SOU MEIO ISSO, MEIO AQUILO. Acho que sou meio tudo. Meio de direita, meio de esquerda. Meio infeliz, meio satisfeito. Meio bofe, meio gay. Até meio feminino.

Sou o caminho do meio, a meio caminho do fim.

ENTRE EXTREMOS, SOU O MEIO. Meio puta, meio santa. Meio careta, meio maluco. Meio certo, meio errado. Meio a fim de me salvar do meio de mim que está sempre meio a fim de me abandonar.

Sou meio porque receio os meios que justificam os fins.

Assim, meio de bobeira, tento fazer de mim um MEIO DE EXPRESSÃO.

Meio yin, meio yang. Meio com a razão, meio com o coração. Nesse meio tempo que ainda me resta para encontrar um meio de conciliação.

MEIO, NUNCA INTEIRO.

Quem se diz inteiro é meio déspota. Ou déspota por inteiro. Nunca aceita o meio termo. Nem quando lhe falta a razão.

Sou meio isso, meio aquilo. Acho que sou meio tudo. Afinal, sou humano. E A ESSÊNCIA DO SER HUMANO É SER CONTRADIÇÃO.

Eu gostaria de ser artista como Patti Smith é.

Eu gostaria de cantar como Johnny Cash cantava.

Eu gostaria de desenhar como Edward Hutchison desenha.

Eu gostaria de ler como Maria Bethânia declama suas poesias.

Eu gostaria de ser lindo como Clint Eastwood é.

Eu gostaria de ter tempo para inventar mais coisas para fazer e ver que eu não terei tempo nunca mesmo.

Eu gostaria de projetar como Lina projetava.

Eu gostaria de escrever como Chico escreve.

Eu gostaria de ser sexy como Marilyn era.

Eu gostaria de dançar como Olive dançou em Pequena Miss Sunshine mas se eu dançar como Michael Jackson também curtirei.

Eu gostaria de ter criado todas aquelas coisas genialmente simples que eu olho e penso porque eu não pensei nisso? (as ideias ridículas que qualquer-um-faria eu passo).

Eu gostaria de festas com Donna Summer tocando porque festa boa toca essa nega.

Eu gostaria de sorrir como Julia Roberts sorri.

Eu gostaria de inventar bombas com um clip e um chiclete mascado como o MacGyver inventava.

Eu gostaria de andar de bicicleta com o E.T. na cesta como Drew andou.

Eu gostaria de ser o Vagabundo beijando a Dama logo depois do melhor spaghetti com almondegas do mundo.

Eu gostaria de ser arte como Marina Abramović é.

Eu gostaria de gostar menos.

É.

E quem conhece meus gostos em frases completadas me conhece só pela metade. Porque gosto muito, mas faço um pouco mais do que gostar completando linhas pontilhadas. Porque completo linhas de um jeito torto e que muda a cada dia, mesmo eu mantendo todo mundo que gosto ali, naquele canto especial que fica na ponta dos meus dedos, com os nomes escorregando direto para a folha toda vez que completo pontos de uma linha ainda em vazio. E vejo que derramar aleatoriamente as pessoas que gosto em frases bobas que devem ser completadas faz todo sentido para mim. Porque gosto mesmo é de cantar como Olive dança, de desenhar como o Vagabundo beijou a Dama, de ler como Marilyn e seu cabelo loiro seduziam o mundo, de ser lindo como Chico escreve, de ser sexy como um inventor de bombas a base de clip e chiclete mascado, de dançar como Patti é, de criar como Johnny Cash cantava, de festejar como Edward Hutchison se diverte na frente de papel e lápis coloridos, de sorrir como Bethânia lê, de inventar a beleza que Clint Eastwood desde que nasceu tem, de andar de bicicleta como Marina se rasga com cacos de vidro, de beijar como Donna incendiava a pista, de ser artista como o E.T. numa cesta de bicicleta e de ser arte como eu gosto de gostar. Mesmo menos. Mas geralmente é mais.

É.

Dizem que o shopping é a praia do paulistano.

Eu que sou enlouquecidamente apaixonada por São Paulo, ouço com desconfiança e me irrito bastante. Ok, São Paulo não tem praia, tem um charme gauche, tem trânsito, tem neurose, tem violência, tem tudo isso mesmo que quem não é daqui (ou é) diz. Esses defeitos todos. Amo do mesmo jeito e talvez por ter defeitos e ainda assim ser linda. Minha SP é linda, mas de fato não tem praia. Nada que amor possa resolver.

Meu pai dizia que se eu tivesse nascido na Suiça, estaria presa. Isso se não embolorasse num cantinho antes e morresse. Porque eu, que já me sinto totalmente equivocada no mundo morando na caótica SP, teria um treco em um lugar hermeticamente lacrado e estéril.

Voltando: Eu amo SP. Se for falar mal, se for reclamar, vai dar briga.

Não gosta? Direito seu. Pode ir embora, SP e eu não fazemos questão.

Acha que praia de paulistano é o shopping? Adeus.

Só que no último sábado… Ah, no último sábado… Um desses dias que me pegam toda trabalhada na certeza as 11 da manhã e me fazem enfiar a certeza no saco de lixo antes das 4 da tarde. Com cara de tacho.

Fui fazer cobertura de uma roda de samba no Bar Pirajá, “A esquina carioca” que eu já frequentava com ressalvas. Contrariada, admito neste momento que  me contaminei pela pseudo rivalidade entre cariocas e paulistas. Um troço doido que só me deixa ressabiada em SP. Quando estou no Rio, amo aquilo tudo.

Me sinto Helena de Manoel Carlos, e toca Bossa Nova em loop eterno durante a estadia.

Explico: sim, é sensacional a coisa carioca. A vida no Rio, as histórias do Rio. Tudo que o Rio deu pro Brasil. O Rio é berço do meu pai espiritual Vinícius, que eu insisto ter sido o grande inventor da ideia que contamina o resto do mundo de que ser brasileiro é um troço invejável. Inventou pro mundo, pra gente ele só apontou e mostrou, fez a gente perceber. Ele cantou e escreveu até fazer ser verdade. 

Noel, Cartola, Millôr, e segue a lista. Muitos ídolos cariocas, sempre um pezinho atrás.

Aí que no sábado eu me danei. Moacyr Luz no comando, Nilze Carvalho e Elisa Addor como convidadas, Flávia Quaresma circulando com copo na mão e se deliciando com toda aquela gente se deliciando com os quitutes dela, os músicos tocando… Público de todo jeito, do samba, do chopp, da botecagem, dos Amex Black, do ziriguidum e do que mais você imaginar.

E o povo canta os barracões de zinco, e eu lembro do Chico falando da história do piano que o Tom fez subirem pelo morro da Mangueira, e os olhos enchem de água. Culpo o chopp, culpo o momento que só quem foi pode entender, culpo o Vinicius que me mostrou Cartola, que me mostrou o samba, que me minaram. Tava aqui encapsulado: amor pelo carioca.

E essa menina foi no tal “Para ver as meninas” no Pirajá preparada pra odiar e adorou.

E aquele pezinho atrás? Cabeça endireitou o que tava ruim, desadoeceu pezinho que foi sambar. E a esquina carioca, me perdoem os amantes de shopping, virou a praia de São Paulo.

 

(recomendo <a href=”http://www.facebook.com/bar.piraja”>curtirem</a> e seguirem no <a href=”http://twitter.com/pirajabar”>twitter</a> o bar)

Na lista das palavras sócio-desgraçadas, “estabilidade” deveria estar num top 5.

Todo mundo corre atrás de uma sombra, de um chão, de uma garantia que vai conseguir consolidar seu posto de cidadão-alguém nesse mundo.

E corre, pula, cria varizes, se acaba nas rotinas desenfreadas do tráfego, dos self-services, elevadores, chefes imbecis te dando bronca, calorias, happy hours eufóricos e orgasmos comprados num puteiro.

Em casa. Geladeira, sofá, futebol, pijama, sorvete, calmante, medir a febre do Jr., separar os boletos. Boa noite, amor, bota pra despertar 6 e meia.

Vez ou outra morre um tio. Velório, piada, fofoca, lembranças. Antes ele do que eu. Esse negócio de cemitério dá uma canseira da porra.

Dá pra ter meses estáveis. Anos e até uma vida toda bordada e perfeitinha. Sigam-se os bons.

Mas, por que não o desespero? Por que não a dúvida?

E se eu não for seguir as regras e não quiser um plano infalível pra ser um cidadão de bem?

E se eu preferir não torcer pra nenhum time?

E se eu preferir não amar nenhuma diva pop?

Ou ser o único a faltar na ceia de natal?

Eu, no meu respeito incondicional com o caos e o desespero,

ainda rio, ainda gozo, ainda como, ainda me divirto,

ainda choro, ainda me preocupo, ainda tenho amigos,

ainda sou maldito, ainda tenho sorte, ainda ganho grana,

ainda fico carente, ainda fofoco, ainda beijo na boca.

Talvez a estabilidade seja uma granada.

Talvez o desespero seja nitroglicerina pura.

No final, a gente se abraça e:

Let’s Kaboom?

Somos três, sempre fomos assim, desde lá do céu.

E um dia, mais cedo ou mais tarde, teríamos que descer. Juliana, a mais inteligente dos três, antes de uma possível expulsão divina, armou uma reunião de cúpula e decretou: procuraremos pais legais para viabilizar o devido deslocamento. Não mega legais, legais já estava b de bom e assim foi. Achamos, desci primeiro e eles ficaram lá espiando a parada toda. Alguém tinha que iniciar os trabalhos, então melhor que fosse eu mesmo. Do céu fui direto para o saco do meu pai, que me colocou na barriga da minha mãe e eu nasci. E eles me deixaram aqui, testando sozinho a escolha por um longo tempo até que, depois da certeza cabal do quanto eles eram legais, ela desceu. Saco do pai, barriga da mãe e quatro anos e três meses depois quem deu o nome para ela fui eu. Dei nada, ela já tinha esse nome desde lá de cima e assim ficou com ele por aqui também. E pronto, estávamos os dois. Alexandre, para não ficar sozinho, desceu rápido. Saco do pai, barriga da mãe e um ano e cinco meses depois voltamos a estar os três juntos.

Aqui embaixo continuamos achando que eles são legais, continuamos decidindo tudo junto em reuniões de cúpula e, como fui o primeiro e eles demoraram um bocado, toda vez que não queremos fazer alguma coisa, a nossa ordem é Alexandre, Juliana e eu. Para tudo. Ah, e continuamos achando ela a mais inteligente.

E somos inacreditavelmente diferentes. Do tipo inacreditavelmente do nível mais alto. E tenho para mim que a graça toda está ai. Porque somos três mas um de cada jeito, um com cada gosto. Pensamos diferente e sentimos sabores absolutamente distintos sobre temperos muito parecidos. Alexandre é adEvogado daquela categoria de adEvogados-que-usam-terno-e-ficam-incríveis e sempre bate a mão na mesa para nos defender, Juliana mora pelo mundo e a cada dia conquista mais terras e águas e culturas e sorrisos por ai deixando sempre a gente morrendo de saudades dela e eu sou um pé de chinelas que escreve bobagens vez ou outra. Somos diferente e sempre fomos assim, desde lá do céu. E nos complementamos talvez desde antes mesmo de lá. E é por isso que basta um segundo para gente se entender, basta um segundo para a gente se responder, se olhar, se lembrar. A gente, com nossos olhares tão diferentes e lotados de miopias particulares, tem as mesmas histórias, os mesmos pais legais, os mesmos melhores irmãos do mundo. A gente tem a mesma cara mesmo quando não somos tão parecidos assim. A gente lava a louça igual, ou não, porque isso pouco importa. O que importa é saber que sozinho sou só um terço de mim.

Fomos três ontem e somos hoje. Amanhã a gente decide, numa reunião de cúpula, o resto.

 

Nota: essa história, contada por Juliana desde pequena (com direito a saco do pai e barriga da mãe desde sempre), é uma das poucas certezas que tenho na vida. Porque, se chamar a mesma pessoa de pai e mãe não é pouco, escolher junto os dois é muito nós três. Completamente Juliana, Alexandre e eu.

- Facebook, bom dia.

- Oi. Por favor, o Mark?

- Mark?

- Zuckerberg.

- Quem gostaria?

- É pessoal.

- Mas qual seu nome?

- Diga que é o Rodrigo.

- Rodrigo?

- Isso. Rodrigo, do Brasil.

- Só um minuto.

- Ok.

- Senhor?

- Pois não?

- Ele pediu para o senhor adiantar o assunto comigo.

- Não posso falar direto com ele?

- Não, ele disse que não conhece o senhor.

- Certo. Bem, eu tenho uma oportunidade de negócio para ele.

- Oportunidade?

- Sim. Um Palio.

- Como?

- Isso mesmo. Negócio da China.

- Sinto muito, mas não compramos nada da China.

- Não, “negócio da China” é apenas uma expressão. É que é um baita negócio.

- Certo. Mas o que é Palho?

- Não, não é Palho. É Palio. Com “i”.

- Certo. E o que este… Palio faz?

- Quase dez quilômetros por litro!

- Como?

- Eu sei, eu sei, é até difícil de acreditar! Mas é verdade.

- Não sei se estou entendendo ao certo, senhor. Qual a plataforma do Palio?

- Plataforma?

- Isso. É um aplicativo? Como ele é usado?

- Ah, da forma que você quiser. Na estrada ele rende bem, é 1.4. Vai que é uma beleza!

- Ele está na quarta versão?

- Como?

- O senhor disse que é 1.4.

- Isso. E na cidade também, porque bebe pouco. E cabe em qualquer vaguinha!

- Mas eu ainda não entendi o…

- E, olhe, posso garantir uma coisa. Foi muito pouco usado.

- Pouco usado?

-Isso mesmo. Sou o segundo dono.

- Não sei se o senhor Zuckerberg irá se interessar por algo com somente dois usuários.

- Ah, vai sim, confie em mim. Tem som, ar condicionado… E o preço está super camarada. Preço de pai para filho, sabe?

- Mas…

- Olha, o Carlão, lá da padaria, já falou que está interessado. Mas como vocês estão comprando tudo aí, achei que talvez pudesse interessar. Aí liguei para dar um toque.

- Bem, realmente nós estamos em processo de expansão…

- Então! Aí junta a fome com a vontade de comer! Por isso que liguei pra vocês!

- Fome?

- É outra expressão! Que tal vinte e cinco mil?

- Dólares?

- Não, reais! O Carlão falou que dá vinte e dois e uma mobilete. Mas eu já disse que quero só grana. Nada de mobilete. Vinte e cinco e a gente fecha! E o Palio é do Mark!

- Bem, senhor, preciso consultar o senhor Zuckerberg antes de fechar o negócio. Mas qual o endereço do Palio, para ele poder acessar?

- O endereço? Olha, ele está em casa. Acho que é mais fácil eu mandar umas fotos.

- Fotos?

- Isso. Eu peço pro meu cunhado fazer, ele tem uma câmera boa. E aí dá pra vocês verem como ele tá novinho!

- Bem, o senhor pode mandar para aquisições arroba facebook ponto com.

- Não tem bê erre, né?

- Não, senhor.

- Ok. Eu mando ainda hoje. Olha, eu coloco o meu celular no e-mail e o Mark me liga. Feito?

- Bem, não garanto que seja ele, mas entraremos em contato com o senhor.

- Beleza! E fala pra ele que ele vai ficar lindão no Palio, eu vi aquele filme sobre ele!

- Bem… Sim, senhor.

- Um beijo, querida!

- Até logo, senhor.

Um mundo onde tem crossdresser e tem pastor totalitarista.

Não poderia ser um pastor crossdresser?

Um mundo onde tem metaleiro e político corrupto.

Não poderia ser um político metaleiro?

Utopizem mais uma dezena de trocadilhos…

Não vai ser assim, vai continuar uma merda.

A gente no mundo que pensa. Que pensa que pensa.

Um silêncio do caralho versus uma gritaria boçal.

Como jogar cocktail molotov sem álcool em janela de casa de boneca.

Uma caretice nada espetacular o show da vida.

O mundo tá virando um domingo enorme e sem fim.

A liberdade que tinha cheiro de tequila tem gosto de Cataflan®

O minimalismo minimizado das entrelinhas invisíveis.

Mais pop que cult. Mas que cult mais pop esse…

Excluem o genuíno, depois o pegam, reciclam e transformam num brinquedinho pronto pra agradar.

A robotização da arte, da cultura, da personalidade, da liberdade.

Um saco.

Enquanto não robotizarem o álcool, haverá esperança.

Num breve futuro, espero os meus, num porão, escondidos,

antropofagizando um passado no qual ainda respingava a liberdade e o direito de ser *torto*

um passado de um hoje que era apenas engraçado se revoltar

era engraçado trollar e discordar

era possível criar e argumentar

e o som ainda era audível

mas era bom

e foi bom

cadê

oi?

.

Eu ando pela cidade meio perdido, meio olhando para o céu.

Eu ando pela cidade cinza, procurando poesias desenhadas em suas paredes sujas e rabiscadas pelos sprays pretos comprados a vinte reais na loja da esquina. Naquela esquina da loja estranha e feia, com texturas coloridas mais feias e mais estranhas que a loja feia insiste estranhamente em vender.

Meio perdido na cidade que pouco se acha, me acho de vez em quando olhando para o céu. E comigo, a cada passo que dou, me fazendo companhia nessa cidade sozinha, vou com palavras que vão surgindo em seus caminhos sinuosos e secretos. Em seu percurso longo e conhecido, todo dia sempre igual, crio a rotina de procurar a cada dia, cada dia sempre igual, novas palavras sinuosas e longas nessa cidade estranha, suja e cinza toda vez que ando meio perdido, meio olhando para o céu.

E como em um texto solitário e angustiado eu sozinho fico andando por ai nessa cidade de duzentos bilhões de pessoas. E ela vai me dando companhia através de desenhos feitos pela luz nos recortes desse céu difícil de ser visto. Duzentos bilhões de pessoas amontoadas em prédios sujos e rabiscados com sprays que escondem, vez ou outra, meu companheiro céu quando ando meio perdido pela cidade.

Perdido. Fico cada dia mais perdido nela que sabe exatamente o que é. Sem se definir, ela vai se criando e se formando. Definida por sua não definição, a cidade me deixa perdido, e perdido me acho no redemoinho da perdição de um lugar com luzes que rendam o chão rabiscado de sujeiras e palavras produzidas e pensadas para e por ela, por duzentos bilhões de pessoas que moram amontoados em prédios que escondem seu céu.

E me sinto tão forte por ser perdido, por cada dia encontrar uma sujeira conhecia e outra nova nas poucas vezes que não olho para cima, que me acho nessa cidade que se perde em suas bilhões de definições.

Essa é a rotina que faz eu me achar em momentos que procuro palavras soltas em curvas duras de suas longas e sinuosas ruas. Rotina de uma cidade de duzentos bilhões de habitantes, muitos perdidos como eu, que se acham na sua estranheza e em seus incontáveis tons de cinza, tantos quanto as palavras e luzes perdidas dessa cidade com bilhões de ruas longas, sujas e rabiscadas.

E eu ando sempre do mesmo lado da calçada, essa é a minha rotina. E olho sempre para o céu, meio perdido na cidade construída que constrói, a cada passo meu, mais definições e desenhos com as luzes feitas pelos seus prédios altos para bilhões de pessoas morarem nela quando tapam o seu céu.

Às vezes mudo de lado da rua que todo dia passo. Que todo dia passo e faço sempre igual olhando para o céu de uma cidade definida sem definição. Às vezes mudo de lado da rua que todo dia passo para que um novo céu se abra. E uma nova cor no meu novo céu se cria nessa cidade que não cansa de não ter definição.

Enquanto isso no Call Center Divino:

Disque 1 para cristão. 2 para judeu. 3 para hindu. 4 para budista. 5 para muçulmano. 6 para satanista. 7 para espírita. 8 para umbandista.

CRISTÃO:

Disque 1 para católico ou 2 para evangélico.

Discou 1: para absolvição de pecados, reze 6 novenas e retorne depois. Para sistema opus dei, disque 2 para receber em casa o kit chibatada com um chicote novinho.

Discou 2: digite 1 para verificar o saldo de parcelas de dízimo atrasadas. Caso necessite de suporte técnico, disque para o “Fala Que eu Te Escuto”.

Para Adventistas do Sétimo Dia, o atendimento é feito de domingo à sexta, até às 18 horas. Sábado não há expediente.

Para Testemunhas de Jeová, pode-se solicitar a cartilha no salão mais próximo, ou aguardar um de nossos representantes que fará a entrega gratuita em sua casa todos os domingos às 6 horas da manhã.

JUDEU:

Senhor, esta ligação não está sendo cobrada. Para confirmar, digite 1. Caso desconfie que está sendo tarifado, digite 2. Caso queira seu dinheiro de volta mesmo assim, digite 3.

HINDU:

Senhor, informamos que o sistema de castas não está mais disponível e para efetuar uma migração de dalit para comerciante basta fazer o acesso direto.

Sim, enquanto à vaca, a mesma continua sendo sagrada, algo mais?

Para migrar para o “Plano Gandhi” o senhor deverá, assim que encerrar essa chamada, jogar seu aparelho celular, seu notebook e sua TV no lixo e aguardar o envio via correio que em até 9 meses um mensageiro de camelo que lhe entregará em sua residência um kit com um tear, uma agulha e um novelo para que possa confeccionar sua própria vestimenta. E ganhará inteiramente grátis um par de sandálias surradas e um cesta básica vazia.

BUDISTA:

Senhor, pedimos por gentileza que se dirija com o aparelho até uma sala vazia com uma parede branca. Ao chegar lá, pediremos que o senhor esteja se agachando com os pés cruzados, olhe fixamente para a parede e medite sobre a informação que deseja, fixando o olhar em um ponto específico.

MUÇULMANO:

Senhor, para verificar o saldo de virgens disponíveis em sua conta com Alá no paraíso, peço que verifique suas pendências atuais, que somam um total de 12 dias sem fazer a oração diária apontando em direção à Meca.

SATANISTA:

Verificamos em nosso sistema e disponibilizamos mais 666 possessões como degustação grátis em sua conta. O limite diário é de até 6 possessões e se ultrapassado, nossos exús entrarão em contatos e jogarão um pacote de encostos em sua alma, o deixando de pênis mole por até 90 dias.

ESPÍRITA:

Para essa vida, digite 1. Para Nosso Lar, digite 2. Para Mesa Branca, digite 3. Para verificar se Chico Xavier está online, digite 4. Para psicografia via Twitter, digite 5 e para incorporar um de nossos espíritos, aguarde na linha até sentir um arrepiozinho na nuca.

UMBANDISTA:

O serviço digital para esse setor está temporariamente indisponível e é necessário se dirigir ao terreiro mais próximo. Lembrando de levar em mãos um maço de velas, uma galinha preta, um litro de cachaça Ypióca ouro e um charuto. Assim, o atendimento será feito de forma analógica, com a utilização de tambores.

OUTRAS RELIGIÕES OU SEITAS MENORES:

Em breve estaremos divulgando a lista de pontos de atendimento para seitas não-cadastradas em nosso sistema. Estamos tendo dificuldade de atualização devido ao número crescente diário de novas denominações religiosas e pedimos vossa paciência ou solicitamos que migre para o “Plano Ateu”.

Para adquirir o “Plano Ateu” basta ignorar esse atendimento e seus problemas serão transferidos para você próprio imediatamente.

Algo mais?

quando eu mais quiser, quando você menos precisar. Dance para mim daquele jeito belo e desesperado, com toda a pressa e vontade eterna do segundo mais rápido do mundo. E eu ficarei anos depois para reconstruir esse instante. Anos reconstruindo em minha mente quase doentia os movimentos bobos e aleatórios que você fez, sem querer querendo, para mim, só para mim.

Dance porque é assim que nos conhecemos e é assim que você fica mais perto do meu mundo. Porque, ao contrário do que todo mundo sempre pensa, felicidade não é viver uma grande paixão mas ter alguém que te faça sorrir com passos desengonçados e quase nenhum ritmo.

Porque só na dança eu, primeira pessoa do singular, vejo você, primeira pessoa que penso quando estou feliz. Só nela e com ela eu consigo, mesmo somente olhando, participar de um momento íntimo e intransferível. Porque eu-chão, seu-chão, não tenho como não amar seus pés firmes encima de mim. Somos a equação fácil do amor do solo com a árvore, do ritmo com a vontade de se mexer, do óbvio feijão com o arroz e da deliciosa piscadinha com o sorriso mais terno e doce que existe.

Dance olhando para baixo, fechando os olhos de leve, mexendo os braços fazendo-os desenhar o ar. Dance trocando os pés de lugar, rabiscando o mundo num mapa imaginário onde só tem sentido se você e eu, vez ou outra, nos esbarrarmos por ai. Dance aquela música indie estranha, que todo mundo só vai se acostumar com sua sonoridade daqui a um ano ou mais, porque você tem o movimento como tema e usa com isso o compasso da leveza quando quer me conquistar.

E quando eu ficar doente, dance ao pé da minha cama. E quando o mundo gritar com você, responda com o mais suave e decidido gesto de braços e pernas e cabeça e ombros e barriga e pescoço e dedos e pele e pelos. Porque é disso que o mundo precisa e é isso que eu espero de você.

E dance para mim quando acabar o nosso amor,

dance para mim para passar a minha dor,

dance sem precisar ser feliz,

sem motivo, dance, apenas dance.

 

E se eu fosse Nora Ephron faria um filme sobre você dançando. Mas não sou. Fico assim com o pedido cabal e fatal, pela última vez: dance para mim. Só para mim.

nota: fui assistir ao filme da Madonna, W.E., que não é da Nora Ephron, mas isso pouco importa. Sai de lá só pensando em dançar. E é assim que vai ser.

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