Fiquei um tempo longe porque tava num lugar bem interessante, para onde um dia, pretendo voltar.

Lá podia fazer sexo ao ar livre.

Fumar sem ser censurado.

Falar mal dos outros dava câncer.

Ser invejoso, também.

As árvores tocavam música.

Não existiam mosquitos. Nem baratas.

A gente se drogava sem ter bad trip.

Doces e frituras não engordavam.

Cerveja não dava barriga, nem empapuçava.

O sobrenatural também era natural.

Ninguém tinha que pedir nada pra ninguém lá de cima.

Já que a bênção era o ar.

O jornal era só agenda cultural.

Não colocam uva passa na maionese.

Podia usar a roupa que quisesse ou não usar roupa alguma.

Haviam cascatas de Johnnie Walker.

Todo mundo lia gibi e jogava videogame.

Bebês já nasciam independentes.

Não havia mentira. Nem governo. Nem censura.

Nem Djavan.

Eu tava comentando com a Laura de um livro desses antropologicoides sobre família e tale coisa, que uma das coisas fundamentais para o filho ter uma cabeça boa é cultivar a auto estima dele na primeiríssima infância, e falei sobre as sugestões de como fazer isso: elogiar o filho, não ressaltar o fato dele ser feio (caso seja), perceber e elogiar pequenos feitos, e deixar a criança ganhar na maioria das vezes em que jogar algo com ela. A Laura sabia no que eu estava pensando, tanto que falou de bate pronto:

- Nossa, por isso a sua auto estima é assim, tão ruim…

Eu não sei exatamente do que ela estava falando, pois o repertório dos meus pais para foder minha auto estima, de acordo com a opinião de especialistas, foi vasto e eficaz. Mas eu, só pensava nas partidas de “damas” que meu pai jogava comigo e ganhava de um jeito em que eu ainda tinha pedras no tabuleiro, mas não podia movê-las. Ele ficava “joga, você ainda tem pedra, joga… por que você não joga?”. E ele só se dava por satisfeito quando eu cantasse “Mico pretooooooo” até chorar. Antes de ler esse livro, eu só achava uma crueldade lancinante e sem o menor propósito, mas isso de sacanear criança era meio comum na minha família, e a gente tinha até um lance de achar bonito. O Petrônio, primo caçula irmão do Chewbacca e do The Pelvis (escrevi o nome deles só porque a Paulinha diz que não acredita que eu conheça pessoas com esses apelidos), sofreu como um cão na minha mão, do Pescoço e do Le Clerck (do Le Clerck nem tanto, só o coloquei aqui pra ter um apelido bizarro a mais), até a Laura dizer, indignada, que foi por causa de tratamentos assim, que ela tem esse temperamento de pit bull com dor de dente e o apelido de ariranha. Mas, além de ser uma crueldade sem propósito, essas gracinhas do meu pai ainda resultaram em danos na minha auto estima e o resto todo mundo que me conhece, já sabe.

E aí, minha mãe tentou viver sua vida e ter outra família. Um dos seus defeitos foi não ter, como sugeriu o Garrincha a um técnico, ter “combinado com os alemão”. No caso, eu. Eu estava incluso nesse novo plano dela, de outra família, outro ambiente, tale coisa. Não ia dar certo. Nem fodendo! Quer dizer, não deu e ficar dizendo isso agora é exatamente o mesmo que chutar cachorro morto, mas ela deveria ter se dado conta que entre eu e o namorado dela não ia rolar, simplesmente porque o cara não gostava de futebol. Aliás, ele detestava futebol. Indo um pouco mais além, ele achava que as misérias e mazelas do Brasil e do mundo, tinham alguma relação com o futebol. Jogava vôlei. E tênis. Era médico. E militar. Mas tudo isso dava pra relevar, menos o lance com o futebol. Era do tipo que se indignava com o salário dos jogadores de futebol, sempre comentando que um analfabeto desses ganha mais do que ele, médico… dava vontade de responder como um técnico do Botafogo respondeu ao presidente do time, quando este disse que o Garrincha ganhava mais que ele, que era engenheiro:

- Talvez o senhor não seja o Garrincha dos engenheiros…

Assisti a maioria dos jogos da Copa de 82 ali, por opção, estratégia e imposição da minha mãe. Se eu falei outro dia que viver com o meu pai em determinado período foi como viver na guerra, morar com a minha mãe foi exatamente como viver na Ditadura. Brava! Chumbo total! Era para eu dizer que queria passar aqueles dias de férias e alguns finais de semana em Anápolis, senão ia ter porrada, e com a minha mãe sempre tinha porrada! E eu assisti os jogos da segunda fase ali, com um cara que não gostava de futebol e uma mãe que também não gostava, e quando o Brasil perdeu AQUELE JOGO para a Itália, tive que ouvir que foi bom termos perdido. Bom? Comecei a chorar, minha mãe me mandou chorar no banheiro, eu fui e depois apanhei mesmo assim, por ter chorado.

Lembro do Nelson Motta dizer, na final da Copa de 98, que pelo menos a derrota foi em Paris, duro mesmo foi perder em 86, em Guadalajara… em 82, eu perdi no pior lugar do mundo de se estar, e a esperança naquela Seleção de 82 era a única coisa que ainda dava algum alento naqueles anos de chumbo!

Ele estava na casa de uma amiga, por conta do aniversário dela. Deveriam estar umas vinte pessoas, sendo que muitas ele nem conhecia. Mas quem lhe chamou a atenção foi a loirinha de olhos verdes e blusa decotada, que, de tempos em tempos, sorria um sorriso daqueles capazes de fazer o coração disparar.

Armado de três doses de uísque – duas na cabeça e a terceira na mão – criou coragem para se aproximar e puxar assunto. O nome dela era Carla, tinha 23 anos e estudava Relações Internacionais. E de perto, o sorriso dela era mais encantador ainda. Tudo parecia ir bem, até que ela perguntou o que ele fazia da vida.

- Eu escrevo.

- Escreve? Como assim?

- Eu sou escritor.

- Ah, que demais! Quantos livros você lançou?

- Nenhum. Quer dizer, ainda. Mas eu não escrevo romances.

- Ah, então você é jornalista, né? Meu primo é jornalista! Ele escreve sobre futebol!

- Não, não, eu escrevo ficção mesmo. Mas não escrevo romances.

- Ué… O que você escreve? Ah, já sei! Você é poeta!

- Não, eu…

- Nossa, deve ser muito complicado ser poeta no Brasil, né?

Ela sorriu mais uma vez. Mas, mesmo sendo encantador, o sorriso dela agora foi mais de simpatia do que de sedução. Provavelmente, ela havia imaginado o quanto um poeta ganharia e teve dó do rapaz.

- Então, na verdade…

- Ah, mas eu adoro poesia! Tem umas que são lindas! Você faz sonetos?

- Não, é isso o que estou tentando dizer. Eu não sou poeta.

- Ah, mas se você escreve ficção e não lança livros…

Ela deixou o resto do pensamento no ar. Ele aproveitou e deu mais um gole no uísque, mas, antes que pudesse falar, ela continuou:

- Você não picha muros, né?

Ele quase engasgou com uísque.

- Como assim?

- Ah, sei lá… Eu já vi uns muros por aí com uns textos pichados. Não é isso que você faz, né?

- Não, claro que não! Eu sou cronista!

- Cronista?

- Isso.

- Como assim?

- Eu escrevo crônicas.

- Crônicas? São aqueles contos pequenininhos?

- Hum… Sim, acho que você pode dizer isso…

- Ah, mas que demais! E você escreve para algum jornal?

- Não, eu…

- Porque eu já li algumas em jornal, achei demais!

- Não, não. Não escrevo para jornais.

- Mas você escreve crônicas sobre o quê?

- Sobre tudo. Sobre a vida, sobre amor, sobre o cotidiano…

- Eu acho crônica super bonitinho!

- Bonitinho?

- É, ele é um continho, né? Quase um filhotinho de conto. Acho fofo.

- Fofo?

- Sim.

- Não é fofo!

- Mas de onde você tira as ideias?

Mais um gole no uísque. Estufou o peito e respondeu.

- De qualquer lugar. Basta andar pela rua para descobrir as crônicas. Escrevo sobre mim, ou sobre pessoas que vejo na rua. Ou sobre pessoas que conheço. Às vezes, tenta dar um tom de humor, mas, em outras sou mais romântico.

- Ai, eu adoro textos românticos!

- Eu gosto também. Quer dizer, gosto de escrever sobre eles.

Ele já havia passado por isso antes, pelo menos umas duas vezes. Ela perguntaria onde poderia ler suas crônicas. As mulheres sempre faziam isso. Claro que tinham outras mais ousadas que já lançavam alguma pergunta como “o que você escreveria sobre mim?” ou “qual tipo de texto eu seria?”, para desafiar o escritor e, assim, tentar cativar o homem. Mas esta parecia ser do tipo mais tradicional, que demonstraria interesse nos textos de uma forma mais contida.

- Onde você publica?

Bingo.

- Ah, no meu blog mesmo. E em alguns outros sites da internet.

- Ah, então você não é escritor, é blogueiro!

- Oi?

- É! Eu gostava de blog quando estava no colegial! Era meu diário!

- Não, eu sou escritor…

- Minha priminha tem um blog hoje.

- Então, mas eu…

- Ela fala do Justin Bieber, porque ela é fã! Você fala de música também?

- Não, eu não sou…

- Aliás, você não é velho demais para ter um blog?

- Eu sou escr…

- Não sabia que gente da sua idade tinha blog também! E ainda com crônicas fofas! Que demais!

Foi quase o fim da festa. Ele gritou que não era blogueiro, era escritor, porra, e resmungando palavrões, saiu atrás de outro uísque. O clima ficou pesado, com todos em silêncio. Mas, aos poucos, as conversas paralelas voltaram e logo a situação estava esquecida por quase todos. Menos por ele, que ficou enchendo a cara num canto e, claro, pela loirinha, que não perdeu tempo para ir explicar o que havia acontecido para a dona da festa.

- Desculpa a confusão, Lê, mas esse seu amigo é muito grosso.

- Então, eu não entendi o que aconteceu. Ele escreve cada texto lindo…

- Ah, duvido. Um cara escroto desses?

Sim, colocar o nome de uma música do Elvis no título do post já pode parecer um truque sujo pra angariar leitores e nem vou me dar ao trabalho de elaborar uma defesa. Porém, acho que anda faltando isso: um pouco menos de conversa. De “conversinha”, no caso.

Não falo pelos meus amigos, mas de um modo geral e hoje em dia, existem aí as “redes sociais” pra nos dar amostras em quantidade pra qualquer tipo de, digamos, pesquisa. E nesse caso, me dá no saco a quantidade de gente que fica meio que catalogando mulher. Que tem que usar a lingerie X e não pode usar creme Victoria Secret porque é cafona… sério, homens falando isso aí de Victoria Secret! E os que ficam falando do pé das mulheres, o PÉ! Esses caras jamais comeriam uma bailarina, que tem os pés fodidos pelo ofício, mas em função do mesmo ofício, desenvolvem habilidades mirabolantes!

Sabe o que eu acho? Que esse pessoal coxinha fica brilhando muito na balada tomando seu “red label” com energético e aí tem que rolar um ASSUNTO. Amigos: falem menos e trepem mais. Trepem mais e trepem melhor! Vão ficar nessa de falar do cabelo… hoje em dia, época das escovas progressivas (sempre vou imaginar que isso é um tratamento capilar que dura o tempo de um disco do Yes), quase todo cabelo é igual. Se elas quiseram unificar seus cabelos, quem são vocês pra criar nichos?

Bunda e peito. Não necessariamente nessa ordem. E no meu caso, nem é o que tanto importa, mas sou generoso o suficiente pra não medir os outros pelo meu metro. O que quero dizer é que numa conversa sobre isso aí, o máximo de tolerância é isso. Ok, aceito “coxas” com alguma reserva, mas daí em diante é tergiversar. Um cara uma vez começou a falar de panturrilha e eu até hoje acho que o lance dele é com jogador de futebol.

Desconfio de todo cara que só gosta de mulher muito magra, acho que reside um canalha fundamental nessa pessoa. Gente que não come mulher que fuma, então, deveria dar a bunda pro Dr. Dráuzio Varela. Ou melhor, o cara pode até não querer comer uma mulher, pelo motivo que for, inclusive esse tabagístico. Mas a partir do momento em que ele proclama isso, tenho certeza que ele não anda comendo ninguém. Direito, no caso. Pode até comer a namoradinha, mas tenho certeza que ela não sabe o que é uma trepada homérica e fantasmagórica há muito tempo! Cara que sai acusando que a mulher era ninfomaníaca? Não dava conta do recado e broxava ocasionalmente. O que fala pros bróders que a mina dava o cu? Levava fio terra e gostava, mas ISSO ele não admite enquanto sorve sua caipirinha de sakê com frutas vermelhas!

Enfim, pessoal anda FALANDO muito. E nem sei se tem trepado menos do que deveria, mas a impressão é essa. A little less conversation, please.

Uma vez, numa pós graduação, Dona Rose pediu para eu corrigir um texto dela. Era sobre sua relação com a sala de aula e vi que sim, ela nasceu para isso. Montava mesa no quintal da casa da minha vó para dar aula particular pros vizinhos. Isso quando ela também era criança. Já com três monstros em casa, fora a escola, ela também dava aula particular para todo mundo que pedia. De qualquer matéria, coisa que de fato nunca consegui entender. Ela usava a mesa da cozinha como lousa e com lápis eu desenhava e fazia aquelas fórmulas exóticas de matemática nela. Para voltar a almoçar, passávamos detergente e estava tudo novo, de novo. E posso garantir que nunca na história deste país se fez lousa mais legal do que aquela mesa beginha.

Eu nunca pensei em ser professor. Para falar a verdade, acho que até hoje não penso nisso. Isso não é vantagem: nunca tenho certeza de nada mesmo.  Mas nunca escondi de mim que, independente do que eu estudasse, daria aula. E foi assim que comecei numa escola estadual. Junto com o escritório de arquitetura, passei por alunos da quinta série ao supletivo. Epopéia de três anos por gente de dez a oitenta. Sim, três anos achando que muitas vezes eu falei para as paredes, três anos que eu dei prova difícil e que eu sentei a mão nas notas vermelhas. Três anos que eu discuti sobre Picasso, Pollock e site specific com eles. Fiz brinquedo para ser doado na brinquedoteca do hospital público e enfiei goela abaixo Amilcar e Warhol em quem caiu na minha mão. Uma vez levei dois ônibus lotados de alunos, sozinho, para o MAM. E me convidaram para assistir um curso para educadores. Num dos encontros, levei a Mirtes. A coloquei no museu como aluna e ela me tirou de lá como professor também do museu.

Quando me formei, falava que só pensaria em entrar no mestrado depois de cinco anos de formado. Não tinha pressa, nunca tive. E, sem pensar nisso, cinco anos depois, entrei. Sofri e chorei como nunca. Você não sabe escrever academicamente e você não está aqui para escrever livro muito menos fazer poesia foram as frases mais fofas que ouvi. E não adiantava falar que eu não sabia diferenciar mal de mau e que mas e mais para mim era tudamesmacoisa. Tomei porrada de todos os lados e por todos os ângulos. Umas vinham com amor, outras nem tanto mas aprendi a criar chão para cair e sair andando sem muito tombar. Lá a Vera me botou rédeas, lá me envolvi na disciplina mais legal da FAU. Sobrevivi. E sai sabendo que da sala de aula dificilmente eu sairia.

Hoje estou na Puc. Comecei na disciplina de desenho. Quando fui fazer a entrevista, meu diretor perguntou porque eu fui o único que se inscreveu para concorrer somente nesta disciplina e não em todas, como os outros. Acredito piamente nela, falei. E entrei. Depois de oito anos dando aulas aqui e ali, fui ser bixo-professor junto com meus bixos-alunos. E sem história vou começar tudo de novo este ano. Até porque história só existe entre quem a vive, ou quem a conte. E vamos viver assim, eles e eu, como bixos famintos e sedentos por carne nova, suculenta e cheia de sangue. O último que sobrar, que registre.

Este ano começo e fecho o ciclo com os alunos. Circulando entre primeiro e quinto ano, falarei bem vindo pra quem entra de novo e também boa sorte para quem se vai pela primeira vez. Com pânico? Sim senhor, estou sim. Ansioso? Minhasalma, sou o puro purê da ansiedade, como diria Ana Ju. Mas a gente vai sobreviver. E quem sabe, de lambuja, não aprendo esse treco de mal e mau, enfim.

E só pra fechar: obrigado mãe, por fazer eu querer ser como você.

Obrigado Mirtes e Vera por loucamente acreditarem e confiarem em mim.

Obrigado alunos por, como eu, saberem que um bom papo na fila do café, é muito mais legal e significativo do que power points chatos e cheios de teias feitos a oitocentos anos atrás. Nossas frases profundamente rasas e minha doçura ao falar para pararem de manha e de serem vagabundos me fazem não só morrer de orgulho mas ter a certeza cabal de que serão melhores do que eu.

E sim, sou filho de professora. Isso, definitivamente, não me faz e não me obriga querer ser professor. Mas eu quis. Que comecem os trabalhos.

Pode ser que esse texto não faça o menor sentido pra quem não vê 24 Horas, posso lidar com isso. Mas o carisma é algo tão foda que faz com que o Tony Almeida saia da condição de super heroi da nação para facínora mor, mas ainda assim, eu siga gostando dele. Claro que o que ele fez é indesculpável, mas primeiro: é filme! Segundo: quando ele matou o Agente Larry Moss, o maior dos Zé Regrinhas da história, bom moço empenhado no estrito cumprimento do dever legal, não consegui ficar com dó. E não só pelo fato de “ser filme”, porque mesmo sendo filme, fiquei deprezão com a morte do Bill Buchanan – além de ter ficado muito mal quando o próprio Tony Almeida “morreu” no final da Quinta Temporada.

Mas isso de não sentir muita dó sempre vai me lembrar do 11 de Setembro. Não consegui me solidarizar com a “dor dos americanos”. Claro, as pessoas que morreram ali foi uma merda gigantesca, mas o lance da nação em luto não me comoveu. Sim, de certa forma, eu acho que eles mereceram e ainda que pareça oxímoro, sei que ninguém merece o que ocorreu. Acho que foi a versão Zangief Kid do Bin Laden e seus astecas contra o bullying dos EUA. Eu preferia que não tivesse rolado aquilo, preferia que algumas pessoas não “comemorassem” a reação, mas acima de tudo, queria que os EUA se tocassem que não podem fazer o que bem entendem com quem bem entendem.

Eu só acho que o pessoal barbudão com toalha na cabeça tá perdendo uma excelente oportunidade de prestar inestimável serviço à comunidade paulistana, orquestrando um ataque cirúrgico, sem nenhuma morte, à hedionda Árvore de Natal do Ibirapuera durante o mês de dezembro… fica a dica pra 2012, acho que era bem capaz de aumentar bastante os simpatizantes à causa deles!

A tarde já passava da metade quando a mulher entrou em casa, apressada e carregando duas sacolas. Havia passado a manhã no cabelereiro, almoçado rapidamente na rua e dali partira correndo para buscar seu vestido e os sapatos. O tempo era curto, e esperava que o marido e seus filhos já estivessem se arrumando para o evento.

A realidade se mostrou bem diferente. Seus filhos estavam na sala jogando videogame, ainda de pijama. Todos os quatro. O marido, usando somente uma calça jeans, estava apoiado no balcão da cozinha, lendo o caderno de esportes e beliscando azeitonas, direto do pote.

Largou as sacolas no chão e foi direto ao ponto – afinal, o tempo era curto.

- Vocês já tomaram banho? Por que não estão se arrumando?

Quem respondeu foi um dos filhos, sem sequer desviar os olhos da televisão e tampouco disfarçando o tédio em sua voz.

- Porque não queremos ir desta vez.

- Como assim?

- Todo ano nós temos que ir nisso?

- Evidente que sim.

- É um saco! A gente nunca tem nada pra fazer ali.

Era verdade. Não necessariamente a parte do “é um saco”, mas pelo menos aquela que falava sobre “todo ano”. A mãe sabia disso. Ela sabia que sua família, diferente das outras, tinha outros compromissos anuais, além dos tradicionais Natal, Ano Novo e Dia de Ação de Graças.

E sabia também que isso pesava sobre os ombros das crianças. Desde que entraram na escola, tinham dificuldade em fazer amigos e, muitas vezes, eram alvos de piadas por causa disso – o mais novo era até mesmo chamado de “terninho” pelos colegas. Ou seja, a cada ano que passava, os meninos pegavam mais ranço dos costumes da sua família.

Mas mesmo isso era compreensível. Afinal, os outros garotos e garotas eram novos demais para entender porque sua família passava os primeiros meses do ano indo para diversas reuniões estranhas e secretas. E o fato de sempre saírem de casa no meio do dia, usando ternos e vestidos enormes, para retornarem somente no meio da madrugada, não ajudava muito.

Em outro dia, ela se sentaria à sala e explicaria aos meninos que cada família era diferente, com costumes, hábitos e religiões próprias. E com calma, explicaria a eles que os costumes da sua família, mesmo diferentes das outras, precisavam ser respeitados e que era importante que eles fossem a cada evento destes.
Mas isso em outro dia. Hoje, ela precisava fazer com que todos estivessem arrumados e prontos para sair de casa em duas horas. Assim, ela escolheu o caminho mais lógico: o do grito.

- Nós não vamos discutir isso! Todo mundo vai para cima, tomar banho! Agora!

- Eu não quero tomar banho!, gritou o caçula.

- Você quer viver?

- Bem… Sim…

- ENTÃO JÁ PARA O CHUVEIRO!

Resmungando, os garotos obedeceram. Menos o mais velho, que resolveu, pela primeira vez na vida, peitar a mãe.

- Eu não vou.

Os outros meninos pararam na escada. Afinal, a discussão interessava a todos.

- Sim, você vai.

- Não, não vou. Eu fico ali horas sentado, sem fazer nada. Eu quero sair com meus amigos.

- Você faz ideia do quanto qualquer pessoa gostaria de estar no seu lugar?

- Não me importa. Desde que eu nasci tenho que ir nisso! Eu quero ficar um ano sem precisar passar por isso! E eu detesto colocar gravata.

Ela se sentou e, com os braços apoiados no joelho, escondeu o rosto entre as mãos. Respirou fundo. Era hora de manter a calma. Em outros anos, os filhos já haviam reclamado de ter que ir, mas nunca enfrentado a mãe diretamente. Nunca desse modo. Era hora de argumentar, não de brigar.

- Meu filho, é muito importante para mim que você vá.

- Por quê?

- Porque eu vou todos os anos, desde muito nova. Você nem tinha nascido e eu já estava lá. Eu praticamente fui criada dentro destes lugares, todos os meus amigos vão estar lá.

- Mas por que a gente tem que ir todo ano? Por que você é chamada para ir, em todos os anos?

- Não sei. Eles gostam de mim, acho. Por isso.

- Mas, mãe… Todo ano? Nenhum amigo meu faz isso, ainda mais todos os anos!

- Filho, é importante que você vá. É muito importante para mim que todos vocês estejam lá comigo. É um favor que estou pedindo.

- Tá. Mas eu não quero ter que ficar tirando foto com as pessoas, depois! Porque eu tenho centenas de fotos daquilo! A gente tem mais fotos daquilo do que dos natais ou aniversários! É muito fanatismo!

- Tudo bem. Sem fotos. Eu apareço nas fotos, vocês não precisam.

- Promete?

- Prometo.

- Ok.

- Agora vai tomar banho, meu filho. E vocês, na escada! Todos pro chuveiro!

As crianças subiram correndo. Dois minutos depois, o caçula desceu e puxou a roupa da mãe.

- Posso levar meu joguinho?

Ela murmurou um “pode, pode” sem prestar atenção, pois já estava de olho no marido. Ele que deveria dar o exemplo e ainda nem havia começado a se arrumar. Mas, pressentindo o perigo, ele passou apressadamente pela sala, explicando que já havia tomado banho e se barbeado e que precisava apenas colocar a roupa nova e que já estava subindo e que logo estaria pronto e que ela não precisava nem falar nada.

Horas depois, a família saiu de casa apressada. Como acontecia em todos os anos, arrumados e sob os olhares curiosos dos vizinhos.

Mais tarde, naquela noite, a mãe foi chamada ao palco. Ganhara de novo. E, ao agradecer o prêmio, fez questão de agradecer à família e ao fato de estarem presentes ali. Eles nem deram muita atenção – especialmente o mais novo, que estava entretido com seu joguinho eletrônico.

Além disso, não precisavam prestar atenção em nada. Afinal, ano que vem tudo aconteceria novamente: a correria com as roupas, os eventos. E, claro, a mãe sendo premiada em todos eles. Ano que vem seria a mesma coisa. E no seguinte também. E no ano depois desse, também.

Às vezes, era meio entediante ser filho da Meryl Streep.

Em “Febre de Bola”, o Nick Hornby diz que os obsessivos tem uma memória mais CRIATIVA que os… não sei como ele chama “os outros” que não são obsessivos, mas eu me sinto muito à vontade para chamar de “pessoas normais” todos aqueles que não dão a mesma resposta que eu dei para a minha cunhada quando ela perguntou de quando era Karatê Kid:

- Eu acho que é de 84, mas passou na Globo pela primeira vez num domingo à tarde, em 86.

Sim, as pessoas me olham de um jeito esquisito, primeiro achando que eu inventei isso, depois querendo algum tipo de explicação, que é a seguinte: no dia em que passou esse filme (que eu já tinha visto no vídeo umas duzentas vezes) na Globo, a Bandeirantes passava o primeiro jogo das semi-finais do Paulistão entre Palmeiras x Corinthians. Sim, eu sei que o verdadeiro jogaço foi a segunda partida, mas o que me marcou nesse caso foi que, no dia seguinte, eu não conseguia comentar com ninguém sobre os desvarios do juiz larápio em favor do Corinthians, pois todo mundo (ATÉ MESMO OS HOMENS, OS QUE GOSTAVAM DE FUTEBOL!) só falava da porra do filme! Foi a primeira vez que testemunhei a dura realidade que o futebol não era o centro do universo para “os outros”. Coitados…

É que 86 foi o ano do meu “nascimento” como Palmeirense, tem também esse agravante. Se algum dia eu resolver escrever o “meu” Febre de Bola, essa história será quase que uma mola mestra de tudo. Sim, durante muito tempo eu devotei mais paixão pelo Goiás do que pelo Palmeiras, e a promiscuidade de quem crescia em Goiânia nos Anos 80 permitia numa boa que você tivesse 3 times (em GO, no RJ e SP), mas a minha IDENTIDADE futebolística veio com o Palmeiras. Gosto muito de dizer que foi aqui em Sorocaba que conheci duas das minhas grandes paixões: o Palmeiras em 86 e a Laura em 98. E é claro que o Duda, a maior de todas as paixões, ainda que a Laura não saiba, tem muito a ver com o Palmeiras, em termos de projeção e expectativa – sem falar na questão do nome dele, claro. Bom, a Laura não sabe, mas enquanto a gente decidia pelo nome dele, nenhum nome que eu queria a agradava e vice-versa, até que surgiu Eduardo. Por breves instantes, passaram algumas informações pela minha cabeça e eu concordei. Muito rapidamente, reconheço, o que suscitou nela uma certa curiosidade em saber como vencera tão fácil. A minha habilidade argumentativa vive me surpreendendo, e não sei de onde eu tirei que seria legal Eduardo, pois assim a gente poderia chamá-lo de DUDA, que é o apelido pelo qual minha família em Goiânia me chama. Ao dizer isso, achei que colocaria tudo a perder, pois me pareceu uma forma alternativa de colocar o nome de JÚNIOR nele, e se tem uma coisa que a gente sempre concordou, foi que Júnior é algo babaquérrimo.

Acabei dando sorte e o meu filho não só é Eduardo, como também é Duda, como eu. E mais, ele é Duda, filho de um Randall e neto de um Randall, como eu. Mas na verdade, o consenso para que ele se tornasse Eduardo/Duda surgiu no exato instante em que me dei conta de duas coisas:

1- Jamais conseguiria convencê-la de que o nome Edmundo era uma opção. Porém, Eduardo era o mais próximo que eu conseguiria chegar do meu objetivo, com as mesmas duas letras no começo e as duas no final. Já era alguma coisa!

2- Lá em 86, quando eu resolvi me tornar Palmeirense, eu precisava de um ídolo, claro! Mas isso seria difícil num time cujos maiores destaques eram o Éder, Jorginho Pé Frio, Lino, Gerson Caçapa, Mendonça e Mirandinha. Mas no meio desses “bondes” surgiria um garoto que jogava o fino, combinando raça e habilidade como o Edmundo viria fazer com mais excelência e resultados entre 93 e 95, e o nome desse garoto era Edu. Pronto, eu já poderia me considerar Palmeirense, pois tinha um ídolo no meu time, e teria que esquecer de uma vez por todas a minha irrestrita admiração por Sócrates e Casagrande, meus ídolos pré 86, quando eu era um apátrida futebolístico no Estado em que nasci.

Assim, pude garantir ao meu filho o legado de um nome com raízes Palmeirenses!

Agora que está provado, acima de qualquer dúvida razoável, que existe uma diferença CLARA entre os obsessivos como eu e as “pessoas normais” como muitos de vocês, a gente pode falar sobre a gênese de um Palmeirense…

Sorocaba, julho de 86 – Como era costume, vim passar férias em Sorocaba, na casa da minha tia. A grande novidade era o frio, achava o fato de dormir de abrigo de moletom e dois, às vezes três cobertores, quase uma atração turística à parte! Mas além disso, existia um clima, uma RIVALIDADE futebolística entre a molecada da rua em que o meu primo morava, que em nada se comparava com o que eu experimentava em Goiânia. Sim, até existia uma rixa entre torcedores do Goiás e do Vila, mas como todo mundo era “Flamengo no Rio”, meio que tava tudo certo. Ali, não, era tudo muito bem definido! Meu primo, Corintiano, não tinha, nunca teve e acho que nunca terá, uma peça de roupa VERDE. Eu acabei ficando afinzão de me inserir naquele contexto, mas eu não tinha time em São Paulo. Na verdade, eu dizia que torcia pro América de Rio Preto simplesmente por ter nascido lá, e o meu pai jura de pé junto que eu era Santos só porque ele era. Mas o meu pai “era Santos” de um jeito extremamente relapso, me parecia muito mais um estelionato afetivo só pra poder falar pros outros que torceu pro time do Pelé. Eu NUNCA fui Santos, apesar de toda a simpatia que tenho até hoje pelo time (na verdade, na reta final do Brasileiro de 2002 e na Libertadores do ano seguinte, torci por eles com um fervor que só conseguia devotar ao Palmeiras mesmo), mas quase fui Corinthians. Talvez, se tivesse dado certo de ir no Morumbi assistir aquele Corinthians x São Paulo no meio da Gaviões da Fiel como meu tio nos prometera, eu acabasse sendo “picado”, mas ao invés disso, ele achou que eu iria curtir MUITO MAIS um São Bento x Palmeiras, no aprazível estádio Walter Ribeiro, o CIC.

E não é que ele estava certo? Foi a minha primeira vez num estádio que não era o Serra Dourada, e é bom que se compreenda que, em termos de VARIAÇÃO, teve muito mais impacto assistir um jogo no CIC do que teria no Morumbi. Sim, o estádio do São Paulo é maior que o Serra Dourada, mas se você pensar na EXPERIÊNCIA, seria apenas ir de um estádio grande para outro MAIOR. Porém, no CIC, os jogadores ficavam a poucos metros de distância da gente e aquilo, no início me assustou, depois, me maravilhou! Tudo adquiria outra dimensão: os carrinhos, os dribles, os chutões… sem falar no que a gente conseguia OUVIR! Por exemplo, deu pra ouvir claramente a solerte instrução do Leão de “abre, abre, abre PORRA!!!” dispensando a barreira enquanto o Edel se preparava pra cobrar uma falta da intermediária, bem como deu pra ouvir o barulho do pé do Edel na bola antes dela descrever uma trajetória variável e morrer no fundo do gol do Palmeiras! O jogo foi 1 x 0 pro São Bento, fato comemorado pelas pessoas exibindo um orgulho citadino que hoje em dia não existe mais. Minha empolgação era tamanha que no domingo seguinte, os meus anfitriões entenderam que era quase uma obrigação me levar ao Morumbi para a minha estreia num estádio da Capital, e o jogo era propício: São Paulo x Palmeiras!

Quem me levou foi um cara que casou com uma prima da minha mãe, Palmeirense, que morava em Sorocaba, mas tinha crescido nas Perdizes, tendo sido sócio E atleta do Palmeiras. Ouvi histórias fantásticas no trajeto e tomei conhecimento da “fila” de 10 anos sem títulos que o Palmeiras enfrentava depois de um período brilhante, além de descobrir que o Palmeiras foi o único time que impedira o Santos de Pelé ser eternamente campeão paulista no auge do time praiano. Claro, não podia deixar de empenhar a minha simpatia por ele, mas se o São Paulo não tivesse enfiado 5 x 1, garanto que o clima teria sido muito melhor. Acho que a única coisa que eu poderia fazer, algo que estivesse ali ao meu alcance pra amenizar os sentimentos dele – e hoje, me vendo no lugar dele, sou capaz de dar a devida dimensão a esses sentimentos -, falei que tinha decidido me tornar Palmeirense. 

Sei que parece tresloucado e incoerente alguém resolver se tornar palmeirense depois de ver um time, que está há dez anos sem ganhar absolutamente nada, perder para um time insignificante do interior e levar uma goleada do São Paulo, mas quem me conhece, entende. Uns vão dizer que é a minha eterna vocação em ser “do contra”, outros não estarão muito errados ao afirmar que tal ato poderia ser interpretado como “tiração de onda”, mas foi assim. Vim pra Goiânia no meio da semana seguinte, a tempo de assistir com um amigo do meu pai que era corintiano, o Palmeiras fazer 5 x 1 no Corinthians, mas nem me deram o direito de comemorar apropriadamente, dizendo que ainda não “entendiam” esse negócio de ser palmeirense, era fogo de palha!

Aí veio esse tal jogo que passou no mesmo horário que Karatê Kid, perdemos de 1 x 0 pro Corinthians num dos maiores roubos da história do futebol (dentre outras coisas, o juiz expulsou o Edu, meu ídolo máximo!) e precisaríamos vencer o Corinthians pra forçar uma prorrogação. ESSE jogo foi o meu BATISMO como Palmeirense, pois teve de tudo! Pra começar, o meu pai, detentor de uma lendária antipatia pelo Corinthians, resolveu torcer pra eles justo NESSE dia, justificando que era por causa do Cacau (jogador do Goiás que o time paulista tinha comprado). “Tudo bem”, pensei, ele tinha feito o mesmo com o Atlético – MG em 80 e o Santos em 83 contra o “meu” Flamengo, portanto, a vantagem era totalmente minha! E foi muito sofrido! Somente aos 42 minutos do segundo tempo, depois de uma pressão inacreditável com direito a uma pancada no travessão do Éder, acontece uma falta pro Palmeiras na meia direita. O Jorginho joga a bola na área, alguém que eu acho que era o Vágner Bacharel cabeceia firme, pra baixo, certeiro, e o Carlos defende… nesse momento, eu estou de joelhos no carpete da sala, com uma lágrima pronta pra sair, quando o Mirandinha aparece no rebote e chuta fraco, mas com força suficiente para a bola entrar… ajoelhado mesmo, comecei a gritar e chorar ao mesmo tempo, sentindo pela primeira vez que aquela alegria toda era minha de direito, eu tinha legitimidade para poder me alegrar com uma vitória épica sobre o maior rival!!! E a vitória se tornou ainda mais épica na prorrogação, com outro gol do Mirandinha e um Olímpico do Éder, finalmente entrou o gol que ele tanto tentou fazer na Espanha em 82!!!!

É claro que você sabe tão bem quanto eu o final dessa história em 86: perdemos EM CASA o título para a Inter de Limeira, 2 x 1 depois de uma atrasada de bola mal sucedida de um lateral esquerdo loirinho cujo nome não se pronuncia. Mas sem sombra de dúvidas, aquele primeiro ano me forneceu tudo aquilo que eu iria precisar para ser um torcedor do Palmeiras: sofrimento, decepção com títulos perdidos de forma idiota dentro de casa, surras do São Paulo, vitórias improváveis e históricas contra o Corinthians e tudo aquilo que não se explica, mas que faz de você um autêntico Palmeirense!

- Filho, bebe essa água benta que pus teu nome na oração do padre, é pra você encontrar seu caminho na vida.

- Menino, larga desse cigarro, você é tão inteligente e tão cheio de ideias pra ficar colocando essa porcaria na boca.

- Sai desse computador, isso só atrasa tua vida.

- Cara, para de sair, ficar bebendo, essas coisas e essas pessoas que você encontra vão acabar te trazendo coisas ruins.

- Mano, arruma um emprego fixo e para de ter essas ideias. Deus não quer que você fique duvidando. Você precisa ser um homem trabalhador e digno.

- Filho, essa música é do mal, que coisa horrivel. Precisa gritar pra cantar? Isso não é arte…

- Filho, vamos na missa com a mãe? Deus tá querendo te resgatar.

- Faz essa barba e corta esse cabelo, faz uns exercícios. Olha que tosse mais feia!

- Toma jeito de homem, moleque. Para de desmunhecar essa mão e engrossa essa voz!

- Não entendo essas coisas que você lê. Pra quê essa tal metafísica aí? Fica colocando minhoca na cabeça e fica aí, depressivo. Daqui a pouco vai querer se matar.

- Não, filho, eles tão certos. Tem mais é que bater nesses vagabundos. Essas universidades tão tudo cheia de vagabundo. Você não entende nada dessas coisas.

- Aquela tua amiguinha lá, fez uns três abortos que eu sei, e ainda fuma maconha e vai naquele terrero de macumba lá. É isso que você chama de amiga? Vai rezar, moleque!

- Esquece esse negócio de ir pra São Paulo, aquilo lá é um inferno, você precisa ficar aqui, com quem te ama e te entende.

- O que a gente fala é pro teu bem. A gente te ama. Vai lavar a louça.

- A noite é feita pra dormir e Deus ajuda quem cedo madruga!

- Esse negócio de escrever não vai pagar teu aluguel. Vai arrumar um emprego de gente.

- Acorda pra vida, rapaz!

No último fim de semana, eu estava numa Livraria Cultura com o Duda e a Laura e enquanto ele explorava o território, fui dar uma descansada no revezamento de turnos e vi dois carinhas conversando:

- Ah cara, não tive dúvida, os dois eram de 340 metros quadrados, mas a diferença era 6 vagas na garagem…

6 vagas na garagem! Tipo, o apartamento de 340 metros quadrados nem espanta tanto, mas as 6 vagas e mais: o fato das 6 vagas fazerem diferença! E talvez você esteja doido para que eu descreva os caras vestidos com camiseta polo da Lacoste pra dentro da bermuda de prega, cinto e dockside, mas nem, era bermuda e camiseta, calça jeans e camiseta. Provavelmente, bermuda, calça e camiseta das marcas mais caras existentes no mercado, mas até aí morreu o Neves.

Inveja?

Isso me lembrou uma vez que eu fui a Goiânia, tinha uns 5 anos de formado e passei no escritório de um amigo, que tinha se formado comigo e vinha se dando muitíssimo bem na carreira. Carro, apartamento, vida boa… comentei sobre o suspensório ridículo que ele tava usando e ele me disse que eu tava com inveja. Inveja? Só depois de muito tempo eu fui sacar a subliminaridade do lance enquanto coisa: eu tinha inveja da vida perfeita dele. A grana, o carro, as roupas, o apartamento… mas não conseguia achar nada que não fosse perfeito na vida dele pra criticar, então, ia no suspensório pra ter esse “gostinho”. Na verdade, era só um amigo fazendo o que os amigos fazem (ou deveriam fazer): dando a real, via toque maneiro! O suspensório era ridículo, só isso. Na verdade, o cabelo tava meio idiota e camisa com abotoadura vai tomar no cu, mas a gente não era tão amigo a esse ponto.

Mas eu também não fiquei com inveja do carinha do apartamento de 6 vagas na garagem, de verdade! Porque eu fico imaginando o que ele deve ter que fazer pra ter isso com tão pouca idade (parecia mais novo que eu), e se for simplesmente filho de rico, melhor ainda (pra ele). Me filio à corrente doutrinária que afirma que a frase “O trabalho enobrece o homem” foi inventada por alguém que tinha um monte de gente pra trabalhar pra ele. Mas eu fico, realmente, pensando porque uma pessoa precisaria de 6 vagas na garagem. Tá, se ele quiser ter 6 carros, o problema é dele, mas não tem algo errado aí?

Eu tenho conhecidos ricos. Bem ricos. Bem sucedidos, alguns com até mais do que 6 carros – ou com uns 4 que dariam pra comprar todos os carros que a minha família até 3º grau possui – e nunca quis ter os carros deles. A vida deles. Não porque a minha vida é boa demais e bla bla bla, porque todo mundo sabe que, desde que a empresa onde eu trabalhei 11 anos saiu do Campo Belo pra Alphaville, minha vida entrou numa sequência meio “Joseph Klimber” e eu morei de favor na casa da minha sogra por 3 anos – era pra ser 6 meses -, situação que afetava sobremaneira a minha dignidade. Não pelas pessoas, pois a minha sogra, minha cunhada e o marido dela são sensacionais, mas pela situação em si. Sempre fui um cara com baixas ambições, e não quero nem entrar no mérito disso ser bom ou ruim, só acho que isso já me colocou, de saída, fora da fila dos caras que um dia terão apartamentos com 6 vagas na garagem.

Mas aquela invejinha “branca” (eu sei que isso não existe, mas preciso desse recurso) eu sinto de alguns amigos “mortais”, essas pessoas que conseguiram alinhar suas vidas de modo a conseguir simplesmente sair de casa pela manhã e voltar de noite com as latas cheias, mas saem da própria casa e pra ela voltam. Coisa que eu consegui fazer, com soberania, entre 2003 e 2008, e sei bem como é gostoso! Por menor que seja a casa. Ao tomar a decisão de largar um emprego estável, sabia muito bem que estaria colocando no pacote essa questão delicada na gaveta do “a procrastinar”, e sei que tenho que aprender a conviver com isso.

O ano parece começar melhor que os outros, desde que a gente voltou pra Sorocaba. Ao menos pra mim. Me vejo um pouco mais perto do que eu me proponho alcançar. E cada vez mais longe de um fim que eu temia. Isso é bom. Isso é mais do que suficiente pra seguir adiante.

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