I used to get a kick out of you

Algumas pessoas ficam escandalizadas quando eu e @alesie falamos sobre a moça que se jogou da janela porque não conseguia suportar todo aquele sofrimento. Dizem que ora como podemos falar se não sabemos como era a vida dela, ora como podemos julgar se não estávamos no lugar dela, na situação em que ela estava, na vida que ela tinha.

Olha.

Eu posso falar sim. Posso falar de cadeirinha. Porque eu já estive em um relacionamento destrutivo e obssessivo. Porque eu já perdi a mão da minha vida. Porque eu já cheirei muita cocaína e ela quase me ganhou também. Porque eu já tive umas depressões bem fodidas e quase morri. Porque eu já sentei no parapeito da varanda do meu quarto e pensei em pular também.

Só que eu não pulei. Não pulei e parei com aquela merda de droga que não tem a menor graça, o menor glamour. Porque é o seguinte: no começo era divertido. Eu pensava rápido, falava muito, tinha grandes idéias. Quando comecei a me relacionar com aquele senhor com quem casei, esse era um dos nossos pontos em comum: droguinha. Assim mesmo, no diminutivo. Nossa droguinha. A gente cheirava muito e ficava a noite inteira bebendo, tocando e trepando. Era incrível. Ele ia viajar com a banda, mandava mensagens, mandava emails, mandava recados, ligava e dizia “estou viciadão em você”. Eu achava lindo. Só não sabia que ele estava provavelmente com uma groupie no ato do boquete naquele exato momento. E assim era a nossa vida de casal.

Havia uma vida paralela com a Catarina, minha filha, que era completamente apaixonada por ele. Ainda é. Outro dia ela me disse que queria esquecer a existência dele. Assim mesmo. Chorei. Porque foder comigo é uma coisa, eu sou adulta, eu supero, eu escolhi entrar naquilo. Mas foder com o emocional de uma criança, da MINHA filha, olha, dá vontade de metralhar aquela pessoa. Enfim, tínhamos uma vida familiar incrível, de cineminha, filminhos, de casa, de eu ser a mamãe cozinhando para a família feliz. Lembrando agora parece até que era verdade. Sabendo de tudo que acontecia paralelamente eu só consigo achar que foi tudo uma grande mentira. Nem saudade dá pra sentir.

É CLARO que eu tenho uma mágoa terrível dessa história. Só porque faço piada a respeito não quer dizer que eu não me importe, que não tenha sentido nada. Perdi quase quatro anos da minha vida com uma pessoa que só me fez de trouxa. A culpa também é minha, eu me submeti, eu aceitei, eu perdoei o imperdoável. E não sou nenhuma santinha. Nossas brigas eram terríveis. Os motivos eram sempre idiotas e as reações eram obviamente ditadas pela droga que a gente usava com cada vez mais freqüência. Primeiro era só quando a gente se encontrava. Quando foi morar comigo, só quando saíamos. Depois, só um tirinho antes de sair. Daí pra cheirar até vendo Big Bang Theory foi um pulo.

Foi tanta merda, mas tanta merda que eu não consigo nem começar a contar tudo. Não consigo e não quero. Só digo que ele me abandonou sangrando depois de uma porra de um aborto horrível e foi comer groupie e fazer piada com a minha cara junto com os amiguinhos. Que eu perdi bem uns vinte quilos nesses dias de pesadelo onde tentava entender por que ele era tão cruel e me torturava tanto falando coisas terríveis enquanto eu definhava em casa, perdia números de roupa, perdia sanidade, perdia trabalho, me perdia debaixo do taco da sala da minha casa. Que depois ele voltou, a gente casou e daí em diante a coisa só piorou. Que ele teve uma filha no meio do casamento e eu fui a última a saber. Que ele sumia, mentia, me enganava e eu ficava desesperada num limbo sem saber como proceder porque achava que não poderia viver sem ele. Que durante esses dias eu fui a pior mãe do mundo porque não conseguia nem cuidar de mim, que dirá da minha filha, e ela ficou com o pai e os avós. Que no final do ano passado, depois de meses desaparecido, ele foi até a minha casa, viu minha filha de novo e quando me dei conta parecia que os tais meses tinham voltado e toda merda tinha sumido. Que ele disse que me amava, estava se tratando do vício maldito e que estava terrivelmente arrependido por ter feito tudo o que fez. Que choramos muito, trepamos muito, dormimos juntos e voltamos a nos falar – mesmo ele tendo me contado de todas as traições, inclusive a do Troca de Família. Que eu fui trabalhar no R7, me dei super bem, comecei a recuperar minha vida profissional e de repente fiquei sabendo que ia passar a caralha do programa.

Foi aí que resolvi dar um basta naquilo tudo.  Escolhi, pela primeira vez, ficar COMIGO. Joguei a merda no ventilador, contei tudo mesmo. E não me arrependo nem por um segundo.

Se eu tivesse escolhido ficar com ele mais uma vez eu provavelmente estaria na merda. De novo. Seria como retroceder aos anos improdutivos que passamos juntos, seria como deixar minha filha, minha vida, minha carreira de lado novamente. Seria como pular atrás de um morto “caindo” da janela do sétimo andar.

Mas eu não pulei.

Muito obrigada, caro ex-marido, por instaurar tamanho caos na minha vida e por acabar com a sua própria. Porque agora eu NUNCA MAIS caio nessa de amor doentio. Passo longe. Agradeço também por ser involuntariamente uma eterna fonte de piadas e por ter me ajudado a alavancar um reality show para o primeiro lugar do horário nobre contando o final de merda que você deu pra nossa história.

Um beijo, meu caro, pra você e pra sua filha. Espero que, quando ela crescer, JAMAIS se depare com um pulha sem caráter como você.

E um parabém a cada um dos envolvidos.

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