Em “Febre de Bola”, o Nick Hornby diz que os obsessivos tem uma memória mais CRIATIVA que os… não sei como ele chama “os outros” que não são obsessivos, mas eu me sinto muito à vontade para chamar de “pessoas normais” todos aqueles que não dão a mesma resposta que eu dei para a minha cunhada quando ela perguntou de quando era Karatê Kid:
- Eu acho que é de 84, mas passou na Globo pela primeira vez num domingo à tarde, em 86.
Sim, as pessoas me olham de um jeito esquisito, primeiro achando que eu inventei isso, depois querendo algum tipo de explicação, que é a seguinte: no dia em que passou esse filme (que eu já tinha visto no vídeo umas duzentas vezes) na Globo, a Bandeirantes passava o primeiro jogo das semi-finais do Paulistão entre Palmeiras x Corinthians. Sim, eu sei que o verdadeiro jogaço foi a segunda partida, mas o que me marcou nesse caso foi que, no dia seguinte, eu não conseguia comentar com ninguém sobre os desvarios do juiz larápio em favor do Corinthians, pois todo mundo (ATÉ MESMO OS HOMENS, OS QUE GOSTAVAM DE FUTEBOL!) só falava da porra do filme! Foi a primeira vez que testemunhei a dura realidade que o futebol não era o centro do universo para “os outros”. Coitados…
É que 86 foi o ano do meu “nascimento” como Palmeirense, tem também esse agravante. Se algum dia eu resolver escrever o “meu” Febre de Bola, essa história será quase que uma mola mestra de tudo. Sim, durante muito tempo eu devotei mais paixão pelo Goiás do que pelo Palmeiras, e a promiscuidade de quem crescia em Goiânia nos Anos 80 permitia numa boa que você tivesse 3 times (em GO, no RJ e SP), mas a minha IDENTIDADE futebolística veio com o Palmeiras. Gosto muito de dizer que foi aqui em Sorocaba que conheci duas das minhas grandes paixões: o Palmeiras em 86 e a Laura em 98. E é claro que o Duda, a maior de todas as paixões, ainda que a Laura não saiba, tem muito a ver com o Palmeiras, em termos de projeção e expectativa – sem falar na questão do nome dele, claro. Bom, a Laura não sabe, mas enquanto a gente decidia pelo nome dele, nenhum nome que eu queria a agradava e vice-versa, até que surgiu Eduardo. Por breves instantes, passaram algumas informações pela minha cabeça e eu concordei. Muito rapidamente, reconheço, o que suscitou nela uma certa curiosidade em saber como vencera tão fácil. A minha habilidade argumentativa vive me surpreendendo, e não sei de onde eu tirei que seria legal Eduardo, pois assim a gente poderia chamá-lo de DUDA, que é o apelido pelo qual minha família em Goiânia me chama. Ao dizer isso, achei que colocaria tudo a perder, pois me pareceu uma forma alternativa de colocar o nome de JÚNIOR nele, e se tem uma coisa que a gente sempre concordou, foi que Júnior é algo babaquérrimo.
Acabei dando sorte e o meu filho não só é Eduardo, como também é Duda, como eu. E mais, ele é Duda, filho de um Randall e neto de um Randall, como eu. Mas na verdade, o consenso para que ele se tornasse Eduardo/Duda surgiu no exato instante em que me dei conta de duas coisas:
1- Jamais conseguiria convencê-la de que o nome Edmundo era uma opção. Porém, Eduardo era o mais próximo que eu conseguiria chegar do meu objetivo, com as mesmas duas letras no começo e as duas no final. Já era alguma coisa!
2- Lá em 86, quando eu resolvi me tornar Palmeirense, eu precisava de um ídolo, claro! Mas isso seria difícil num time cujos maiores destaques eram o Éder, Jorginho Pé Frio, Lino, Gerson Caçapa, Mendonça e Mirandinha. Mas no meio desses “bondes” surgiria um garoto que jogava o fino, combinando raça e habilidade como o Edmundo viria fazer com mais excelência e resultados entre 93 e 95, e o nome desse garoto era Edu. Pronto, eu já poderia me considerar Palmeirense, pois tinha um ídolo no meu time, e teria que esquecer de uma vez por todas a minha irrestrita admiração por Sócrates e Casagrande, meus ídolos pré 86, quando eu era um apátrida futebolístico no Estado em que nasci.
Assim, pude garantir ao meu filho o legado de um nome com raízes Palmeirenses!
Agora que está provado, acima de qualquer dúvida razoável, que existe uma diferença CLARA entre os obsessivos como eu e as “pessoas normais” como muitos de vocês, a gente pode falar sobre a gênese de um Palmeirense…
Sorocaba, julho de 86 – Como era costume, vim passar férias em Sorocaba, na casa da minha tia. A grande novidade era o frio, achava o fato de dormir de abrigo de moletom e dois, às vezes três cobertores, quase uma atração turística à parte! Mas além disso, existia um clima, uma RIVALIDADE futebolística entre a molecada da rua em que o meu primo morava, que em nada se comparava com o que eu experimentava em Goiânia. Sim, até existia uma rixa entre torcedores do Goiás e do Vila, mas como todo mundo era “Flamengo no Rio”, meio que tava tudo certo. Ali, não, era tudo muito bem definido! Meu primo, Corintiano, não tinha, nunca teve e acho que nunca terá, uma peça de roupa VERDE. Eu acabei ficando afinzão de me inserir naquele contexto, mas eu não tinha time em São Paulo. Na verdade, eu dizia que torcia pro América de Rio Preto simplesmente por ter nascido lá, e o meu pai jura de pé junto que eu era Santos só porque ele era. Mas o meu pai “era Santos” de um jeito extremamente relapso, me parecia muito mais um estelionato afetivo só pra poder falar pros outros que torceu pro time do Pelé. Eu NUNCA fui Santos, apesar de toda a simpatia que tenho até hoje pelo time (na verdade, na reta final do Brasileiro de 2002 e na Libertadores do ano seguinte, torci por eles com um fervor que só conseguia devotar ao Palmeiras mesmo), mas quase fui Corinthians. Talvez, se tivesse dado certo de ir no Morumbi assistir aquele Corinthians x São Paulo no meio da Gaviões da Fiel como meu tio nos prometera, eu acabasse sendo “picado”, mas ao invés disso, ele achou que eu iria curtir MUITO MAIS um São Bento x Palmeiras, no aprazível estádio Walter Ribeiro, o CIC.
E não é que ele estava certo? Foi a minha primeira vez num estádio que não era o Serra Dourada, e é bom que se compreenda que, em termos de VARIAÇÃO, teve muito mais impacto assistir um jogo no CIC do que teria no Morumbi. Sim, o estádio do São Paulo é maior que o Serra Dourada, mas se você pensar na EXPERIÊNCIA, seria apenas ir de um estádio grande para outro MAIOR. Porém, no CIC, os jogadores ficavam a poucos metros de distância da gente e aquilo, no início me assustou, depois, me maravilhou! Tudo adquiria outra dimensão: os carrinhos, os dribles, os chutões… sem falar no que a gente conseguia OUVIR! Por exemplo, deu pra ouvir claramente a solerte instrução do Leão de “abre, abre, abre PORRA!!!” dispensando a barreira enquanto o Edel se preparava pra cobrar uma falta da intermediária, bem como deu pra ouvir o barulho do pé do Edel na bola antes dela descrever uma trajetória variável e morrer no fundo do gol do Palmeiras! O jogo foi 1 x 0 pro São Bento, fato comemorado pelas pessoas exibindo um orgulho citadino que hoje em dia não existe mais. Minha empolgação era tamanha que no domingo seguinte, os meus anfitriões entenderam que era quase uma obrigação me levar ao Morumbi para a minha estreia num estádio da Capital, e o jogo era propício: São Paulo x Palmeiras!
Quem me levou foi um cara que casou com uma prima da minha mãe, Palmeirense, que morava em Sorocaba, mas tinha crescido nas Perdizes, tendo sido sócio E atleta do Palmeiras. Ouvi histórias fantásticas no trajeto e tomei conhecimento da “fila” de 10 anos sem títulos que o Palmeiras enfrentava depois de um período brilhante, além de descobrir que o Palmeiras foi o único time que impedira o Santos de Pelé ser eternamente campeão paulista no auge do time praiano. Claro, não podia deixar de empenhar a minha simpatia por ele, mas se o São Paulo não tivesse enfiado 5 x 1, garanto que o clima teria sido muito melhor. Acho que a única coisa que eu poderia fazer, algo que estivesse ali ao meu alcance pra amenizar os sentimentos dele – e hoje, me vendo no lugar dele, sou capaz de dar a devida dimensão a esses sentimentos -, falei que tinha decidido me tornar Palmeirense.
Sei que parece tresloucado e incoerente alguém resolver se tornar palmeirense depois de ver um time, que está há dez anos sem ganhar absolutamente nada, perder para um time insignificante do interior e levar uma goleada do São Paulo, mas quem me conhece, entende. Uns vão dizer que é a minha eterna vocação em ser “do contra”, outros não estarão muito errados ao afirmar que tal ato poderia ser interpretado como “tiração de onda”, mas foi assim. Vim pra Goiânia no meio da semana seguinte, a tempo de assistir com um amigo do meu pai que era corintiano, o Palmeiras fazer 5 x 1 no Corinthians, mas nem me deram o direito de comemorar apropriadamente, dizendo que ainda não “entendiam” esse negócio de ser palmeirense, era fogo de palha!
Aí veio esse tal jogo que passou no mesmo horário que Karatê Kid, perdemos de 1 x 0 pro Corinthians num dos maiores roubos da história do futebol (dentre outras coisas, o juiz expulsou o Edu, meu ídolo máximo!) e precisaríamos vencer o Corinthians pra forçar uma prorrogação. ESSE jogo foi o meu BATISMO como Palmeirense, pois teve de tudo! Pra começar, o meu pai, detentor de uma lendária antipatia pelo Corinthians, resolveu torcer pra eles justo NESSE dia, justificando que era por causa do Cacau (jogador do Goiás que o time paulista tinha comprado). “Tudo bem”, pensei, ele tinha feito o mesmo com o Atlético – MG em 80 e o Santos em 83 contra o “meu” Flamengo, portanto, a vantagem era totalmente minha! E foi muito sofrido! Somente aos 42 minutos do segundo tempo, depois de uma pressão inacreditável com direito a uma pancada no travessão do Éder, acontece uma falta pro Palmeiras na meia direita. O Jorginho joga a bola na área, alguém que eu acho que era o Vágner Bacharel cabeceia firme, pra baixo, certeiro, e o Carlos defende… nesse momento, eu estou de joelhos no carpete da sala, com uma lágrima pronta pra sair, quando o Mirandinha aparece no rebote e chuta fraco, mas com força suficiente para a bola entrar… ajoelhado mesmo, comecei a gritar e chorar ao mesmo tempo, sentindo pela primeira vez que aquela alegria toda era minha de direito, eu tinha legitimidade para poder me alegrar com uma vitória épica sobre o maior rival!!! E a vitória se tornou ainda mais épica na prorrogação, com outro gol do Mirandinha e um Olímpico do Éder, finalmente entrou o gol que ele tanto tentou fazer na Espanha em 82!!!!
É claro que você sabe tão bem quanto eu o final dessa história em 86: perdemos EM CASA o título para a Inter de Limeira, 2 x 1 depois de uma atrasada de bola mal sucedida de um lateral esquerdo loirinho cujo nome não se pronuncia. Mas sem sombra de dúvidas, aquele primeiro ano me forneceu tudo aquilo que eu iria precisar para ser um torcedor do Palmeiras: sofrimento, decepção com títulos perdidos de forma idiota dentro de casa, surras do São Paulo, vitórias improváveis e históricas contra o Corinthians e tudo aquilo que não se explica, mas que faz de você um autêntico Palmeirense!