela história de produzir o romance de sua geração passou batida e, sob vaias, continuamos em busca de entendimento com os insurgentes. Chamamos para um acordo. Não tem jeito. Voltamos ao delírio de sempre. Os personagens seguem seu rumo, em busca de romance e aventura.
Lula Falcão
Eu conheço um escritor que está na contramão dessa história. Seus personagens além de vivos e com falas, são encontrados nas ruas do Recife, no banco dos onibus , na casa ao lado. Vivos, vívidos.. um tratado sociológico na primeira pessoa, aliás , nas varias pessoas , pois são os vários personagem que dão o tom e não o autor. Aguarde Lula Falcão, quero te mandar um exemplar. bj
Exato! O Brasil inteiro está carente de literatura de verdade, pessoas que escrevam com a alma e não para vender e agradar a moda atual. Obrigada pelo texto.
- CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP!
Simplesmente fantástico texto.
Nossa literatura trilha um caminho deplorável, sofrível. Blogueiros meia-boca (ou sem boca, haja vista que não falam nada que valha) poluem a internet com um conteúdo (?) que causa náusea num leitor um pouco mais esclarecido. Escritores que não sabem escrever, jornalista que não sabem o que é jornalismo, poetas que não sabem poetar, leitores que não conhecem bons livros. Essa é a situação atual.
A sua crônica lembrou um livro de Luigi Pirandello (não sei se foi proposital) que é o “Seis Personagens a Procura de um Autor”. Mas
Nem tudo está perdido, ainda existem algumas boas exceções. Eu por exemplo esbarrei num romancista e num poeta, ambos goianos, que são de encher os olhos. Até me arrisquei a resenhá-los. Deixo aqui as resenhas.
A primeira é de Centopeia de Néon – Edival Lourenço: http://t.co/kk3s9ZM
A outra é de Noves Fora: Nada – Carlos Willian Leite: http://t.co/RdhOlZE
Mas no geral, cada livro publicado, cada novo blog que brota por aí, Lula são de chorar. A literatura está num rentável miséria. Vendida a um modelo escuso para se lucrar mais, se obter número maiores, está no topo das listas dos mais vendidos, e dessa forma a arte de escrever, e não de cuspir textos lamentáveis, vai ficando a míngua.
Ainda sem conseguir entender um negócio… essa reclamação toda em cima de muitos blogs que surgem, já apareceu alguma coisa que obrigue as pessoas a ler os blogs? Tipo, todos? Ou você só lé o que quer, só se depara com o conteúdo de um blog se digitar o endereço? É tudo muito confuso pra mim…
E posso estar com umas prestações de interpretação de texto em atraso, mas ACHO que o Lula quis exatamente falar foi sobre gente assim, que fica putinho com blogs, com gente que se diz escritor sem ter a competência do Guimarães Rosa e assim por diante.
Não?
Concordo com você Randal: ninguém nos coloca uma faca para acessarmos nenhum blog. Só que você nunca esbarrou com um blog ou com um livro daqueles que você diz: vixe, como é que a pessoa escreve isso?
E a possibilidade de interpretação ao texto do Lula são várias e a sua é muito válida também.
Abração Randal!
Não é reclamação. Faço parte da turma dos blogs. Tenho um livro feito a partir de um blog. Tentei ser mais severo comigo mesmo. Quase só isso. Não há nada muito real por trás. Não há outros de carne e osso. É tentativa de ficção. Mais uma. Como disse Godard, não é sangue; é vermelho.
E por que mesmo que o senhor se dá o trabalho de entrar nesses blogs deploráveis mesmo? Algum blog desses pegou um canivete, apontou em sua jugular e disse: leia ou morra?! Se o senhor conhece todos esses livros e autores, por que mesmo perde tempo lendo os autores que diz serem meia-boca? Não me venha com a desculpa de que faz isso para ver se resgata alguma alma perdida por esses blogs, pois, meu caro, com certeza nós, que admiramos a literatura contida no malvadezas, dispensamos sua tentativa ‘colgate de salvar o mundo das cáries’, ou do que o senhor pensar ser cáries… Dê-nos um tempo, vai? Vai ler Foucault e deixe em paz quem entra nesses blogs para curtir textos de uma turma animada, diversificada, inteligente e com opiniões marcantes, que, concorde você ou não, são opiniões que devem ser respeitadas… Ah, não quer respeitar? Cuidado que o Anders Behring Breivik também não era afeito a respeitar a opinião alheia… Daí ficou louco, por isso, reitero, vá ler Foucault e não perca seu tempo nem nos faça perder o nosso.
Ninguém me obriga e nem quero resgatar ninguém de nenhum lugar, Gabriela. Do jeito que você escreveu dá a entender que sou um fiel frequentador dos tipo de blogs aguados. Esbarro em blogs assim, o que é diferente de ser um frequentador.
Fiquei confuso com duas coisas: sua aparente irritação e o fato de você ter escrito —>> “meu caro, com certeza nós, que admiramos a literatura contida no malvadezas, dispensamos sua tentativa ‘colgate de salvar o mundo das cáries’, ou do que o senhor pensar ser cáries” como se eu fosse uma espécie de troll que veio só ficar de zuação aqui nos posts do Malvadezas e não gostasse do que é feito aqui. Bom, se essa foi a intenção há um redondo erro nisso. O Malvadezas é um dos melhores blogs da nossa blogosfera tupiniquim. Uns textos daqui são primorosos e escrito por gente entendida (O Lula é jornalista e escritor).
Gabriela sou da paz, não se irrite por favor querida. Relaxe.
P.s.: vou atender seu conselho e por minha leitura em dias do Foucault.
Beijos menina!
Bem, reli seu comentário – agora considerando seu comentário de modo geral e não apenas direcionado ao Malvadezas. Imaginei que sua crítica fosse direta ao texto do Lula e ao conteúdo do blog, por isso a indignação de “poxa, o cara entra em um lugar que não gosta por opção e, ainda por cima, joga uma crítica desconstrutiva?”… Se puder e de tempo dispuser, leia seu comentário sob este manto e verá que, caso crítica ao blog fosse, pareceria algo simplesmente hostil e desnecessário. Como não é, entenderei como uma opinião e nada mais (que respeito). Assim sendo, peço-lhe humildes desculpas pela minha má interpretação.
Abraços!
Cara, você tem 19 anos!!!! Bicho, com 19 anos você tá a fim de restringir blogs por aí? De formular esse tipo de conclusão? Sim, já peguei muito livro na mão que deu vontade de botar fogo, já li blogs ruins, já li até blogs que eram legais e que ficaram uma merda. Mas nunca me deu vontade de querer que eles deixem de existir, ou de achar que alguma coisa tá uma merda porque existe gente ruim escrevendo… até porque, nunca achei que algo está uma merda, sempre achei coisa legal pra ler.
Como as pessoas que escrevem aqui no Malvadezas, por exemplo.
Ainda bem que existe o Malvadezas pra quebrar um pouco essa falta de conteúdo da internet!
Aqui não tem erro, como dizem na minha terra a cada enxadada é uma minhoca! Sempre um texto bom e as vezes um de matar a pau, como este!!!
O texto é o que eu chamaria de metalinguagem: A internet falando da internet.
Bom, eu discordo. Acho que há muita coisa legal por aí, há gente que escreve bem pra caralho e produz coisas lindas. Bom é descobrir que terra de ninguém tbm pode ser interessante e o que não nos serve, tchau e abraço.
Tempos modernos. Certeza que Machadão adequar-se-ia.
MY POINT.
Adorei o texto, não porque entendi como rechaço público aos blogs e novas tentativas de se criar um conteúdo válido de leitura. Gostei mesmo foi porque entendi o texto como um proposital “tiro no pé”, daqueles bem planejados e meticulosos, que assumem a dor auto-provocada. É como disseram ali em cima… é metalinguagem pura. E nisso o autor se inclui nas críticas, faz tb auto-crítica, não se coloca acima de ninguém que anda letrando por aí. Afinal, creio eu, somos todos tentativas… de ser, de agradar, de produzir algo que valha. Pra quem? Ah… essa é outra história… gostos à parte, toda generalização é burra, inclusive essa que acabei de fazer.
Tiro no pé. Tiro na mosca.